Mariana Ximenes está encantada com suas raízes
Em entrevista à Bravo, a atriz falou sobre sua homenagem no Cine Ceará!, a história de sua família e seu novo papel como embaixadora do Instituto Terra
Com jeito doce e solar, sorriso generoso e uma energia que se confunde com a de quem está começando, a atriz Mariana Ximenes já faz parte da memória popular da teledramaturgia. Como conquistou esse lugar? No início, com personagens que rapidamente cativaram o público, como a mocinha Ana Francisca em Chocolate com Pimenta (2003), a apaixonada Rosário em A Casa das 7 Mulheres (2003), a insubmissa Raíssa em América (2005) e tantas outras que vieram depois. E com versatilidade, novas personagens saíram das telas da TV e ganharam vida também no cinema e nos palcos do teatro. Ao longo de quase três décadas de carreira, iniciada ainda na adolescência, foram imersões sucessivas, uma após a outra, com pouco tempo para olhar para tudo o que aconteceu. Talvez porque o tempo, aparentemente, tenha passado depressa demais. Mas isso mudou recentemente.
Em setembro, Mariana recebeu uma notícia que a pegou de surpresa. Mas calma, uma das boas: seria homenageada no 35º Cine Ceará!, um dos mais tradicionais eventos de cinema do país. A escolha de seu nome fazia todo sentido para uma cerimônia como essa. Afinal, são mais de 30 filmes ao longo de uma trajetória dedicada ao audiovisual. Mas havia um motivo a mais, conhecido por poucos: suas raízes cearenses.
Embora tenha nascido em São Paulo e se dividido entre a capital paulista e o Rio de Janeiro, Mariana passou grande parte da infância no Ceará, terra natal de sua mãe e avó. Retornar àquele estado religou memórias adormecidas, principalmente relacionadas às histórias das mulheres de sua família.
“Fui revisitar minhas próprias lembranças; minhas fotos de criança, meus primos. Todas as férias de janeiro a gente passava no Ceará, na casa do meu tio Afonso. Ficávamos lá um mês e meio. Tenho lembranças muito marcantes dessa época. Tenho dois primos-irmãos, o Leandro e a Juliana, e, quando estive lá, abrimos álbuns antigos juntos. Foi um mergulho também na vida pessoal, muito intenso.”, contou a atriz em entrevista por telefone à Bravo! “Voltei com vontade de ficar mais tempo, de viver mais aquilo. Saí de lá querendo fazer um projeto no Ceará, participar da cinematografia cearense. Foi um momento realmente único.”
Sua avó, Maria do Carmo, nasceu em Sobral. Como tantas mulheres naquela época, ela teve muitos filhos: 15 no total. Diante das dificuldades, um primo de Maria do Carmo, a quem ela considerava um irmão, e que morava no Rio de Janeiro, não podia ter filhos, mas tinha condições e disponibilidade. Ele disse que poderia ajudar a criar uma das crianças, garantindo maior acesso à educação. A pequena Fátima Ximenes – mãe de Mariana –, ouvindo de canto, logo se levantou e se candidatou na mesma hora. Não havia mais espaço para dúvidas.
Partiram num carro “pau de arara” (adaptação de caminhões para o transporte de pessoas) até o Rio. “Ela teve esse ímpeto, essa vontade de voar. É muito bonito pensar nessa força, a da minha avó, Maria do Carmo, que criou quinze filhos no sertão do Ceará, e a da minha mãe, que aos sete anos quis sair para o mundo, estudar, aprender. Mas, mesmo longe, minha mãe nunca perdeu os laços familiares. Pelo contrário: sempre fez questão de manter viva essa chama, de reunir todo mundo. Passou esses valores para mim e para o meu irmão.”
Esse gene, aparentemente, saltou de mãe para filha. E que se manifestou através do desejo de voar a partir de diferentes histórias, de pessoas diversas. O encontro com a atuação veio ainda mais cedo, na infância, quando fez teatro na escola. E percebeu, com aquela intuição infantil que perdemos ao longo da vida, que aquele poderia ser um caminho frutífero. “Com seis anos eu já tinha esse desejo. Participei de uma peça na escolinha, Cinderela, e lá já senti que queria ser atriz. Mas, claro, isso podia não ter vingado. Eu continuo amiga da minha primeira professora, a tia Vivi, que me alfabetizou. Ela sempre conta para os meus amigos: ‘Essa menina já era uma espuleta! Já queria ser atriz, já era danada.’”, lembra a artista. “Eu sou muito inquieta até hoje. Essa inquietude me move, me faz seguir.”
No Ceará, a inquietude se manifestou em calma, em contemplação. Não apenas enquanto voltava à sua própria história, mas também ao acompanhar artistas e cineastas da região. “Estar lá também me permitiu ver curtas de jovens cineastas cearenses, muitas mulheres. Pensei: ‘Como quero viver mais essa terra, essa efervescência criativa.’ Foi um resgate completo: profissional, pessoal e afetivo.”
Mas, claro, como todo processo de autoconhecimento, o ciclo não se limita a olhar apenas para o passado; envolve também refletir sobre o que ainda pode ser feito e as direções possíveis, sempre conectadas com quem se é. “Foi um momento único: olhar para trás, reverenciar o passado, agradecer, mas também viver o presente e traçar novos propósitos. Quem é a Mariana de agora? Que mulher, que artista quero me tornar?”, refletiu a atriz.
“As respostas vêm com o tempo, é um processo. Voltei dessa viagem preenchida de afeto, cercada pelo carinho de meus tios e primos que não via há anos. Foi também um mergulho de conhecimento: pesquisei, conheci mais do audiovisual cearense e visitei a Pinacoteca, vendo de perto obras da Grauben [do Monte Lima] e Chico da Silva, artistas que só conhecia de ouvir falar. Foi muito bonito sentir essa energia viva da arte.”
Os pontos, aos poucos, vão se conectando. Alguns deles já estão mais alinhados. Um de seus grandes propósitos atualmente está relacionado ao meio ambiente e a uma função especial que lhe foi confiada por outro grande artista brasileiro. Explico: recentemente, Mariana assumiu o papel de embaixadora do Instituto Terra, fundado pelo fotógrafo Sebastião Salgado e sua esposa, Lélia Wanick Salgado.
Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, localizada em Aimorés, Minas Gerais, dedicada à recuperação ambiental e à educação. A principal missão do instituto é reflorestar a região do Vale do Rio Doce, devastada pelo desmatamento e pela pecuária. Recentemente, inclusive, viralizou uma das imagens de uma imensa área reflorestada por iniciativa de Sebastião e Lélia.
Mariana chegou ao território com humildade, e uma câmera debaixo do braço. Permitiu que seu deslumbramento orientasse seu olhar, como uma cineasta em progressão, para registrar o legado construído pelo casal. A ideia é produzir um documentário sobre o projeto de reflorestamento realizado por eles ao longo de décadas de trabalho. “Ainda estou descobrindo como esse projeto vai se concretizar, mas o objetivo é valorizar e divulgar o que eles fizeram; um trabalho deslumbrante que transformou uma área gigantesca. É um projeto grandioso, que exige responsabilidade e respeito pelo legado.”
Em paralelo, ela concluiu a gravação do filme sobre Cacilda Becker (que será protagonizado por Débora Falabella), com direção de Júlia Moraes. Nele, Mariana interpreta Tônia Carrero, que por muito tempo foi considerada um desafeto profissional de Cacilda.
Minutos antes de desligar o telefone, a atriz falou sobre o que ainda a inspira na atuação. A resposta está principalmente na ética de trabalho e no brilho no olhar de tantos artistas que vieram antes dela e com quem teve a oportunidade de contracenar.
“Ao longo dos anos, percebi que compromisso, disciplina e generosidade são essenciais. Escutar — em cena e fora dela —, ter um mundo interno construído de estudo e pesquisa do personagem, e, ao mesmo tempo, cultivar intuição, ousadia e liberdade criativa, são indispensáveis”, devagar, ela escolhe cuidadosamente suas palavras.
“Lembro quando passei dois meses filmando na Itália (a novela Passione, de 2010). Fernanda [Montenegro] e Tony [Ramos] eram sempre pontuais, com o texto na ponta da língua, disponíveis, começando às cinco da manhã para aproveitar a luz. O maior aprendizado que levo desses anos é justamente essa disciplina, esse comprometimento e a generosidade.”