Sem aviso, Teatro de Contêiner é derrubado e coletivo denuncia abandono institucional
Marcos Felipe, coordenador da Cia. Mungunzá, afirma que o grupo não tem conseguido estabelecer diálogo com o poder público
Esse não tem sido um período fácil para os teatros de São Paulo. Em 2025, dois deles foram fechados para dar lugar a novos empreendimentos, e outro foi demolido da noite para o dia após notificação de despejo e uma longa luta judicial. No último fim de semana, o Teatro de Contêiner, que ao longo de dez anos ocupou um terreno na Rua dos Gusmões, na região de Santa Efigênia, foi derrubado, encerrando uma história de dez anos no local.
O espaço, antes de encerrar suas atividades em 2025, foi fundamental para levar cultura e dinamizar o bairro, historicamente conhecido por abrigar a chamada cracolândia. No dia da demolição, 21 de março, os integrantes da Cia. Mungunzá de Teatro, responsáveis pela gestão do espaço, estavam viajando pelo interior de São Paulo para a apresentação de um espetáculo. E foram surpreendidos quando um vizinho alertou que o teatro estava sendo demolido. A ação foi conduzida pela Prefeitura de São Paulo, que afirmou, em nota, que o coletivo “ocupou irregularmente a área da Rua dos Gusmões por quase dez anos”. Felipe afirma também que parte da estrutura do teatro foi deixada em um terreno na Avenida do Estado.
A disputa teve início em 2025, quando a Cia. Mungunzá de Teatro recebeu uma notificação extrajudicial da Prefeitura determinando a desocupação do terreno no prazo de 15 dias. A justificativa era a futura construção de um hub de moradias sociais. Ao longo do ano, após embates judiciais, o teatro conseguiu um fôlego temporário, mas sem definição clara sobre para onde iria, de que forma se daria a mudança ou quais recursos estariam disponíveis para isso.
Em setembro, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo aceitou um recurso da Prefeitura e determinou que o coletivo teria 90 dias para desocupar o local. À época, estimou-se um custo de cerca de R$ 2 milhões para cobrir a desmontagem, o transporte e a remontagem da estrutura. Ao longo do processo, a prefeitura chegou a oferecer R$ 100 mil para a transferência. Entre as alternativas apresentadas estava um terreno na Rua Helvétia. No entanto, segundo Marcos Felipe, coordenador do coletivo, não houve novos retornos por parte da gestão municipal.
Enquanto isso, a Cia. Mungunzá passou a realocar parte de suas atividades para a Funarte.
Já em janeiro deste ano, uma nova decisão da Justiça reconheceu o fim do prazo para desocupação.
Em entrevista à Bravo!, Marcos Felipe detalha a ação de demolição e comenta as perspectivas do grupo para reconstruir o teatro.
Bravo!: Poderia detalhar quais foram os desdobramentos mais recentes envolvendo o teatro? Como avaliam os últimos acontecimentos?
Marcos Felipe: Nós assinamos um acordo no final de dezembro, depois que concluímos o cronograma de apresentações e os projetos no Teatro de Contêiner. A gente assinou um acordo em que aceitávamos o terreno na Rua Helvétia. Isso foi, acho, no dia 25 ou 26 de dezembro.
E, desde então, a prefeitura sumiu e não respondeu mais aos nossos contatos, não respondia absolutamente nada.
Nós tentamos contato, enviando e-mails, tentando algum de acesso para organizar a retirada dos contêineres e também para organizar a nossa entrada na Helvétia. Só que eles desapareceram por quase quatro meses.
No início de janeiro, eles lacraram o teatro. O espaço ficou lacrado, e continuamos tentando, tentando… pensando: “como transferir, vamos transferir, vamos transferir”.
E, nesse final de semana que passou, nós fomos surpreendidos com a demolição sumária do Teatro de Contêiner. E, para o nosso espanto, as estruturas não foram levadas para o terreno da Rua Helvétia, como estava acordado. Foram levadas para outro terreno.
E como foi o momento que descobriram a demolição do teatro?
Estávamos viajando para São José do Rio Preto, onde tínhamos uma apresentação, quando um vizinho tirou uma foto e avisou: “Eles estão desmontando o Teatro de Contêiner aqui”.
Foi assim que ficamos sabendo. Ao retornarmos, vimos que a demolição havia sido feita sem qualquer comunicação prévia, sem aviso, sem placa de obra e sem alvará de demolição.
No momento da chegada, nós também fomos surpreendidos com todos os funcionários trabalhando às pressas, sem equipamentos de segurança, em uma demolição que avançou pela madrugada para ser concluída rapidamente, em cerca de dois dias.
O que havia sido acordado com a prefeitura e Governo do Estado até então?
Havia sido acordado com a prefeitura que a saída do terreno das Gusmões seria seguida da transferência para a Rua Helvétia, nº 807, onde seria ocupado um espaço de 1.000 m² por um período inicial de dois anos.
Qual foi a resposta do poder público diante dessa situação?
Não houve absolutamente nenhum retorno do poder público. Tudo ocorreu de forma muito violenta e sem qualquer devolutiva.
O que se sabe vem apenas do que foi divulgado na imprensa, como a alegação de que o acordo de saída não teria sido cumprido, entre outras versões.
Na prática, não há comunicação direta por parte do poder público. Tudo está acontecendo sem que se tenha clareza sobre quais são os reais interesses do Governo do Estado e da prefeitura.
Houve algum tipo de apoio por parte do poder público para a transferência do teatro? Onde estão atualmente armazenados os objetos e materiais?
Não, eles dizem na imprensa que ofereceram R$ 100 mil. De fato, esse valor foi oferecido, mas a transferência não chegou a ser concretizada.
Durante esse processo, foram feitas diversas articulações com vereadores para a destinação de emendas que pudessem arcar com os custos dessa mudança. O vereador Celso Giannazi, inclusive, programou uma emenda no orçamento deste ano no valor de R$ 2 milhões, justamente para cobrir os custos de desmontagem, transporte e remontagem no novo terreno.
No entanto, isso não foi efetivado, porque a prefeitura conduziu tudo de forma rápida e abrupta, sem qualquer comunicação.
O que se entende é que não há interesse na continuidade do Teatro de Contêiner. A oferta do terreno na Rua Helvétia teria ocorrido em um momento de pressão popular, e, depois disso, o processo passou a ser conduzido de forma protelatória, até que a situação se desdobrasse da maneira como ocorreu neste último fim de semana.
Foi possível retirar parte dos materiais de dentro do teatro, como cenário e alguns equipamentos. E alugar um pequeno galpão para armazená-los. No entanto, toda a estrutura principal permaneceu no local.
Como os membros do coletivo têm garantido a própria subsistência? Houve algum repasse financeiro da prefeitura ou governo para viabilizar a realocação?
Todos estão muito abalados. Trata-se de um processo traumático, muito difícil de ser superado. O Teatro de Contêiner era o meio de sobrevivência do grupo, um projeto de vida, e também o espaço onde se concentrava a atuação profissional cotidiana.
Neste momento, o impacto é profundo. Parte significativa da coletividade está emocionalmente fragilizada, recorrendo inclusive ao uso de medicação, sem saber o que vai acontecer no futuro e sem qualquer perspectiva concreta.
É uma situação que, em certa medida, reflete a realidade de muitos artistas brasileiros, mas que, neste caso, se apresenta de forma ainda mais agravada.
Quais são os próximos passos? Há previsão de abertura do novo espaço? Já existe um endereço definido? Quais são os principais entraves para isso?
Bom, os próximos passos agora são tentar fazer com que a prefeitura libere a entrada na Rua Helvétia e autorize a retirada dos contêineres, para que seja possível iniciar, ao menos de forma mínima, a reconstrução do espaço nesse novo endereço.
Em paralelo, o grupo está sendo assistido pelo governo federal, por meio do Ministério da Cultura e da Funarte, também com a perspectiva de um plano alternativo. Caso a transferência não se concretize, foi feito um pedido à Superintendência do Patrimônio da União para que realize um mapeamento de possíveis espaços públicos federais que possam abrigar o Teatro de Contêiner e viabilizar sua remontagem neste momento.
Existe uma estimativa de custo para essa nova operação? A prefeitura está apoiando ou pretende apoiar financeiramente essa mudança?
Não há uma estimativa precisa dos custos neste momento. No início de todo esse processo, a prefeitura solicitou que uma empresa elaborasse um orçamento, que ficou em torno de R$ 2 milhões. Esse valor chegou a ser encaminhado ao poder público.
No entanto, considerando que o teatro foi completamente destruído e parcialmente desmontado e realocado, já não é possível afirmar com precisão quais serão os custos para sua remontagem.
Muito provavelmente, a prefeitura não deve contribuir financeiramente. Ainda assim, existem articulações com parlamentares que destinaram emendas para a reconstrução do teatro.
Para que isso se concretize, porém, é necessária uma disposição por parte da prefeitura, tanto para liberar o acesso ao espaço quanto para viabilizar a execução dessas emendas. Como se trata de parlamentares da oposição, a destinação dos recursos
não garante sua execução, já que o poder executivo pode simplesmente optar por não efetivá-las.
Os contêineres e estrutura do teatro foram recuperados? Há perspectiva de reutilizá-los?
A ideia é contar com a reutilização dos contêineres. No entanto, pelo que se entende até agora, será necessário refazer praticamente toda a estrutura que não diz respeito a eles.
Isso inclui toda a parte elétrica, o telhamento, as estruturas metálicas, o envidraçamento, as estruturas de madeira e o tratamento acústico.
Até onde se sabe, todos esses elementos foram destruídos, o que exigirá a reconstrução completa dessas partes.
O Ministério da Cultura e a Funarte ofereceram algum tipo de apoio ao longo desse processo?
O apoio inicial foi no sentido de tentar mediar o diálogo com a prefeitura e com o governo do estado. No entanto, isso não teve sucesso, já que a mesma falta de retorno enfrentada pelo grupo também se repetiu nessas tentativas; não houve resposta nem à ministra, nem à presidenta da Funarte.
Diante disso, a primeira frente de atuação foi a mediação. Neste momento, porém, o apoio tem se dado de outras formas. Há uma postura de parceria e acolhimento, com a programação do Teatro de Contêiner sendo recebida pela Funarte, no Complexo Funarte, em São Paulo.
Além disso, há um diálogo em andamento com a Superintendência do Patrimônio da União, com o objetivo de mapear alternativas caso o terreno da Rua Helvétia não se concretize, buscando um espaço federal que possibilite a remontagem do teatro na cidade.
Essas têm sido, até agora, as principais frentes de apoio da Funarte e do Ministério da Cultura.
Bravo! solicitou uma nova manifestação da Prefeitura de São Paulo diante das declarações do representante da Cia. Teatral. A resposta será incluída no texto assim que houver retorno.