Em Lia Lia, Camila Pitanga e Bete Coelho celebram o primeiro trabalho em conjunto
Montagem transforma romance de Caetano W. Galindo em experiência cênica de rara beleza, com as duas interpretando diferentes facetas da mesma mulher
Depois de percorrer seis cidades do interior paulista, Lia Lia estreia em São Paulo nesta sexta-feira (24), no Centro Cultural Fiesp. Baseada no romance Lia: Cem Vistas do Monte Fuji, de Caetano W. Galindo, a montagem reúne, pela primeira vez em cena, Camila Pitanga e Bete Coelho para interpretar diferentes facetas de uma mesma personagem. O resultado é uma investigação teatral sobre memória, tempo e identidade que se constrói em fragmentos, sem uma linearidade narrativa.
Produzido pela Teatrofilme — companhia criada por Bete Coelho, Gabriel Fernandes e Lindsay Castro Lima —, o espetáculo acompanha uma mulher comum cuja trajetória emerge por meio de lembranças, sensações e episódios cotidianos. Em vez de uma biografia organizada cronologicamente, a encenação propõe um mosaico de instantes que convida o espectador a reconstruir a personagem a partir de suas lacunas.
“É como se cada pedaço dessa mulher tivesse uma história própria. Não há uma ordem cronológica; o público mergulha em temas como a finitude, a passagem do tempo e as relações amorosas e familiares”, resume Camila Pitanga.
A adaptação aposta na convivência de duas intérpretes para materializar as múltiplas dimensões de Lia. Camila imprime delicadeza e luminosidade à personagem, enquanto Bete constrói uma presença mais intensa e introspectiva. O encontro não busca a alternância de papéis, mas uma espécie de coexistência, em que duas atrizes compartilham um mesmo fluxo de consciência.
Segundo Gabriel Fernandes, que divide a direção com Bete Coelho, o diálogo entre as duas é o eixo do espetáculo. “Elas são bastante diferentes, mas artisticamente compartilham pensamentos e escolhas. Uma está o tempo todo se oferecendo à outra por um bem maior, que é a própria peça.”
A cenografia assinada por Daniela Thomas reforça essa ideia de memória fragmentada. Um emaranhado de fios conecta móveis e objetos, criando uma paisagem que parece dar forma às relações invisíveis entre as lembranças da protagonista. “A vida é esse amontoado de cenas que se conectam de formas muito sutis, mas que aqui a gente faz aparecer… com delicadeza”, comenta Daniela Thomas, que criou a cenografia. “O cenário surgiu como uma visão logo no primeiro ensaio. Veio pronto, de uma vez.”, afirma.
Sobre essa arquitetura visual, o desenho de luz de Beto Bruel e a dramaturgia sonora criada por Felipe Antunes e Rodrigo Gava estabelecem uma atmosfera em constante transformação. Antunes também compôs um blues interpretado por Camila Pitanga em uma das passagens mais delicadas da montagem. Os figurinos de Renata Corrêa seguem a lógica de sobreposições: como nenhuma das atrizes deixa o palco, todas as transformações acontecem diante do público.
O elenco inclui ainda Roberto Audio, Laís Lacôrte e Lindsay Castro Lima, além de um coro de oito atrizes que funciona como uma reverberação da consciência da protagonista, alternando os papéis de narrador, comentário e contraponto. Em cada cidade da turnê, duas estudantes do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi-SP são incorporadas temporariamente ao grupo, ampliando o caráter formativo do projeto.
Duas trajetórias, o mesmo olhar para o fazer teatral
Embora tenham construído carreiras em territórios distintos, Camila Pitanga e Bete Coelho chegam a Lia Lia movidas por uma inquietação comum: a busca por um teatro de pesquisa. Filha de Antônio Pitanga e Vera Manhães, Camila tornou-se um dos principais nomes da televisão brasileira, mas não abandonou os palcos. Ao longo das últimas décadas, conciliou novelas e séries com projetos autorais, aproximando-se de diretores e companhias interessados em experimentação cênica.
Bete Coelho percorreu o caminho inverso. Formada no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro contemporâneo. Trabalhou com encenadores como José Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas e, à frente da Teatrofilme, desenvolve há quase duas décadas uma pesquisa que aproxima literatura, teatro e cinema. Desse percurso nasceu a parceria com Caetano W. Galindo, primeiro em Molly Bloom, adaptação do último capítulo de Ulisses, de James Joyce, depois com Ana Lívia e Outras Mulheres, seu primeiro texto teatral, e agora com Lia Lia.
O encontro entre as duas, portanto, não representa apenas a reunião de duas atrizes consagradas, mas a convergência de percursos distintos que compartilham o interesse por uma atuação construída na investigação artística e no diálogo com a literatura.
Lia Lia fica em cartaz no Centro Cultural Fiesp até 9 de agosto, com apresentações gratuitas. Nos dias 12 e 13 de setembro, o espetáculo se apresenta no festival Sesi em Cena, em Belo Horizonte.
Serviço
Lia Lia
Até 9 de agosto
Centro Cultural Fiesp | Avenida Paulista, 1313, Bela Vista, São Paulo – SP
Quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h.
Ingresso: Grátis, com reserva pelo site do Sesi-SP.





