Avatar do usuário logado
Usuário

O sonho do Parque Rio-Bixiga

O Projeto do Teatro Oficina para a construção de uma área verde no Bixiga, em São Paulo, dá passos largos rumo à sua tão esperada concretização

Por Humberto Maruchel 18 abr 2024, 09h00 | Atualizado em 23 Maio 2024, 22h24
parque-rio-bixiga
Simulação do projeto para o Parque do Rio Bixiga _ Teat(r)o Oficina e Universidade Antropófaga; Gesto Arquitetura; VELA. oficina; Geasa Engenharia; Projeto Cidade, Infraestrutura e Adaptação às Mudanças do Clima, da Universidade Mackenzie, em colaboração com integrantes do movimento em luta pelo Parque do Rio Bixiga. (Teatro Oficina/reprodução)
Continua após publicidade

O Parque Rio-Bixiga idealizado e defendido por Zé Celso e o Teatro Oficina Usyna, está mais próximo de se tornar realidade do que nunca. Neste ano, uma série de acontecimentos importantes indicam que a ideia está prestes a sair do papel. A mais recente dessas movimentações foi a compra pela Prefeitura de São Paulo do terreno de 11 mil m² que cerca o poderá abrigar o parque. Em seguida, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou, por unanimidade, o Projeto de Lei 222/2024 que trata sobre a criação do Parque Municipal do Rio Bixiga. Agora, com a aprovação do acordo pelo Grupo Silvio Santos, resta o pagamento do valor do terreno pela prefeitura para que o parque comece a ser construído. 

[abril-veja-tambem]W3siaWQiOjEwODEzLCJ0aXRsZSI6IjUgbcO6c2ljYXMgZGUgQWRvbmlyYW4gQmFyYm9zYSBwYXJhIGNvbmhlY2VyIFPDo28gUGF1bG8ifSx7ImlkIjo4MzY4LCJ0aXRsZSI6IkxlbWJyYW7Dp2FzIGRlIFrDqSBDZWxzbyJ9LHsiaWQiOjkxLCJ0aXRsZSI6IiYjeDIwMUM7VW1hIHByaW1hdmVyYSBicmFzaWxlaXJhICYjeEU5OyBwb3NzJiN4RUQ7dmVsJiN4MjAxRDssIGRpeiBaJiN4RTk7IENlbHNvIn1d[/abril-veja-tambem]

Origem dos recursos

Em dezembro de 2023, o Ministério Público de São Paulo propôs um acordo com a Prefeitura de São Paulo e a UNINOVE, estabelecendo uma indenização de R$ 1,050 bilhão. Esse pagamento faz parte de um termo assinado pela UNINOVE, concordando em pagar a multa para evitar um processo decorrente de um caso de corrupção ativa. Em 2013, surgiu a denúncia de que a instituição teria subornado agentes da prefeitura para evitar impostos.

Do total acordado, o Ministério Público sugeriu que R$ 51 milhões fossem destinados à compra do terreno pertencente ao Grupo Sílvio Santos (Grupo SS). Até então, a intenção do conglomerado era erguer três torres comerciais com mais de 100m, na área ao lado do Teatro Oficina. Anteriormente, também foi proposta a construção de um shopping center. Para os integrantes do Oficina, os dois projetos teriam consequências desastrosas para o meio ambiente e também para o bairro Bixiga. Uma das preocupações centrais é que debaixo do terreno passa um importante rio. Além disso, a iniciativa, na visão dos artistas e ativistas, poderia descaracterizar o bairro, acelerar o processo de gentrificação e comprometer a entrada de luz no Oficina (o prédio possui parte da fachada lateral de vidro).

Em 2016, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) indeferiu a construção das três torres pela corporação, compreendendo que o empreendimento prejudicaria o Teatro Oficina.

No final de 2023, a proposta foi celebrada pelo Teatro Oficina e por organizações sociais que advogam pela criação do parque. Contudo, havia incerteza sobre a aceitação do Grupo SS em vender o terreno por esse valor. Uma das hipóteses, em caso de recusa por parte da corporação, era a desapropriação do terreno. Meses depois, em abril deste ano, foi anunciado que o grupo empresarial estaria disposto a vender o terreno por R$ 80 milhões.

E na última semana, o jornal Folha de S.Paulo publicou que a prefeitura irá realizar uma avaliação imobiliária no local com técnicos da própria prefeitura para compreender o valor do terreno.

Continua após a publicidade

O que acontece agora

Tudo depende da avaliação da propriedade. A prefeitura pode aceitar a proposta do Grupo ou oferecer uma contraproposta. Em caso de desapropriação, o valor pago ao proprietário é determinado pela Justiça.

Em paralelo a tudo isso, outra circunstância animou os defensores do parque. No dia 8 deste mês, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) protocolou um projeto que inclui o parque no Plano Diretor Estratégico. A atitude gerou surpresa, pois em 2020 o prefeito (na gestão Bruno Covas-Ricardo Nunes) vetou outra proposta do ex-vereador Gilberto Natalini (PV), aprovada na Câmara Municipal. Uma das justificativas era que o plano não dizia de onde os recursos viriam – um problema, aparentemente, solucionado.

teatro-oficina
Vista do Teatro Oficina (Teatro Oficina/arquivo)

“Não se trata de uma briga de vizinhos”

Camila Mota, atriz e diretora, um dos braços fiéis de Zé Celso, persiste na linha de frente da luta. Mas, agora, ela reconhece que o protagonismo não é mais do Teatro Oficina para os próximos passos. “Nunca foi uma briga de vizinhos. Por mais que o Zé tenha sido um lutador importantíssimo nesses 40 anos de movimento pelo parque do Rio-Bixiga, colocar isso como uma questão de Zé Celso vs Silvio Santos, reduz muito a discussão, porque você tira de cena todas as outras perspectivas, como a emergência climática, o adensamento urbano. Apresentar isso como uma disputa entre vizinhos é uma narrativa muito conveniente para não resolver o problema”, explica Camila.

Continua após a publicidade

Até junho, o Oficina segue em cartaz com o espetáculo musical “Mutação de Apoteose”, dirigido por Camila Mota. A peça traz o Parque Bixiga como um dos personagens em cena.

Na visão da diretora, um próximo passo fundamental é criar uma audiência pública para que a população conheça melhor o plano do parque. “O projeto foi realizado por grupo multidisciplinar e prevê a regeneração de uma parte do rio desse território. Há pouco mais de um ano foi feita uma medição da água, que é potável. Então trata-se de um projeto-piloto de regeneração da Bacia do Anhangabaú, que prevê a recuperação da mata ciliar. Devemos lutar para que essa implementação seja realizada.”

Mas na etapa atual, ela não deixa de comemorar. “Já é uma grande vitória ter qualquer parque ao invés de três torres. É um avanço significativo na perspectiva urbana. Nos últimos anos, temos enfrentado fortes ondas de calor, e a emergência climática se tornou uma questão concreta. É fundamental implementar um projeto-piloto de resfriamento da cidade, com solução hídrica e jardins de chuva. É essencial aproveitar esse momento para destinar esse recurso da multa para fazer, de fato, um parque que seja de vanguarda no sentido de contracenar com a situação atual do planeta”, conclui a artista.

A reportagem procurou o Grupo Silvio Santos via assessoria de imprensa, que disse que não iria se pronunciar.

parque-rio-bixiga
Simulação do projeto para o Parque do Rio Bixiga _ Teat(r)o Oficina e Universidade Antropófaga; Gesto Arquitetura; VELA. oficina; Geasa Engenharia; Projeto Cidade, Infraestrutura e Adaptação às Mudanças do Clima, da Universidade Mackenzie, em colaboração com integrantes do movimento em luta pelo Parque do Rio Bixiga. (Teatro Oficina/reprodução)
Continua após a publicidade

Nascimento de um sonho

A ideia de expandir o Oficina começou como um delírio – não seria exagero colocar desta maneira. O desejo de criar uma nova área verde na cidade, especificamente no tradicional bairro do Bixiga, se relaciona com as transformações que o teatro passou ao longo de sua velha história. Na década de 1970, o Teatro Oficina já era conhecido na cena artística por seu estilo arrojado. Zé Celso havia se firmado como um diretor revolucionário, que fazia frente à censura e às atrocidades da ditadura militar. O Oficina, portanto, era um local visado pelos militares e também pelas organizações paramilitares de extrema-direita, como o CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Por vezes, o elenco foi surpreendido com batidas policiais durante as apresentações. Havia uma dificuldade que o antigo teatro impunha, e que frustrava as chances dos atores fugirem dos espancamentos: a parede no fundo do estabelecimento.

“Era uma das coisas necessárias durante a ditadura: ter uma saída de fundo”, conta o ator e viúvo de Zé Celso, Marcelo Drummond. Na ocasião, o grupo já ocupava o atual terreno, onde está localizada a sede do Oficina. E todo o entorno tinha um dono, que permanece o mesmo até os dias atuais: Silvio Santos. Para criar uma zona de fuga no teatro, Zé tentou um acordo com Silvio para construir duas portas naquela parede que encerrava o teatro. Foram algumas negativas, até Silvio finalmente aceitar.

Em 1972, dois anos antes de Zé se exilar em Portugal, o grupo montava a peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchekhov. Certo dia, Zé e o fotógrafo Celso Lucas estavam no teatro e resolveram tomar um ácido. “Eles vieram para o fundo do teatro, fizeram uma mandala e atravessaram a parede. E ali, Zé enxergou um teatro grego fora do teatro”, conta Marcelo enquanto aponta para o terreno aberto no fundo do Oficina. Quando a Bravo! visitou o espaço, os dois Arcos do Beco (duas portas com arcadas) ainda estavam abertos. Em fevereiro deste ano, eles foram emparedados, após décadas a comando do Grupo SS.

Atravessar aquela parede deu a Zé o primeiro vislumbre de que o teatro poderia se tornar algo muito maior. A viagem de ácido originou outro sonho: de criar um teatro de estádio, mas mais do que isso, um território que fosse comunitário, que conectasse ainda mais o teatro e o bairro. “Ele começou a desejar esse espaço”, continua o ator.

ze-celso
Zé Celso (Jennifer Glass/arquivo)
Continua após a publicidade

Hoje, esse terreno possui algumas árvores e vegetação rala. Nos anos 1970 chegou a ser apenas um estacionamento. Naquele tempo, o teatro ainda não havia passado pela reforma projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi, que remodelou a construção emblemática do Oficina, o atual teatro-passarela.

A colaboração entre o dramaturgo e a arquiteta começou na década de 1960. No fim daqueles anos, Zé testemunhou outra modificação na estrutura urbana, com a construção do viaduto Jaceguai em frente ao Oficina. Segundo Francesco Perrotta-Bosch, biógrafo de Lina Bo Bardi, parte dos destroços foi utilizada pela arquiteta – e então cenógrafa – na confecção do cenário da peça “Na Selva das Cidades”, de Bertolt Brecht, adaptada por Zé.

Na década de 1980, os antigos proprietários do terreno em que está o Oficina, decidiram que iriam vender o teatro. E quem estava em vias de comprar era ninguém menos do que o Grupo Silvio Santos. O coletivo teria que desocupar o local ou, numa atitude mais ousada, poderia comprar o terreno. Decidiu tentar a segunda opção. Para isso, mobilizaram financiamento coletivo, que ainda não foi suficiente para a compra da propriedade. Surgiu então outra ideia. “Começou um movimento de artistas para tombar o Oficina para que o lugar continuasse sendo um teatro. E conseguiram”, complementa Marcelo.

Foram dois pedidos de tombamento indeferidos. Apenas quando o geógrafo Azis Ab’Saber assumiu provisoriamente a presidência do Conselho do Condephaat, que a medida avançou. Em 1982, o Oficina foi tombado ao nível estadual. Atualmente, ele é tombado nas três esferas (municipal, estadual e federal). Ao invés da compra, o território foi desapropriado, e o edifício transformado em teatro público, cujo administrador é o grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona.

A partir da reconstrução do Oficina, em colaboração com Lina Bo Bardi, foi criado o teatro atual, inaugurado em 1993. Ao lado do desenho de Lina e Edson Elito, foi pensado um Teatro de Estádio, que ocuparia o espaço que pode dar origem ao parque. Na última década, a proposta foi reformulada. Lina faleceu em março de 1992, pouco antes da inauguração do novo teatro.

Continua após a publicidade

“O Teatro Oficina teve muito tempo um projeto chamado Anhangabaú da Felicidade, que era uma brincadeira com o nome Baú da Felicidade também. E previa uma oficina de florestas, que é na área verde, a Universidade Antropófaga e o Teatro de Estádio. Ele foi mais desenvolvido durante a encenação de ‘Os Sertões’. Foi feito uma empreitada feita pelo João Batista Martinez Correia e a Beatriz Pimenta Correia, irmão e sobrinha do Zé, que era muito inspirado nas descrições que o Euclides da Cunha fez das montanhas de Cocorobó. Era uma ideia muito bonita, porém, muito adensada de construção, então tinha muito concreto”, conta Camila. A diretora também explica que, embora se mostrasse inviável, foi importante para divulgar o desejo de ocupar aquele espaço.

teatro-oficina
Área interna do Teatro Oficina (Teatro Oficina/arquivo)

Entre 2010 e 2015, Silvio Santos firmou um contrato de comodato com o Oficina, autorizando os artistas a utilizarem temporariamente o terreno vazio. “À medida que começamos a frequentar o terreno, percebemos a importância da área verde. O vazio se mostrou muito valioso, tornando nosso antigo projeto obsoleto em comparação com o potencial da vegetação resultante das demolições do Grupo Silvio Santos ao longo das décadas. Surgiu então a ideia do parque, que aproveitaria a extensa área verde já existente.”

Em 2017 foi elaborado o primeiro projeto de lei para o Parque Rio Bexiga, após diálogo com outros movimentos e pessoas do próprio bairro. “A companhia interagiu com muitas pessoas do Bixiga, realizando alguns rituais. E um Babalaô consultando os Ifás, para entender os desejos da terra. Isso mudou nossa abordagem, passamos a questionar o que a terra queria ser. Surgiu então a ideia de criar um pomar, em linha com o desejo de nutrição da terra”, conclui a diretora.

Antes de morrer (o dramaturgo faleceu em julho de 2023 aos 86 anos), Zé Celso tinha dois sonhos não realizados. O primeiro deles era a materialização do Parque-Rio Bixiga. O segundo, não tão distante do primeiro, no sentido de uma preocupação alinhada às questões ambientais com as quais Zé estava mais conectado, era a adaptação teatral do livro “A queda do céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, na qual o dramaturgo vinha trabalhando. Os dois, enfim, têm a chance de nascer juntos.

Publicidade