Morre Vera Valdez, ícone da moda e do teatro brasileiro, aos 89 anos
Conhecida por ter se tornado a primeira modelo brasileira a se destacar internacionalmente, Vera trabalhou como atriz no Teatro Oficina até os últimos anos
Morreu ontem (14) a atriz e ex-modelo Vera Valdez, conhecida por ter se tornado a primeira modelo brasileira a se destacar internacionalmente. A informação foi divulgada no perfil do Teatro Oficina nas redes sociais, com quem a atriz manteve vínculo até o fim da vida. Vera tinha 89 anos, e a causa da morte não foi divulgada.
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Nascida em 1936, carioca, filha de diplomatas, Vera era conhecida por seu comportamento desafiador desde a infância. Reprovou numa escola no Rio de Janeiro e chegou a ser expulsa de um colégio em Portugal por causa de sua maquiagem e roupas. Fumava maconha durante o recreio com apenas 12 anos (nos anos 1940!). Mudou-se para Bordeaux com a mãe, que já havia se divorciado naquela época. Na Europa, chamou a atenção de ninguém menos que Elsa Schiaparelli. Nos anos 1950, iniciou sua carreira como modelo internacional.
“Eu fiz a última coleção da Schiaparelli. Ela era uma costureira fantástica. Ela me emprestava roupas e eu saía toda fantasiada. Como eu disse, minha mãe sempre foi boêmia, então eu saía por Saint Michel e esperava até cinco horas da manhã para pegar o metrô. E a gente ia para a Rive Gauche toda arrumada”, contou a atriz em uma divertida entrevista à Vice, em 2011.
Trabalhou para Dior e, mais tarde, foi escolhida pela própria Gabrielle “Coco” Chanel para ser um dos rostos da grife francesa, chegando a participar do último desfile da marca antes da morte de Coco.
Na conversa com a Vice, ela comentou sobre a relação com Chanel, que era bem mais velha do que ela na época. “Às vezes, quando eu fazia uma estripulia, ela me colocava de castigo. ‘Fica ali, de costas para nós, virada pra parede.’ Eu adorava porque ficava ouvindo todas as fofocas. Ela ficava brava quando eu saía com ‘aquela gentinha’, que eram os jornalistas.”
Em meados das décadas de 1960, a artista se envolveu romanticamente com cineastas, como Ruy Guerra, e fez amizades com artistas do teatro, onde mergulhou de cabeça. Chegou até mesmo a se aproximar de Jacques Lacan e de Jean Cocteau.
No fim da década, participou da peça “O Homem Nu”, de Roberto Santos. Durante a ditadura, chegou a ser presa e torturada. Diante da perseguição, exilou-se na Europa.
Ao retornar ao Brasil, nos anos 1980, aproximou-se ainda mais do Teatro Oficina (Vera era amiga de Zé Celso desde a década de 1960), onde trabalhou por três décadas.
Em 2024, a atriz voltou ao Oficina para celebrar seus 88 anos e homenagear Zé Celso, que havia partido no ano anterior, com a peça “Vozes Humanas”, na qual reviveu parte de suas memórias.
O ator e diretor Marcelo Drummond, do Teatro Oficina, relembrou sua longa parceria com a atriz.
“Durante muitos anos, a Vera ficava do meu lado em um camarim de Os Sertões, Bacantes. A gente se maquiava junto, ficava perto, conversava, falava, ria. Era uma grande companheira de camarim e também companheira de vida, porque a gente se gostava muito. Eu vi a Vera no Natal. Fui à casa dela no dia 24, exausto. Foi a última vez que a vi, e ela estava alegre, porque estávamos todos lá — vários, vários atores de teatro que gostavam dela, que eram próximos, que estavam ali com ela. É muito triste. Ela já estava sofrendo muito, mal saía da cama, mal conseguia andar. Ainda assim, foi ver A Senhora dos Afogados. A gente fez uma festa enorme para ela. Ela vai fazer muita falta — muita falta na alegria, na inteligência, também nas brigas, nas discussões. Enfim, Vera, para sempre. É o que Caetano diz: é a eterna Vera. É isso. É eterna.”