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Espetáculo ‘Travessia’ leva ao palco questões como crise humanitária e desigualdade

Escrita por Gabriela Mellão, a peça se inspira na pintura 'A Balsa da Medusa', de Théodore Géricault, que retrata o naufrágio da fragata francesa Medusa

Por Redação Bravo! 30 mar 2026, 11h58 • Atualizado em 31 mar 2026, 15h22
Construído a partir de um processo colaborativo, o espetáculo reúne artistas de diferentes origens e articula camadas narrativas que cruzam autobiografia, documentos, mitologias e referências da tragédia clássica
Construído a partir de um processo colaborativo, o espetáculo reúne artistas de diferentes origens e articula camadas narrativas que cruzam autobiografia, documentos, mitologias e referências da tragédia clássica (Julia Alves/divulgação)
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  • Se o mundo contemporâneo pudesse ser condensado em imagens, dificilmente seriam cenas apaziguadoras, tampouco feitas para a contemplação. Estariam mais próximas do colapso: conflitos permanentes, deslocamentos forçados, tensões que atravessam corpos e territórios. Mas, quando o olhar se afasta do literal, a violência pode se insinuar também nos vazios, abrindo espaço para imagens que sugerem muitos pontos de vista, em vez de afirmar.

    É nesse território que se insere Travessia, peça escrita e dirigida por Gabriela Mellão, que estreia em 1º de abril no Sesc Belenzinho. A obra parte da poesia e das artes visuais para elaborar uma leitura do presente, tomando como referência o quadro A Balsa da Medusa (1818), de Théodore Géricault. A pintura recria o naufrágio da fragata francesa Medusa, ocorrido em 1816, quando cerca de 150 pessoas foram abandonadas em uma balsa improvisada após a prioridade dos botes ser dada à elite a bordo. Após quase duas semanas à deriva, restaram apenas 15 sobreviventes. 

    Escrito e dirigido por Gabriela Mellão, o espetáculo estreia em 1º de abril no Sesc Belenzinho.
    Escrito e dirigido por Gabriela Mellão, o espetáculo estreia em 1º de abril no Sesc Belenzinho. (Bob Sousa/divulgação)

     

    No quadro, corpos exaustos se acumulam entre a morte e a esperança, no instante em que um possível resgate surge no horizonte. A imagem evidencia um sistema que decide quem vive e quem pode ser descartado. A cena é deslocada para o presente e funciona como motor dramatúrgico para pensar formas contemporâneas de exclusão e violência, em um mundo ainda marcado por hierarquias de humanidade.

    Construído a partir de um processo colaborativo, o espetáculo reúne artistas de diferentes origens e articula camadas narrativas que cruzam autobiografia, documentos, mitologias e referências da tragédia clássica. Em cena, essas histórias se entrelaçam para ampliar o sentido da travessia, transformando o palco em um espaço de confronto entre experiências, identidades e modos de existir.

    Bravo! conversou com a crítica e dramaturga Gabriela Mellão sobre a idealização e realização da obra. 

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    O espetáculo parte da imagem histórica do naufrágio da Medusa para pensar o presente. Em que momento essa associação fez sentido para você e o que te impulsionou a transformar essa imagem em cena?

    A Medusa não foi um ponto de partida, foi um dos belos encontros surgidos ao longo do caminho. O início do processo foi inspirado pelo pensamento artístico de Peter Brook. O diretor inglês abriu mão de uma trajetória comercial para se voltar a um teatro de pesquisa que buscava a essência de uma criação nascida a a partir do cruzamento real entre culturas. Nos ensaios surgiram as histórias concretas de travessias dos artistas, deslocamentos, rupturas, reinvenções e ao mesmo tempo as culturas e tradições de cada um. A imagem da balsa apareceu, quase como um espelho. Olhamos para o quadro e percebemos que ele não se refere apenas a um naufrágio do século XIX, ele segue atual. Entendemos que não se tratava de fazer um retrato daquela balsa, mas de reconhecer em que modo ainda estamos nela.

     A criação envolveu um elenco multiétnico e um processo colaborativo de quase dois anos. Como essas diferentes trajetórias, histórias e visões de mundo atravessaram e moldaram a dramaturgia?

    A dramaturgia nasceu desse encontro que uniu atores reconhecidos da cena brasileira, como Miriam Rinaldi, Vitor Britto e Rodrigo Bolzan, e artistas em situação de deslocamento, como Dani Mara (brasileira indígena), Prudence Kalambay (República Democrática do Congo), Mariama Bintu Bah (Gâmbia/Senegal), Mario Tadeo (boliviano indígena), Victor Gee Rosales (Venezuela) e Shambuyi Wetu (República Democrática do Congo).

    Foram dois anos de convivência em que não estava dado de antemão narrativa, linguagem, forma ou conceito. Foi uma experiência artística, mas também de vida. Vivemos uma espécie de travessia coletiva mesmo. A gente foi construindo tudo no processo, através da escuta, da intuição, do erro, da reescrita. A dramaturgia acabou se tornando um mosaico das experiências e bagagens desses artistas tão diversos. É constituída por fragmentos autobiográficos, mitologias, tragédia grega, ficção, e pelas línguas de cada um, que atravessam a cena. É um composto heterogêneo. É uma espécie de festa da heterogeneidade, um campo vivo, que não busca a perfeição da atuação, mas a pulsação mais verdadeira e viva de cada ator em cena.

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    Gabriela Mellão é dramaturga e crítica teatral.
    Gabriela Mellão é dramaturga e crítica teatral. (Bob Sousa/divulgação)

     Há uma dimensão visual forte, inspirada no quadro A Balsa da Medusa. Como essa construção imagética dialoga com o discurso político da peça?

    Essa imagem histórica torna-se um dispositivo dramatúrgico para refletir os naufrágios civilizatórios do presente. Não interessava fazer uma reconstituição histórica da balsa, mas criar um espelhamento entre o naufrágio colonial e os naufrágios contemporâneos que seguimos produzindo.

    A estética do espetáculo se apoia na beleza do quadro pintado por Gericault, marcado por formas triangulares e corpos retorcidos. A busca foi transformar os atores em dispositivos narrativos e plásticos simultaneamente.

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    Além disso, como no quadro e na experiência que tivemos em sala de ensaio, não existe protagonismo individual. O que se ergue em cena é um coletivo heterogêneo que literalmente sustenta essa balsa. Juntos eles formam imagens de instabilidade e ao mesmo tempo de resistência. Ao humanizar essas diferenças, colocá-las lado a lado sem tentar uniformizar a cena, o espetáculo busca questionar diretamente estruturas de poder que tentam classificar, excluir, hierarquizar.

     Você mencionoua a influência de Peter Brook, especialmente na ideia de um teatro intercultural. De que forma esse legado foi revisitado (ou tensionado) na a montagem?

    O conceito brookiano de um teatro que nasce do encontro real entre culturas, de um espaço vazio que se acende pela presença viva dos atores foi norteador. Um belo ponto de partida para ser redimensionado com a entrada dos atores em sala de ensaio, a partir da inspiração trazida por suas histórias, culturas e visões de mundo. O que tentamos fazer foi criar um espaço onde a força, a beleza e a individualidade de cada um pudessem aparecer. Um espaço onde o encontro não apagasse o indivíduo, mas o iluminasse. Travessia nasce da certeza de que cada corpo é um universo, de que cada pessoa é um mundo. Aqui, imperfeição é conceito, fragilidade é força, e língua e cultura são formas de pertencimento.

     A peça atravessa temas como migração, fronteiras, desigualdade e a gestão de quem pode ou não pertencer. Quais tensões do presente vocês mais quiseram evidenciar em cena?

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    A peça fala sobre temas como a violência do sistema migratório, polarização ideológica e os mecanismos de poder que decidem a sorte das travessias. No entanto, a ideia não era compor um teatro engajado, mas um teatro poético, potente justamente por trocar o explícito pelo implícito, a afirmação pela pergunta, a certeza pela incerteza. A ideia de pertencimento talvez seja a ideia central. Buscamos levantar questionamentos para que o espectador reflita sobre quem tem direito de estar, de falar, de existir plenamente em um determinado espaço.

    A metáfora da serpente trazida na dramaturgia simboliza isso. A serpente é essa força ancestral que carrega uma memória profunda, mas que é obrigada a se adaptar a um sistema que não reconhece sua linguagem.

    Se o mundo evidencia engrenagens maiores — políticas, sociais, históricas — que atravessam os indivíduos e muitas vezes determinam seus destinos, a gente tentou fazer o movimento contrário: criar um espaço onde as diferenças não são suavizadas, elas são visíveis, são pulsantes, e se erguem como o pilar central do espetáculo.

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    A peça propõe um espelhamento ao aproximar o naufrágio colonial de crises atuais e convida o público a refletir sobre seu próprio lugar nesse cenário. (Bob Sousa/divulgação)
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     A obra questiona estruturas que determinam quem “fica na balsa” e quem é descartado. Que tipo de deslocamento ou reflexão você espera provocar no espectador ao final?

    O espetáculo é um convite para que o espectador se permita entrar em contato com a potência que nasce justamente do encontro entre diferenças. Que ele embarque nessa travessia sem volta que é a exposição real ao outro. Existe algo profundamente transformador que acontece quando as diferenças são colocadas lado a lado, em convivência. Talvez o deslocamento esperado seja esse: fazer com que o espectador saia do teatro com uma escuta mais aberta, com menos pressa de entender e mais disponibilidade para sentir, para se deixar afetar pelo outro. Isso está muito presente numa cena em que a Mariama diz: “O que é o amor senão o beijo entre estranhos? O encontro entre estrangeiros? Você é o avesso de mim. Não fala minha língua, eu não falo a sua. Nossas línguas nos dão vida, acendem a chama do mundo, consolam as dores do tempo. Você é o estranho que se tornou parte de mim. Você é o estrangeiro que me repatriou”. Essa cena condensa o que buscamos: revelar a potência transformadora do encontro.

    Serviço

    Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1000).
    De 01/04 a 03/05. Quinta a sábado, às 20h e domingo, às 18h30.
    Valores: De R4 15 a R$ 50.

     

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