Paulinho Boca de Cantor conta como nasceu ‘Swing de Campo Grande’
Aos 80 anos, voz dos Novos Baianos relembra a carreira, fala sobre composição, os parceiros e as histórias que marcaram sua trajetória
Voz dos Novos Baianos, o “moleque do Brasil” Paulinho Boca de Cantor completou 80 anos neste ano, em junho, e conversou com a Bravo! sobre sua vida e obra.
O artista falou sobre composição — apesar de ter na interpretação sua principal vocação, assinou diversas músicas, entre elas um dos grandes sucessos dos Novos Baianos, Swing de Campo Grande, em parceria com Moraes Moreira (1947-2020) e Luiz Galvão (1935-2022).
Nascido em Santa Inês, na Bahia, Paulinho começou a cantar na adolescência, quando ganhou o apelido que leva até hoje. Paulinho atuava como crooner em bailes de Salvador e interior, com o conjunto Carlito e Sua Orquestra. Faziam parte da mesma banda músicos que também traçaram carreiras importantes: Perinho Albuquerque, Moacir Albuquerque, Perna Fróes, Tutty Moreno e Tuzé de Abreu.
Com apenas 6 anos, Paulinho ganhou um concurso de cantoria na sua cidade natal. Quando chegou em Salvador, já respirava música o dia inteiro. E hoje, com oito décadas de trajetória, segue encantando pelos palcos do Brasil. Confira memórias e curiosidades do artista a seguir, na nova edição da coluna Atemporal.
Além de cantor, compositor
“Eu não sou um musicista, então, quando faço música, procuro parceiros. Mas geralmente faço a letra e já tenho uma ideia de música, porque crio a letra quase cantando. Ultimamente, para os meus discos, eu tenho feito muita letra e melodia também.”
Como nasceu Swing de Campo Grande?
“Era um tempo que a gente era muito místico. Nós morávamos em um sítio e havia uma certa perseguição da polícia, aquela coisa da ditadura militar. Tinha um rezador perto dali, Seu Antônio, e ficamos amigos. Eu falei: ‘Poxa, essa coisa da polícia enchendo o nosso saco, não somos marginais, somos artistas, mas só porque somos cabeludos eles acham que a gente é bandido’. Ele falou: ‘Tem uma oração que a gente vai fazer e, quando eles chegarem, vocês vão virar outra coisa. Eles não vão ver vocês’. Tanto que na música fala: ‘Eu viro toco, eu viro moita’. Toco é um toco de madeira, moita é uma árvore. Quando contei para o Galvão essa história, falei: ‘Dá para fazer uma música’. Era um tempo em que ele me via como o integrante mais Carnaval, mais solto e alegre. Então ele começou a fazer ‘minha carne é de Carnaval’, e eu falando com ele, ‘eu não marco toca, eu viro toco, eu viro moita’, e assim ficou.”
E Mistério do Planeta?
“Mistério do Planeta é do Moraes e do Galvão. Quando eles faziam as músicas, já sabiam quem iria cantar. A Menina Dança, por exemplo, claro que era para a Baby. Agora, Dê Um Rolê, essa malandragem, veio pronta para mim. Mistério do Planeta também, ficou parecendo uma música minha. Outras pessoas já cantaram, mas, modéstia à parte, nas nossas interpretações trazemos a tradução do que eram Os Novos Baianos.”
Qual a história de Dê Um Rolê?
“A gente estava dando voltas na Lagoa no Rio de Janeiro porque a polícia estava atrás da gente. Quando vínhamos de Jacarepaguá e o nosso carro entrava na Zona Sul, a polícia já ficava ligada. Dê Um Rolê nasceu exatamente da gente dando um rolê na Lagoa Rodrigo de Freitas (risos).”
Uma saudade do Moraes?
“Moraes me ligava dez vezes por dia. A gente levou um tempo afastado, mas quando pintava algo dos Novos Baianos, éramos nós que resolvíamos as coisas. As outras pessoas participavam, mas eu e ele tínhamos uma ingerência em relação ao que fazer, se é legal fazer esse show, se é bom aceitar isso, se não é. A gente batia essa bola.”
Uma saudade do Galvão?
“O Galvão é um dos caras mais hilários que eu já conheci. Algumas histórias dele eu até conto nos shows. Sinto muita falta. Fico feliz de lembrar bem de todos eles, porque nós que começamos isso e estou até hoje segurando essa bandeira.”
Um disco seu que as pessoas deveriam conhecer mais?
“O meu primeiro disco, Paulinho Boca de Cantor, que tem o subtítulo Bom de Chinfra, Bom de Amor. Está nas plataformas. E todos os outros também, as pessoas têm que conhecer, porque naquele tempo a gente fazia disco quase que anualmente. Então tem muita coisa para vocês conhecerem e curtirem na internet.”
O seu filme favorito?
“Um Conto Chinês (longa de 2011 do cineasta argentino Sebastián Boresztein, com Ricardo Darín) é um filme tão interessante, totalmente diferente, com um final inesperado. E gosto muito até hoje dos filmes do Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (de 1964) talvez seja o meu favorito.”
O seu livro favorito?
“Um livro que foi fundamental para mim é Autobiografia de um Iogue, do Paramahansa Yogananda. Mas li também alguns livros do filósofo Huberto Rohden (1893-1981), em especial Luzes e Sombras da Alvorada. É uma história muito incrível, ele imagina como seria o mundo se todo mundo ficasse legal de uma hora para outra. É meio utópico, mas acho que isso vai acontecer, porque não estamos aqui à toa.”





