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O passo ousado – e necessário – de Bad Bunny no Super Bowl

Durante o intervalo do jogo, o músico transformou a apresentação em uma espécie de aula de geografia política ao destacar a América para além dos EUA

Por Redação Bravo! 9 fev 2026, 12h14 | Atualizado em 9 fev 2026, 16h33
Bad Bunny recebe o Grammy de Álbum do Ano por Debí Tirar Más Fotos”
Bad Bunny recebe o Grammy de Álbum do Ano por Debí Tirar Más Fotos” (Kevin Mazur/Getty Images for The Recording Academy/reprodução)
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Talvez um dos gestos mais ousados que uma figura pública possa fazer em solo dos EUA seja lembrar que, para o resto do mundo, Donald Trump e os próprios cidadãos do país também são estrangeiros. Essa simples inversão de perspectiva desmonta a sensação de vigilância e de não pertencimento que muitos que vivem (ou até visitam) o país experimentam no dia a dia: a ideia constante de ser tolerado, e não plenamente aceito. Nos últimos anos, até mesmo esse tratamento excludente tem se intensificado, especialmente (mas não só) durante os períodos em que Trump esteve à frente da Casa Branca. 

Bad Bunny vem tensionando esse cenário há algum tempo. Já irritou autoridades e apoiadores do ex-presidente ao usar a maior premiação global da música, o Grammy, além de grandes aparições públicas, para confrontar decisões políticas como o endurecimento das medidas antimigratórias atualizadas por Trump. São políticas que vão muito além de um bordão e se traduzem em famílias separadas, crianças detidas e deportações de pessoas que vivem há décadas no país, muitas delas já integradas à sociedade.

Ontem (08), o artista levou esse embate para um dos palcos mais simbólicos da cultura estadunidense. Durante seus 13 minutos no intervalo do Super Bowl (jogo anual do campeonato da National Football League)— espaço historicamente reservado ao entretenimento e publicidade — transformou a apresentação em uma espécie de aula de geografia política. Vale lembrar que o convite para o show do intervalo é visto como um dos maiores selos de prestígio da indústria musical, dada a dimensão da audiência, que chega a centenas de milhões de espectadores em todo o mundo.

Em vez de apostar apenas na autocelebração de sua música e fama, Bad Bunny confrontou o discurso de rejeição aos imigrantes ao lembrar que são justamente as muitas Américas que constroem a potência e a riqueza dos Estados Unidos. Isso se dá de diversas maneiras: nos trabalhos invisíveis que sustentam a economia, nas cozinhas, nos canteiros de obra, nas ruas, mas também na cultura, na música, na arte, na culinária e na festa. Nada disso existe isoladamente. Tudo se mistura nesse caldeirão coletivo. A alegria e a união aparecem como motores da cena, mas sem apagar a crítica, quase como quem diz: “Vocês também se divertem, mas às nossas custas”. É um gesto político, mas também uma celebração. Um passo ousado e necessário neste momento. “Você está ouvindo música de Porto Rico”, ele diz em espanhol em determinado momento. 

Talvez a provocação mais aguda a Trump esteja justamente aí: mostrar que os Estados Unidos são apenas mais um país entre tantos do continente. Que “América” não é sinônimo de uma única nação, mas de muitas. E que os estadunidenses fazem parte desse conjunto, não são o centro dele, como se convencionou a acreditar. O cantor reforça essa ideia inclusive na dinâmica do espetáculo, ao convidar nomes do porte de Lady Gaga sem colocá-los como atração principal. Ela surge integrada à proposta estética do show, atravessada por ritmos latinos e códigos culturais que não são os seus, dançando salsa enquanto canta “Die With a Smile”.

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O momento mais simbólico, no entanto, vem quando Bad Bunny entrega o Grammy a uma versão mais jovem de si mesmo. A imagem bate de frente com a política de exclusão dos EUA, como se o cantor afirmasse que o sonho é permitido a todos. Ao mesmo tempo, evoca outra leitura possível: a de crianças imigrantes que crescem sob ameaça constante. Muitos associaram a cena ao caso recente do menino, filho de imigrantes, detido por agentes do ICE, e levado de sua casa, no Minneapolis, para o Texas, a mais de mil quilômetros de distância.

E, ao falar de suas próprias raízes, Bad Bunny se vê obrigado a reforçar o óbvio: Porto Rico faz parte dos Estados Unidos, ainda que com direitos limitados e frequentemente tratado como território de cidadãos de segunda classe. Seu gesto final é categórico: usar um dos maiores símbolos e plataformas estadunidenses para lembrar que a América é um continente inteiro.

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