Como Cazuza mudou o mundo e reverbera cada vez mais potente
Em sua passagem meteórica, o cantor saiu glorioso de suas lutas, como uma voz libertária que atravessa o tempo e gerações
Foram apenas 32 anos de vida intensa, encerrada em 7 de julho de 1990. A existência póstuma de Cazuza, porém, já soma 36 anos, é maior que a trajetória terrena de Agenor de Miranda Araújo Neto. E tem sido uma posteridade cheia de vitórias para o personagem larger than life que veio ao mundo em 1958, na Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio.
Consagrado na música popular para além de divisões por geração, ele segue ganhando prêmios, homenagens e sendo regravado em infindáveis tributos. Além de ser o homenageado do ano do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, no festival C6 no Rock, no dia 23 de agosto, no Ibirapuera, em São Paulo, Cazuza será celebrado na atração de encerramento Todo Amor que Houver Nesta Vida, com Frejat, Arnaldo Antunes, Leo Jaime, Lobão e Leoni.
Era uma vez um jovem visto como mimado, filhinho de papai, perdido na vida, que volta e meia ia parar na delegacia e costumava pendurar contas na noite carioca. Demorou um tanto até que ele encontrasse seu caminho de expressão artística no ofício de cantor e compositor. Mas, décadas depois, seu talento é tido como incontestável, seu texto é reconhecido pelo valor literário e seu papel como inspiração libertária é cada vez mais potencializado, conquistando e emocionando novos fãs.
O legado de Cazuza parece ser imparável feito o tempo, devidamente salvaguardado pelo trabalho e pelo amor de mãe de Lucinha Araujo, que completou 90 anos em 2 de agosto, comemorados em grande estilo com amigos, no Palácio da Cidade, em Botafogo — o mesmo cenário onde festejou os 80 —, e com um show capitaneado por Gilberto Gil.
“Eu adoro festa!”, exclama Lucinha, dezoito stents, um marca-passo e um câncer de mama vencido, cercada de fotos do filho nas paredes e porta-retratos do escritório da Sociedade Viva Cazuza, em Ipanema, onde estão acervo e arquivos com tudo relacionado ao cantor. Lucinha amava viajar pelo mundo também, mas a saúde não permite mais longos voos. Esse foi o motivo secundário que a levou a encerrar, em outubro de 2020, as atividades do abrigo infantil que funcionava em Laranjeiras, mantendo apenas a entrega quinzenal de cestas básicas para 250 pacientes. O principal? A grande redução no número de novos casos de HIV em crianças no Rio.
Segundo a OMS, em 2024, a taxa de transmissão vertical do vírus, de mãe para filho, no Brasil, ficou abaixo de 2%, e a incidência da infecção em crianças permaneceu inferior a 0,5 caso por 1 000 nascidos vivos. Sabe aquela história do garoto que iria mudar o mundo?
Mas a batalha de Lucinha por manter viva a obra do filho continua, com autorizações para novas gravações, mixagens, espetáculos, uso em conteúdos e projetos variados em múltiplas linguagens. A inteligência artificial, que tudo espreita em 2026, está logo ali, na esquina. E não é descartada por Lucinha. “A gente não tem preconceitos com tecnologia, pode vir coisa por aí no futuro”, sinaliza a fiel escudeira Fabiana Araújo, vice-presidente da Sociedade Viva Cazuza, sobrinha perfilhada por Lucinha em 2020.
O novo sempre vem, nas formas mais inusitadas. Em 2024, um acordo com a Universal Music Brasil e a empresa alemã Endel, especialista em “bem-estar sonoro”, lançou uma versão “reimaginada” da canção Minha Flor, Meu Bebê, para acalmar e embalar o soninho dos pequenos — ou, pelo menos, trazer um relax para mães cansadas.
A experiência traumática com holograma em shows, em 2013, que Lucinha classificou como horrível, foi superada recentemente. Com nova abordagem e outro nível de qualidade, entrou na receita da megaexposição imersiva Cazuza Exagerado, que saiu de cartaz de São Paulo em março, após longa temporada iniciada em junho de 2025, no Rio.
“NO MESMO PATAMAR DOS GRANDES POETAS”
A mostra reuniu mais de 700 itens, incluindo manuscritos, objetos pessoais, roupinhas usadas na infância, depoimentos gravados de amigos, vídeos raros e fotos garimpadas de arquivos pessoais da família e de amigos do artista. E ocupou vastos espaços, com onze salas imersivas (nove na versão carioca), reproduzindo ambientes como o camarim do último show, no Canecão, o cenário do programa Cassino do Chacrinha, a Pizzaria Guanabara (no Baixo Leblon, segundo lar do cantor) e a Galeria Alaska, histórico reduto gay carioca, em Copacabana. “Quando a Lucinha entrou na exposição pela primeira vez, se emocionou e disse: ‘Sinto muito o Cazuza aqui dentro. Deixa eu me sentar um pouco, porque estou passando mal’. Ficou uma experiência poderosa mesmo”, conta o curador Ramon Nunes Mello.
O poeta e pesquisador fluminense trabalhou em cima da extensa pesquisa que havia realizado, a convite de Lucinha e Flora Gil, para dois livros em edição de luxo que chegaram em 2024: a fotobiografia Cazuza — Eu Protegi Teu Nome Por Amor e a antologia Cazuza — Meu Lance É Poesia, que localizou 26 textos inéditos do artista, a maior parte garimpada de pastas que pertenceram ao produtor Ezequiel Neves (1935-2010) (em equívoco parcialmente reparado na reimpressão da obra, a letra de Take It Easy My Brother Charles, de Jorge Ben Jor, foi incluída nesse rol). Um deslize mínimo em um trabalho admirável, com farta e fascinante documentação iconográfica. “Entrevistei oitenta pessoas, e todas, todas elas se emocionaram ao falar comigo. Isso é muito forte”, conta Ramon.
Com experiência em curadoria de livros de poesia e organização de obras do poeta e pintor Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) e da escritora e jornalista Adalgisa Nery (1905-1980), ele não hesita em atestar o valor literário da obra de Cazuza. “Ouço Cazuza com o mesmo respeito que eu leio Carlos Drummond de Andrade. Não faz diferença se o cara é um poeta letrado ou um poeta da música. Para mim, Cazuza está no mesmo patamar dos grandes poetas brasileiros.”
Em Meu Lance É Poesia, cita a lição do mestre Antonio Cicero (1945-2024, poeta, filósofo e grande letrista), que lembra que os poemas líricos da Grécia antiga e dos trovadores provençais medievais eram originalmente letras de canções cuja música se perdeu com o tempo. E também aponta, a partir dos achados e das lembranças do amigo Leo Jaime, o gosto pela poesia marginal do comecinho dos anos 1980, de Chacal, de Ana Cristina Cesar (1952-1983) e do grupo Nuvem Cigana (de onde se projetaria para a MPB Ronaldo Bastos) — além dos planos não realizados de lançar um livro com os versos que escrevia desde os 17 anos.
Para Ramon Nunes Mello, a obra de Cazuza atrai o público para a poesia pelo encanto no uso da língua, ao mesmo tempo em que sua figura pop transgressora dialoga com a poesia como “lugar da liberdade”. “Sou uma pessoa que vive com HIV há doze anos. A Lucinha nem sabia disso quando eu comecei o trabalho. Além de tudo que a obra diz, Cazuza representa muito pela dignidade com que enfrentou a doença numa época em que era uma sentença de morte. Organizar esse trabalho foi também contar a história da luta contra a aids no Brasil.”
Por mais completos que sejam, os dois livros não parecem capazes de dar conta do inesgotável assunto Cazuza. Em 10 de junho, Agenor de Miranda Araújo Neto foi homenageado pelo Prêmio BTG Pactual da Música e celebrado no Theatro Municipal carioca em um espetáculo com Ney Matogrosso, Marina Sena, Simone, Ludmilla, Seu Jorge, Luedji Luna, Chico Chico, Luísa Sonza, Lazzo Matumbi e BNegão. “Celebrar Cazuza é celebrar a coragem, a liberdade e a potência de uma obra que segue viva e necessária. Sua música e sua poesia atravessaram gerações e continuam a ecoar nas vozes e nos sentimentos de milhões de brasileiros”, justifica Zé Maurício Machline, idealizador do prêmio.
NOVA BIO INVESTIGA CONTEXTO HISTÓRICO
Em junho, também chegou um novo tributo: o primeiro álbum solo de Cazuza (sem título, mas conhecido entre fãs como Exagerado) todo regravado por nomes da nova geração, como Ludmilla, Cato, Urias, Johnny Hooker e Mateus Fazeno Rock na terceira temporada da série Replay, do Canal Bis.
Não para, não: novos projetos audiovisuais continuam chegando, uma nova versão de Exagerado com Leoni (parceiro de Cazuza e Ezequiel Neves na canção) e a jovem paulistana Sophia Chablau saiu no fim de julho, e há uma biografia no horizonte.
O jornalista carioca Luiz Felipe Carneiro, que tem no YouTube o canal Alta Fidelidade, com 150 000 inscritos, já fez mais de 100 entrevistas para o trabalho, acordado com a Editora Todavia, mas sem previsão de lançamento. Inspirado por seu mestre e amigo Ruy Castro, Carneiro pretende contar a trajetória do cantor no contexto histórico do país nos anos 1980, com um olhar aprofundado para locais míticos do Rio de Janeiro que marcaram seus anos formativos.
“Conversei muito com Ruy e, nesses papos, percebi o quanto seria interessante levantar a história de lugares como o Teatro Ipanema e o Baixo Leblon. No plano nacional, você tem a era Sarney, fatos como o assassinato do Chico Mendes, o naufrágio do Bateau Mouche, as peripécias do traficante Escadinha, a hiperinflação, os planos econômicos que não davam certo, a atmosfera mostrada na novela Vale Tudo… Aquele Brasil do pós-ditadura, que, infelizmente, não mudou tanto, né?”
Modesta e mesmo que suspeita para falar, Lucinha diz que, independentemente de seu trabalho, Cazuza seria descoberto e justamente valorizado. “Porque ele é bom mesmo. E consegue falar com essas gerações digitais todas que vêm chegando.” São 2,6 milhões de seguidores no Spotify, 401 000 no Instagram, 238 000 no TikTok e 500 000 inscritos no canal do YouTube.
Para o professor de literatura da UFRJ Rafael Julião, os gestos de propagação da obra são eficientes, mas a permanência está vinculada ao mérito: “Tem a ver com o fato de ele ser uma presença luminosa na história da canção brasileira e a sua força de comunicação. Há uma qualidade estética no trabalho do Cazuza que é impressionante. Como letrista, ele foi brilhante mesmo, com essa potência de o tempo todo apontar, com uma dignidade grande, essa espécie de verdade sobre o Brasil”.
Para o jornalista e crítico musical Ricardo Alexandre, que radiografou com rigor o rock brasileiro dos anos 1980 no livro Dias de Luta, Cazuza, por ser um pouco mais velho e culto, criado no chamado berço esplêndido da música popular brasileira, tinha um diferencial precioso. “Uma poesia muito brasileira, herdada do samba-canção e devedora de um certo blues brasileiro, de Angela Ro Ro e Melodia, mas com consciência de história que remontava ao samba-canção. Essa perspectiva diferenciava Cazuza e o Barão Vermelho dos pares da geração deles, todos muito fxados na new wave e no que vinha de fora”, observa.
Ricardo afirma que, sendo ele mesmo uma espécie de transição entre o desbunde contracultural dos anos 1970 e a nova turma jovem, Cazuza também foi beneficiado pela própria transitoriedade: de menino rico querendo um canal de expressão artística, daí a busca do sucesso com uma banda, e em direção à carreira solo, e, quando ela começa muito bem, já no estrelato, é tomado por “um drama humano que acaba ultrapassando a própria obra”.
OS CARETAS DO LEBLON FORAM APAGADOS
Fabiana Araújo diz que Cazuza é um raro caso de artista presente nas redes, mas sem haters: “A luta fez dele uma pessoa grandiosa, por ter mostrado a cara com a doença e ter levado isso para o Brasil inteiro. Por causa dele, as pessoas conseguiram se mostrar e entender a aids. Ele fcou acima do bem do mal. Todo mundo fala de uma maneira muito carinhosa. E a presença da Lucinha é muito bacana, todo mundo a vê como uma mãe com força”.
Dé Palmeira, amigo e companheiro de Barão Vermelho, conta: “O Cazuza contra o HIV foi assim: as pessoas ficavam ‘oh, ali está o Cazuza, ele está doente, ele vai morrer’. E ele ia ao restaurante, ele ia ao cinema, ao teatro. Como se dissesse: eu existo”.
Ele lembra que, em maio de 1992, quando foi inaugurada a Praça Cazuza, no Baixo Leblon, depois de meses de polêmica com moradores contrários à escolha do homenageado, foi pichado um protesto. “Era algo ridículo como ‘A juventude do Leblon é careta e hétero’. Aquilo ficou lá um tempão. E foi apagado pelo tempo, implacavelmente. Cazuza venceu. Venceu esses caretas todos.”
No ano passado, Ramon Nunes Mello foi com Lucinha Araujo à pré-estreia de Homem com H, de Esmir Filho, drama biográfico sobre Ney Matogrosso. Ela encarou com naturalidade as cenas em que Cazuza aparece como personagem, bêbado, e Ney fazendo sexo grupal. “Nada em Cazuza me surpreende”, disse, na ocasião. E fez questão de ficar até tarde no evento pós-sessão, junto com o elenco e a equipe do filme, inimiga do fim. “Ela é a mãe do Cazuza mesmo”, brinca Ramon.
“Não tem nada mesmo que me espante. O que eu não soube quando ele era vivo, soube depois de morto. Não tem mais surpresa. Tudo já foi revirado. Eu sou uma mãe que vai até o fnal”, comenta Lucinha.
Quando soube que Cazuza estava doente, ela recorreu à psicanálise, mas detestou. “Nem vou dizer o nome do bruxo, porque ele era muito famoso e não adiantou nada. Eu sofri o que tinha que sofrer, chorei o que tinha que chorar. Não acrescentou nada na minha vida.”
Católica, devota de Santa Rita (Cazuza inicialmente implicou com a estátua que ela levou para o quarto do hospital, durante seu tratamento nos Estados Unidos — “essa sua macumba aí”), Lucinha não leva muita fé em encontros “do outro lado” nem acredita em comunicação com os mortos. “Se o Cazuza pudesse falar comigo, de algum lugar, já tinha dado um jeito e aparecido: ‘Mamãe, eu tô aqui!’. Duvido que ele me esquecesse.” ■
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193





