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No RIOFW, a cultura foi protagonista das passarelas

Rio Fashion Week ocupou a capital carioca com desfiles de 21 marcas que imprimem uma nova imagem social brasileira

Por Carolina Isabel Novaes, do Rio de Janeiro 20 abr 2026, 15h04 | Atualizado em 21 abr 2026, 11h56
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MISCI no RIOFW 26 foto: Zé Takahashi (Zé Takahashi/divulgação)
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O Rio Fashion Week (RIOFW) terminou no último sábado (18), após o desfile de 21 marcas no Píer Mauá e em locais icônicos da cidade como a Marquês de Sapucaí. Foram dez anos sem um palco para a moda do Rio.

A proposta do novo evento era trazer grifes nacionais que dialogassem com o mercado internacional, cariocas ou não, visando à construção de uma imagem social brasileira, como explicou a curadora de conteúdo Olivia Merquior. Havia pelo menos uma representante de cada região do País, o que conferiu uma pluralidade interessante ao panorama da Semana de Moda. E, ao fim, o que se provou foi que, sim, a cultura de moda segue vivíssima no Rio de Janeiro.

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Osklen no Rio Fashion Week 2026 (Zé Takahashi/divulgação)

A Osklen foi a primeira a desfilar, no Palácio da Cidade. O trabalho de pele de pirarucu elaborado há anos pelo Instituto-E foi elevado ao estado da arte, em uma coleção que de cara mostrou elementos brasileiros e referências estéticas carioquíssimas, no sentido de que a moda não é estática, inalcançável, não está em um pedestal. Ela é viva e está nas ruas.

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Carol Trentini no desfile da Osklen do RIOFW 2026 (Zé Takahashi/divulgação)

A Blue Man também trouxe a essência do que é o Rio de Janeiro para as passarelas: tinha a vendedora do espetinho de camarão, o vendedor do mate, o do coco, a Helô Pinheiro, a Pocah, a Deborah Secco, os tiktokers Arthur Lima e Geovanna Alencar, “pessoas que de fato frequentam a praia”, como definiu a diretora criativa Sharon Azulay em conversa com a Bravo!. 

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“É uma grande celebração à Praia de Ipanema, a essa liberdade que a gente tem, a essa democracia semi-anárquica, em que a gente convive com as diferenças”, explicou Thomaz Azulay, diretor criativo do desfile, cuja coleção apostou no biquíni jeans e no Brasil core. 

Osklen e Blue Man são grandes grifes do Rio, e “desmistificaram a cultura de moda”, que era um dos principais objetivos que Olivia Merquior fixou para o evento. A Misci, do mato-grossense Airon Martin, fez uma apresentação memorável na Marquês de Sapucaí, com direito a show da escola Beija-Flor e presença da comunidade do samba, como Neguinho da Beija-Flor e a rainha de bateria da Paraíso do Tuiuti, Mayara Lima. A marca propôs uma “alfaiataria carnavalesca” e, assim como algumas etiquetas da temporada, investiu em franjas, macramês e manualidades têxteis, inserindo o tempo e o feito à mão nesse lugar de luxo

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MISCI no RIOFW 26 (Zé Takahashi/divulgação)

A Handred deu outro show, porque nem só de samba vivem os cariocas: trouxe para a boca de cena membros da Orquestra da Lapa, e foi emocionante ver de perto. Com referência ao barroco, fez o jogo de luz e sombra em uma paleta de cores verde, cobre e marrom intenso. A etiqueta de André Namitala tem amigos fiéis e seus desfiles são sempre incensados, feitos por e para quem curte esse ecossistema. 

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O universo carnavalesco foi, ainda, tema da exposição “Alta-costura do carnaval”, de Gringo Cardia no Armazém 4, com a exibição de trajes das rainhas criados por Henrique Filho. A mostra foi pano de fundo para celebrar o trabalho minucioso de costureiras e bordadeiras, e o uso de matéria-prima nacional nas confecções, ressaltado em diversos momentos deste RIOFW. A Normando, de Emídio Contente e Marco Normando, por exemplo, mostrou suas criações que valorizam o látex da Amazônia, uma moda com práticas sustentáveis e design primoroso, sucesso de público e crítica. “Esta coleção é uma forma de afirmação da cultura amazônica para nós”, afirma a dupla.  

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Normando no Rio Fashion Week (Marcelo Soubhia/ @agfotosite/divulgação)

Estilista brasileira radicada em Londres, Karoline Vitto apresentou pela primeira vez no País sua moda escultural pensada para a inclusão de tamanhos. A modelo Rita Carreira abriu o desfile. A cabo-verdeana Angela Brito, por sua vez, desenvolveu uma coleção a partir do ponto de vista de uma moradora da cidade que veio de fora. “Entropia fala de desordem, e todo mundo que mora no Rio sabe que nem sempre a relação é harmoniosa”, diz a estilista à Bravo!. “Mas é uma desordem natural, que leva para a ordem. Esse descompilado é o Rio para mim”, resumiu. O resultado foi uma alfaiataria desconstruída e poética, com destaque para os elementos esculpidos em madeira descartada e também para o crochê em palha com tingimento natural. 

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Rita Carreira no desfile da marca Karoline Vitto no Rio Fashion Week 2026
Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite (Marcelo Soubhia/ @agfotosite/divulgação)
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O último dia de RIOFW resumiu muito bem o significado de uma semana de moda no Rio. Argalji, marca independente de Monique Argalji, contou com os amigos na plateia e provou que sabe bem fazer modelagem em espuma. Isabela Capeto, que contou com a filha Chica no estilo pela primeira vez, se inspirou no movimento neoconcretista e nas cores e formas orgânicas da planta dracena – rosa, vermelho, verde, amarelo cevada, cores presentes na obra do artista visual Hélio Oiticica.

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Angela Brito no Rio Fashion Week 2026 (Gustavo Scatena/ @agfotosite/divulgação)

A Dendezeiro levou ao delírio o público com a dimensão política e identitária de seu trabalho autoral, trazendo nomes de peso da comunidade LGBTQIAPN+, como Majur e Lunna Montty, para a passarela. O modelo estadunidense Alton Devon Mason e Titi (12), filha de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, também fizeram seu début nas passarelas e emocionaram os fashionistas presentes.  

Fechando os cinco dias de RIOFW, teve Lenny Niemeyer, no Museu do Amanhã, homenageada por seus 35 anos de moda e completamente ovacionada pelos convidados. Com suas supermodelos de fé — Isabeli Fontana, Raica, Gianne Albertoni, Fernanda Tavares — e seus recortes e aplicações especiais – e espaciais – a estilista fez uma releitura de peças emblemáticas e demonstrou  porque é a rainha da moda praia.

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LENNY 35 anos no RioFW 26 (Zé Takahashi/divulgação)

Este primeiro RIOFW provou que a cultura de moda segue fortíssima na cidade carioca. Desde locações “absolute cinema” até o próprio público, que se monta para assistir aos desfiles, tudo tem uma linguagem de quem vive e se comunica por meio de seus looks. Teve desfile do figurino da novela “A nobreza do amor” (Rede Globo), teve as rappers gen-Z Tasha e Tracie abrindo o desfile da Adidas (com direito ao jogador Arrascaeta e o cantor Emicida na plateia), teve samba, teve ópera, teve performance, cultura ballroom, cultura de rua, de praia e até tiktoker. Teve coleção inspirada em arte. Teve a moda em toda a sua potência cultural.

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