Livro reúne pela 1ª vez crônicas de Nelson Rodrigues sobre Copas do Mundo
Coletânea resgata textos publicados originalmente em jornais de 1958 a 1970
Um dos dramaturgos essenciais do teatro brasileiro, com trabalhos adaptados para o cinema e para a televisão, Nelson Rodrigues (1912-1980) já havia escritos clássicos como A mulher sem pecado (1941), Vestido de noiva (1943), Senhora dos afogados (1947) e A falecida (1953) quando começou a se aventurar pela crônica esportiva, em 1954.
Agora, uma parte das crônicas do autor e jornalista foi reunida pela primeira vez em livro, o qual chega ao público exclusivamente pela Amazon – onde já está em pré-venda – no dia 17 de junho. O box As Copas de Nelson Rodrigues (Editora Nova Fronteira, 2026, R$ 199,90) reúne 150 crônicas rodrigueanas, escritas ao longo de doze anos, de 1958 a 1970, e publicados originalmente nas colunas Meu personagem da semana e À sombra das chuteiras imortais. A coletânea está dividida em três volumes, totalizando 632 páginas.
Para reunir o montante, foi realizada uma pesquisa entre 700 colunas desse período e selecionadas 10 colunas por ano, entre 1959 e 1970, e 10 colunas sobre as Copas do Mundo de 1958, 1962, 1966 e 1970. O trabalho foi liderado pelo organizador Caco Coelho, com idealização de Crica Rodrigues, neta de Nelson.
“Como jornalista esportivo, Nelson enxergou como ninguém o brilho em cada personagem, aproximou o ídolo do torcedor, criou uma atmosfera única de fantasia e realidade e contou a história de um Brasil de chuteiras, que muitas vezes só ele conseguia ver”, diz Crica no texto de apresentação presente no livro.
Os textos percorrem momentos decisivos da história da seleção brasileira — da primeira e segunda conquistas mundiais à derrota de 1966, na Inglaterra, até a consagração do tri no México, em 1970 — sempre filtrados pelo estilo inconfundível de Nelson, que elevou o futebol à condição de drama nacional.
“Ganhamos o Bi com todas as qualidades brasileiras, inclusive a molecagem, criadora e dionisíaca”, diz o autor sobre a vitória na Copa de 1962. “Ontem, os nossos jogadores aprenderam esta verdade absoluta: — só se ganha uma ‘Copa do Mundo’ de cara amarrada e, repito, só se ganha uma ‘Copa do Mundo’ com total seriedade”, disparou após um dos jogos da Copa de 1970.
O dramaturgo acreditava na primeira vitória brasileira em mundiais quando muitos duvidavam. “Ou muito me engano ou este campeonato do mundo vai dar ao brasileiro a impressão de que não é tão inepto, tão incapaz, tão inferior como ele mesmo se julga”, diz sobre a Copa de 1958.
O box também recupera as ilustrações de Marcelo Monteiro, publicadas originalmente ao lado de algumas crônicas em O Globo. Abrindo cada volume, o leitor encontra textos intitulados “pontapés iniciais” assinados por três personagens que ajudam a contar essa história dentro e fora de campo: Gérson, o Canhotinha de Ouro e um dos cérebros da seleção de 1970; Mário Filho, jornalista e irmão de Nelson Rodrigues; e Tostão, médico e ex-jogador da seleção tricampeã.
Com a mesma verve trágica e apaixonada devotada ao teatro, o autor transformou as partidas que registrou em epopeias, jogadores em personagens e a bola em termômetro emocional de um país inteiro. Grande parte da população “assistiu” às partidas por seus textos. Somente em 1970 houve transmissão direta e o Brasil pôde acompanhar a conquista em cores.
Nesta terça-feira (9), às 19h, ocorre um evento de lançamento do livro no Centro Cultural São Paulo. É gratuito, com retirada de ingresso 2h antes da programação na bilheteria física.