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Kiusam Oliveira funda editora Osìbatà: “Chamado da ancestralidade”

Escritora e pesquisadora critica o uso da questão racial como "acessório" no mercado tradicional, detalha seu novo selo e adianta os próximos lançamentos

Por Luana Machado 22 jun 2026, 15h22 | Atualizado em 23 jun 2026, 20h51
Mulher negra sorrindo, com cabelo crespo preso em dois coques altos, vestindo um blazer branco plissado e brincos longos dourados, com a mão direita no queixo, usando um anel grande com pedra clara
A escritora Kiusam Oliveira (Divulgação/divulgação)
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Com uma coleção de vinte títulos publicado, a escritora, ialorixá e pesquisadora Kiusam de Oliveira, que retirou o ‘de’ da assinatura recentemente, decidiu que era hora de romper com as estruturas convencionais. Movida por um chamado ancestral e pela busca por soberania econômica e artística, ela dá vida à Osìbatà, sua própria editora, cujo nome remete à planta aquática vitória-régia. O selo nasce não apenas como uma alternativa comercial, mas como um manifesto político voltado a reeducar o olhar da sociedade brasileira em relação à população negra.

O foco está na publicação de ensaios de intelectuais negros e na consolidação da LINEBEIJU — sigla para a Literatura Negro-Brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil —, um conceito teórico desenvolvido por Kiusam que expande o livro para além da palavra escrita.

No catálogo de estreia, a editora traz uma edição especial e comemorativa em capa dura e versão ouro de O Mundo no Black Power de Tayó (2013), que agora ganha novas ilustrações de Paulica Santos e a partitura da música-tema oficial, além de uma edição em capa comum destinada a escolas, bibliotecas e projetos de leitura, com kits especiais. Confira a entrevista. 

O que te motivou a embarcar nessa nova missão?

A ancestralidade é o fundamento da minha vida em tudo que eu faço, seja na militância, seja nos trabalhos artísticos. A minha escrita é muito específica e eu entendo que é uma escrita fundante para o país, porque o objetivo principal dela é reeducar os olhares e práticas de brasileiros e brasileiras em relação à população negra. E, enquanto escritora, percebo que apesar de existir demanda por essa literatura, o que surgiu muito para cumprir a implementação da Lei 10.639 de 2003, que obriga o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas do país, a estrutura das editoras não muda. Eu não vejo uma grande quantidade de profissionais negros da editoração sendo contratados nas editoras. Então, não foi uma resposta estrutural, mas por uma necessidade do mercado. A questão racial tem sido usada como um acessório e não como fundamento. E a ideia de abrir a minha editora, inclusive eu já tinha esse CNPJ, foi um chamado para essa missão dada pela ancestralidade.

E também existe a questão da soberania: eu tenho 20 livros publicados por outras editoras e eles são altamente premiados. E um prêmio é um dinheiro considerável e que não vem para a minha mão, ele fica com a editora. E há 10 anos mais ou menos, eu penso e falo: “Eu não vou mais publicar livros em outra editora, vou publicar pela minha”. Mas o comodismo e a insegurança da vida vai levando à estagnação.

Então, você pretende no futuro deixar de publicar em outras casas?

Eu pretendo continuar com alguns títulos com as editoras, até porque o formato da casa editorial que estou construindo não é algo que possa me render um dinheiro fantástico no início, não é essa a minha intenção. Eu tenho outras formas de vida, de ganhos, enfim, dá para eu pensar a longo prazo para que essa editora possa conquistar algumas vantagens financeiras. E é importante que a gente fale sobre isso também enquanto pessoa negra e CEO de editora.

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E como você definiria a linha editorial da Osìbatà? 

Ela não tem o objetivo de sair com centenas ou dezenas de livros ao ano, mas cada obra está dentro de um perfil da literatura negro-brasileira enquanto pensamento de produções adultas e da LINEBEIJU.

No anúncio das editora vocês utilizaram a palavra ‘obelisco’ . Como ela representa conceitualmente a Osìbatà? 

A cultura iorubá, de onde vem todo o meu pensamento matriz enquanto ialorixá, é uma cultura formada e constituída por obeliscos. São totens gigantes de pedras que têm atravessado milênios e continuam em pé na Nigéria. Para mim, o ato de pensar os obeliscos estruturantes da editora acaba sendo fundamental. E, na verdade, o obelisco vem da pedagogia eco ancestral, que é um campo teórico que enquanto pesquisadora eu desenvolvo. Dentro dessa pedagogia, a LINEBEIJU é um desses obeliscos, a partir do trabalho da oralidade, da ilustração, da corporeidade e a musicalidade. Tudo isso estrutura a literatura para além da escrita. Os meus livros podem se comunicar a partir da transformação em músicas, como é o caso de O Mundo no Black Power de Tayó (Editora Peirópolis, 2013), que ganhou uma música tema feita por William Paiva. A nova edição ouro do livro vem com a partitura da canção para que as famílias possam tocá-la. 

Eu tive uma experiência essa semana em uma ação do MEC em Salvador para lançar um caderno da educação popular. E lá estava a Madalena, uma senhora negra que ficou aprisionada pelos patrões por 38 anos, um caso muito famoso no país noticiado. E a Madá foi convidada ilustre porque ela conseguiu pedir socorro com o pouco de alfabetização que ela tinha. Ela escrevia com letras quase desenhadas e colocava embaixo da porta para as pessoas que passavam no corredor. Hoje, ela está no processo de alfabetização e leu o texto que escreveu no evento. É sobre isso: se eu não consigo escrever com todas as palavras, será que eu estou fazendo menos literatura do que quem vai desenhar essas palavras? Então, a Osìbatà vem nesse sentido.

O primeiro livro da editora é uma edição especial de O Mundo no Black Power de Tayó. Como foi revisitar esse livro depois de mais de uma década?

Foi extremamente tenso. Eu demorei muito para conseguir entender quem faria a ilustração. Eu não tinha dinheiro como uma grande editora tem para bancar esses direitos autorais, era uma proposta até meio indecente. E aí, eu sonhei com o trabalho da Paulica Santos e decidi fazer o convite. Rapidamente, ela retornou muito emocionada. Ela me disse: “Tayó tem sido meu livro de cabeceira e da minha filha durante todos esses anos, é o meu livro da vida, meu sonho é ilustrar essa história”. E Paulica muito rapidamente começa a me trazer resultados de ilustração de uma forma incrível. O  livro é belíssimo, ele é pequeno de capa dura. Tem a edição ouro também e os kits que eu faço para as escolas, têm sido superlegais essas saídas. A Tayó tem sido uma estratégia para financiar esse início, que é bastante desafiador. 

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O segundo lançamento é um pouco autobiográfico, falando sobre uma viagem que fez com seu pai. Como surgiu essa história?

Foi fruto de uma viagem com o meu pai no processo de Alzheimer. Foi algo incrível, que começou com uma conversa na qual ele me disse que tinha um sonho de andar de navio. Eu já fiquei apavorada, porque entendo o mar como uma grande calunga, um grande cemitério. Não consigo separar a memória de que escravizados foram sequestrados no continente africano, tirados à força daquela terra, vindo numa viagem de até 40 dias nos navios tumbeiros. Mesmo assim, eu já imaginei que teria que realizar esse sonho, a vontade dele prevaleceu. E nessa viagem eu vi um outro pai. Aqui, meu pai estava totalmente dependente de mim, totalmente. E, de repente, ele estava ativo. Esse mar trouxe um processo de autonomia novamente pro meu pai em termos de energia. Eu escrevi muito naquele momento, mas era compulsivamente. Não sei o que aconteceu, não sei explicar, eu sei que era uma energia que me botou para escrever. E eu escrevi um texto que saiu inteiro na hora. E é ele que nós estamos no preparo com ilustrador e se chama Seus Olhos sobre o Azul do Mar. E é sobre esse rejuvenescimento do meu pai em uma brincadeira de imaginação na qual botes pendurados no navio viram raias voadoras e levam ele para grandes aventuras.

O que mais teremos no calendário de lançamentos até o final do ano?

O terceiro é uma coleção chamada Na Palma da Mão, que são pockets books para trabalhar conceitos afrocentrados por intelectuais negros e negras. Então, o primeiro convidado que aceitou de pronto foi o professor Doutor Henrique Cunha Júnior, que é um mentor meu desde a década de 90 na questão racial. Ele é filho de um dos fundadores da Frente Negra Brasileira.

Fora da Osìbatà, o que anda produzindo?

Eu estou fazendo uma curadoria linda, inédita, exclusiva e de ponta na editora Elo no selo PeraBook e que pretende colocar 104 escritores e escritoras negros e negras no grupo. Já estamos na base de 70 autores, mais ou menos. E eu vou indicando, selecionando os textos de escritores reconhecidos como a Eliane Alves Cruz, e nomes que irão publicar pela primeira vez. A minha curadoria tem esse olhar formativo.

 

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