Conhecendo o autor: Kael Vitorelo
Criador da HQ Filosofia do Mamilo, o artista reflete sobre o desenho como ferramenta para enfrentar a dor causada pelo preconceito
O quadrinista Kael Vitorelo resolveu desenhar algumas de suas angústias. Recentemente, Kael passou por um procedimento de remoção de seus seios, e se deparou com a violência e o despreparo do sistema judicial, num processo burocrático que parecia não ter fim.
Kael se identifica como pessoa trans não binária (alguém que não se identifica com o sexo designado ao nascer nem com os gêneros masculino ou feminino de forma exclusiva). No caso de Kael, ele atende por diversos pronomes: masculino, feminino ou neutro. Não tem como errar se a intenção não for num tom discriminatório. Não é incomum que, em escritos sobre Kael, ocorra uma variação de pronomes ao longo do texto.
Os desenhos resultaram no livro de quadrinhos “Filosofia do Mamilo” (editora Veneta, 2024), uma espécie de obra autobiográfica, que combina quadrinhos e ensaio poético. Para o autor, o corpo é um território de transformações, e ali está o seu potencial criativo.
Em depoimento exclusivo à Bravo!, Kael discorre sobre o seu processo criativo e como lidou com o preconceito no meio do caminho.
Além de “Filosofia do Mamilo”, o quadrinista publicou “Kit Gay” (Veneta, 2021), pelo qual recebeu uma menção honrosa do Mix Literário do Festival Mix Brasil.
Bravo!- Como foi o processo criativo para equilibrar sua experiência pessoal com as diferentes linguagens que utiliza, como os quadrinhos, o ensaio e a autobiografia?
Eu comecei a escrever esse livro na forma de versos e desenhos soltos enquanto aguardava o andamento do meu processo judicial. Era uma forma de desabafar enquanto esperava o andamento do processo, e que eu acreditava que terminaria na liberação da minha mastectomia. Na época, eu imaginava que o processo seria muito mais rápido do que geralmente é. Então, grande parte do processo criativo do livro foi organizar esses desabafos para o leitor, algo que antes eu fazia apenas para mim.
Percebi também que precisaria explicar para um público mais amplo algumas questões da vivência trans, como a terapia hormonal. Mas eu não queria me explicar demais, porque a ideia não era fazer um manual sobre transgeneridade.
Bravo! – Você descreve o sistema judicial brasileiro como violento e despreparado para lidar com pessoas que fogem do padrão normativo. Como essa crítica se reflete no formato narrativo do livro e na forma como você decidiu contar sua história?
Acho que a vida foi me tornando uma pessoa estratégica, e a forma como estruturei a história reflete isso. Percebo que, muitas vezes, a transfobia acontece porque as pessoas têm dificuldade de enxergar indivíduos trans como seres palpáveis, complexos, que poderiam ser amigos próximos. Por isso, achei importante dar um passo para trás e contar minha trajetória a partir das relações familiares, da minha infância e vivência escolar. Queria estabelecer laços afetivos com o leitor e fazer com que ele reconhecesse minha individualidade — algo que nunca conseguiria fazer com o juiz, que era, na verdade, a minha vontade.
Bravo! – Seu trabalho é reconhecido por explorar questões de gênero e transgressão em formatos inovadores. Como você enxerga a relação entre a arte, especialmente os quadrinhos, e o ativismo político em um cenário social tão polarizado como o brasileiro?
Na minha formação, me apaixonei por arte conceitual, como o trabalho do Cildo Meireles, por exemplo. Quando penso no meu livro “Kit Gay” como objeto, gosto de vê-lo como algo inusitado, que quebra expectativas. Gosto de quadrinhos justamente por ser uma arte acessível, formadora de leitores. É também um formato muito amplo, cheio de potencial. No caso desse livro, Filosofia do Mamilo, achei importante que ele fosse lançado agora, nesse momento político que estamos vivendo, porque, infelizmente, os direitos das pessoas trans viraram uma narrativa em disputa.
Não acho que um livro possa substituir um movimento social, mas sei que ele pode mudar opiniões e, às vezes, até ser um amigo em momentos de solidão. Essa é a esperança que deposito nos livros, na verdade. E é por isso que gosto de escrever histórias também.
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