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Áudios, caminhadas e diários: por dentro do processo criativo de Andréa Del Fuego

Autora de 'A Pediatra' foi a primeira escritora brasileira confirmada para a Flip 2026

Por Laura Pereira Lima 14 abr 2026, 10h00
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Andréa del Fuego: "Estou sempre em estado literário" (Nina Jacobi/acervo rede Abril)
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Para Andréa del Fuego o processo de escrita é quase sagrado. “Gosto até mais do que do resultado em si. Tento preservar esse processo da expectativa, da roda viva do mercado, como se preserva uma experiência privada”, explica a escritora, que prepara um novo romance, sobre uma mulher que trabalha em uma emissora de televisão.

Um desenvolvimento criativo distinto acompanhou cada um de seus sucessos editoriais – que incluem A Pediatra, cuja adaptação teatral está em cartaz no Sesc Pinheiros até 18 de abril, e Nego Tudo, compilado de pequenas crônicas relançado em dezembro de 2025. “Existe uma rotina, mas o próprio processo flutua”, explica a autora, que foi a primeira escritora brasileira confirmada na edição de 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, entre 22 e 26 de julho. 

Maratona matinal

O livro A Pediatra foi fruto de um processo regrado e intenso. Enquanto caminhava, hábito que cultiva diariamente, foi assolada pela ideia repentina de escrever um livro sobre uma pediatra que odiava crianças. “O chamado estava dado”, lembra a autora. 

Ela passou os meses seguintes testando e reescrevendo as cinco primeiras páginas do livro, para tentar encontrar a personalidade da protagonista. “Escrevia como se estivesse seguindo uma mulher que eu não conhecia, como se ela não soubesse que eu estava ali”, conta Andréa. Assim que conseguiu descobrir o tom da narrativa, o livro ficou pronto em apenas um mês.

Nesse período, Andréa lembra que sentava todas as manhãs e escrevia por cerca de 7 horas seguidas. “Eu entrava em fusão com o livro”, conta. A escrita ocorria sempre de manhã, porque à noite ela fica com “um pouco de neblina de percepção”. 

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Registro de áudios

Para o livro que está escrevendo atualmente, que se passa em uma emissora de televisão, ela não tinha tanta disponibilidade de tempo para sentar e escrever por longas horas. Por isso, começou a usar suas caminhadas diárias de 40 minutos para ir concebendo o conceito do livro. “Caminhar é literatura também”, defende. Durante o percurso, começou a gravar áudios no celular imitando a voz das personagens. “Isso me ajudou a entender quem elas eram”, explica.

O conjunto de áudios transcritos resultou em 80 páginas de texto – que não são o livro ainda, ela reforça, mas uma trilha que guia a narrativa. “Achei muito interessante gravar em vez de escrever. A voz me dá uma dica da pontuação daquela fala e daquela cena, coisa que a escrita sozinha não atinge”.

Diário de escrita

Durante toda produção literária, Andréa del Fuego mantém diários de escrita, onde anota ideias, pesquisas e exercícios literários. “São meus laboratórios de possibilidades”, conta a escritora. 

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Um de seus livros, Sociedade da Caveira de Cristal, foi escrito quase totalmente em um desses cadernos. “Jamais farei isso novamente, porque dá um trabalho enorme para transcrever depois”.

O livro não-publicado

Nem sempre, contudo, esses processos criativos resultam em um lançamento editorial. Em uma de suas empreitadas literárias, ficou nove anos escrevendo um mesmo livro – que, ao fim, decidiu deixá-lo guardado na gaveta. “É como se eu não escutasse a voz dele. Não estou falando de magia, de brilhinho. É uma questão de linguagem mesmo. Eu transformei tanto o livro que fiquei muito estrangeira dele”.

“Desde então, tenho como método escrever como se ninguém fosse ler. Mas isso é uma retórica psicológica para a minha neurose, porque é claro que todo livro acontece naquele tripé do Antonio Candido: livro, leitor e escritor”.

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