‘O Drama’: filme com Zendaya e Robert Pattinson mistura romance e paranoia
Novo longa de Kristoffer Borgli mostra como uma confissão inesperada desestabiliza um casal prestes a se casar
Quem pergunta o que quer talvez escute aquilo que teme. Essa é uma síntese possível da proposta do novo longa do norueguês Kristoffer Borgli (O Homem dos Sonhos), O Drama, que estreia nesta semana nos cinemas brasileiros. À primeira vista, o filme chama atenção por reunir dois dos astros mais populares do momento: Robert Pattinson e Zendaya. Ambos, aliás, vivem um ano movimentado. A atriz tem cinco lançamentos previstos, incluindo a série Euphoria, que chega à sua terceira e possivelmente última temporada.
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A produção vai se apresentando como uma verdadeira sopa de gêneros: começa como um romance delicado, com toques cômicos, e aos poucos desliza para situações tensas, culminando em um drama mais denso. Nenhum sentimento ali é puro; todos coexistem em uma atmosfera marcada por conflitos. Não há um único caminho possível nem uma leitura definitiva dos personagens. Ninguém é inteiramente inocente, tampouco completamente cruel.
Ainda assim, até alcançar seus momentos mais inquietantes, o filme investe em um percurso de apresentação do casal, que conquista o espectador pelo carisma. A narrativa se inicia com Charlie (Pattinson) preparando o discurso de casamento. Desde esse primeiro momento, ele se revela profundamente apaixonado por sua noiva, Emma (Zendaya), mas também inseguro, como alguém que se sente pouco merecedor daquele amor. O rascunho do discurso evidencia isso. É ele, inclusive, que estrutura a narrativa, marcada por idas e vindas que resgatam memórias do relacionamento dos dois.
Entre essas lembranças, está o constrangedor primeiro encontro em um café. Charlie observa Emma sentada, concentrada em um livro, usando fones de ouvido. Ele ensaia uma aproximação, pesquisa rapidamente a obra que ela lê e tenta puxar assunto com base nisso, ainda que de forma inventada.
Ele se levanta, vai até ela e comenta sobre o livro, insinuando que o leu e gostou. Uma mentira. A resposta é o silêncio. Nenhum sinal de atenção de Emma. Ele retorna à mesa, derrotado, mas logo tenta novamente. “Eu não estava tentando dar em cima de você”, diz, tentando corrigir o primeiro movimento. Outra mentira. Desta vez, Emma percebe sua presença, tira um dos fones e escuta a continuidade de um discurso que sequer havia ouvido antes. Ela então revela: é surda de um ouvido. Um detalhe que parece pequeno naquele momento, mas que ganha relevância mais adiante. Ainda assim, dá a Charlie uma nova chance de recomeçar aquele flerte desajeitado.
Tudo, aparentemente, funciona. Eles se apaixonam, parecem feitos um para o outro. Emma surge como a parceira ideal. Até que, durante os preparativos, uma semana antes da cerimônia, participam de uma degustação de vinhos e bolos. Ao lado deles estão os padrinhos Rachel, interpretada por Alana Haim (Licorice Pizza, Uma Batalha Após a Outra) – a mais insuportável do grupo –, e Mike, vivido por Mamoudou Athie (Tipos de Gentileza). Em meio à conversa e à bebida, Rachel propõe uma brincadeira que já havia feito com o parceiro no início do relacionamento: cada um deve revelar a pior coisa que já fez na vida.
Mais uma vez, fica evidente que ninguém ali é irrepreensível. Mas é a revelação de Emma que altera completamente o clima. A sensação é que a festa vira um velório.
A partir daqui, há um spoiler.
Emma, que aparenta ser uma jovem sem grandes conflitos ou falhas, confessa que, na adolescência, sua realidade era bastante diferente. Enfrentava depressão severa, dificuldade de socialização e episódios de bullying. Diante da incapacidade de expressar suas dores, chega a planejar um tiroteio em massa na escola. O que causa espanto entre os convidados é perceber que não se tratava de um pensamento passageiro, mas de um plano estruturado, com direito a ensaios com a espingarda do pai. Foi em um desses testes que perdeu a audição de um dos ouvidos.
Ela relata ainda que chegou a levar a arma para a escola, com todos os passos previamente definidos. O plano, no entanto, é interrompido quando surge a notícia de outro ataque nas proximidades. Os alunos ficam abalados e passam a discutir entre si: “Quem seria capaz de fazer algo assim?”. Emma se vê incluída naquele lamento coletivo, participa da comoção e, inesperadamente, se conecta com os colegas.
Em seguida, os estudantes são reunidos no ginásio para uma atividade em que são incentivados a compartilhar sentimentos. Emma desaba em lágrimas e algo surpreendente acontece: ela é acolhida. Ninguém sabe do que ela estava prestes a fazer, e esse segredo permanece guardado até a semana anterior ao casamento. Em uma sequência de acontecimentos quase inacreditáveis, um grupo decide criar um coletivo pró-desarmamento e sugere que Emma lidere a iniciativa, enxergando nela uma jovem articulada e sem medo de se posicionar. Ou seja, um potencial que a própria menina não era capaz de reconhecer.
Dessa forma, Emma vive uma espécie de reviravolta. É, de certo modo, salva por uma sucessão improvável de circunstâncias. No entanto, ao compartilhar sua história naquele encontro íntimo com noivo e amigos, é imediatamente julgada. Rachel, que também revela ter cometido um ato cruel na infância, decide se afastar de Emma, convencida de que ela não é quem aparenta ser. Soma-se a isso o fato de uma prima sua ter ficado paraplégica após um tiroteio. Mike, por sua vez, admite ter usado uma antiga namorada como escudo durante o ataque de um cachorro na rua.
A sucessão de relatos evidencia uma cadeia de absurdos que, de alguma forma, se aproxima da normalidade.
A partir desse ponto, a comédia romântica ganha força ao incorporar um comentário social sobre uma realidade recorrente nos Estados Unidos. Nos dias seguintes, Charlie passa a viver um conflito interno, tomado pelo medo de estar se casando com a pessoa errada. Ele revisita seus sentimentos e reescreve seu discurso, que vai se tornando cada vez mais enxuto. Frases como “Ela é a pessoa mais empática que conheço” são reavaliadas e, pouco a pouco, desaparecem. Aos poucos, ele mergulha em uma paranoia crescente, apesar das tentativas de Emma de dialogar e contextualizar o episódio como fruto de um sofrimento extremo e da falta de ferramentas emocionais para lidar com ele. Nada parece funcionar.
Sem recorrer a explicações diretas, o filme propõe uma reflexão sobre um tema pouco enfrentado, mas profundamente enraizado nas inseguranças sociais: a violência pública. Sugere que o crime pode, em alguns casos, ser evitado quando há escuta e esforço coletivo para acolher quem sofre de forma contínua. Isso não elimina a responsabilidade individual, mas aponta para a possibilidade de transformação tanto do indivíduo quanto do ambiente em que está inserido. O filme transita entre romance, comédia e drama para construir situações que mergulham o espectador no constrangimento, como se estivéssemos vivendo aquilo em primeira pessoa. Um acerto do diretor.
Há também um comentário sobre a hipocrisia daquele grupo. Emma foi a única que não concretizou seu plano, e foi a única que deu provas de ter mudado.
O filme acumula méritos. Destacam-se a química entre Pattinson e Zendaya, um roteiro que se desvia do convencional, o uso de humor provocativo e a abordagem de temas estruturais que extrapolam o drama pessoal do casal. O ponto de fragilidade surge quando a narrativa se aproxima de soluções mais previsíveis e o conflito passa a girar em torno do destino da relação: vão ou não ficar juntos? Nesse momento, o drama social cede espaço a um romance mais tradicional. O que sugere uma escolha por um caminho mais seguro, evitando contrariar uma audiência menos aberta a propostas mais experimentais. Havia ali um caminho que poderia aprofundar o absurdo como espelho da realidade, talvez até alcançar um nível mais catártico, à maneira do ousado Relatos Selvagens, de Damián Szifron. Em vez disso, o filme opta por uma resolução mais contida, ainda que apressada, deixando algumas pontas em aberto.
Ainda assim, isso não compromete totalmente a experiência. O lançamento pode abrir espaço para que produções do gênero atraiam um público mais amplo aos cinemas. Ao mesmo tempo, trata-se de um filme que tende a dividir opiniões entre aqueles que o amam e os que o odeiam.





