Pesquisa evidencia hierarquia de gênero em escolas e áreas públicas
O estudo analisou como adolescentes, com foco em meninas de 6 a 18 anos, vivenciam e interagem com espaços públicos; e como o design pode ser determinante
Pouco nos damos conta, mas o ambiente ao nosso redor pode moldar nosso comportamento, nossa personalidade e a forma como percebemos o mundo. Um estudo recente da Perkins&Will, firma internacional de arquitetura e design, investigou essa influência e demonstrou que os espaços urbanos impactam a organização da sociedade, especialmente no que se refere às diferenças de gênero.
A pesquisa, intitulada Girls Just Wanna Have Fun — em referência à icônica Cindy Lauper — foi realizada entre dezembro de 2023 e maio de 2024. O estudo analisou como adolescentes, com foco em meninas de 6 a 18 anos, vivenciam e interagem com espaços públicos. Para isso, a equipe combinou revisão de literatura, entrevistas com especialistas e estudos de caso, mostrando que idade, gênero, contexto cultural e socioeconômico influenciam o uso desses ambientes.
Entre os estudos revisados, um caso conduzido pelas urbanistas Honorata Grzesikowska e Ewelina Jaskulska, do coletivo Architektoniczki, examinou o uso de pátios escolares por meninos e meninas em duas escolas da Catalunha, Espanha, ao longo de um ano. A pesquisa contou com a participação de estudantes, pais e comunidade, acompanhando alunos de 8 a 14 anos para identificar diferenças na ocupação do espaço.
Os resultados revelaram que os meninos tendem a ocupar áreas centrais e explorar livremente campos e quadras, enquanto as meninas permanecem nas bordas, buscando locais que ofereçam privacidade e segurança, como escadarias e pequenas áreas de encontro. Quando campos e quadras dominam o espaço, meninos atléticos concentram-se nessas áreas, deixando as meninas e colegas menos interessados em esportes à margem.
A pesquisa evidencia que o design do espaço pode reforçar hierarquias de gênero, indicando implicitamente quem “tem direito” de ocupar determinadas áreas. Essa distinção também se reflete nas formas de brincar: meninas buscam atividades variadas — caminhar, criar, subir, escorregar ou participar de jogos colaborativos — enquanto meninos concentram-se mais em jogos competitivos. Equipamentos inclusivos, como balanços, escorregadores e caixas de areia, favorecem socialização e cooperação entre diferentes idades, sem exigir competição intensa.
O estudo também destaca a importância de considerar mudanças geracionais e diferentes fases da vida. As necessidades de design evoluem conforme papéis e experiências — de adolescente a jovem adulta, de mulher solteira a mãe ou cuidadora, até a fase de avó — influenciando como cada pessoa navega e ocupa os espaços urbanos.
Para os pesquisadores, projetar espaços, edifícios e ambientes de forma inclusiva é essencial para refletir os valores, perspectivas e experiências de todos os usuários. Adolescentes, especialmente meninas, fornecem insights essenciais para criar ambientes mais equitativos, adaptáveis e sensíveis às diversas fases da vida feminina.