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Corpo e natureza: Pàulla Scàvazzini leva pinturas em grande escala até Nova York

Após residência em Paris, artista paulista exibe obras imersivas para mostra em Manhattan e prepara nova exposição no Rio de Janeiro

Por Humberto Abdo 10 Maio 2026, 08h00
Pàulla Scàvazzini em Nova York: artista paulista exibe obras imersivas para mostra em Manhattan
Pàulla Scàvazzini em Nova York: artista paulista exibe obras imersivas para mostra em Manhattan (Erika Garrido/divulgação)
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Nos traços de Pàulla Scàvazzini, o chão e as paredes se transformam em vertiginosas e coloridas telas de grandes dimensões. Em seu processo artístico, os pincéis “desconstroem” as formas e tons de um vaso de flores, expandido de forma abstrata nas obras site-specific feitas para a mostra Between Utopias and Abyss, em cartaz na Kaliner Gallery, em Nova York, ao lado da americana Austin Fields.

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“É uma pintura bem gestual para transmitir o caos que estamos vivendo em meio a guerras e crises ambientais”, resume ela. Desde os sete anos, a pintura tem sido um dos principais meios de expressão da artista. Nascida em São José dos Campos, no interior paulista, Pàulla perdeu o pai quando tinha apenas um mês de vida. Cresceu muito próxima da mãe e desenvolveu, ainda criança, um apego intenso que acabou a levando para a terapia. Foi uma psicóloga quem sugeriu que ela começasse a pintar.

“Em um clube cheio de senhorinhas, eu era a mascote da turma”, relembra. “Foi uma virada absurda que ligou algo novo na minha cabeça.”

Exposição em Nova York: 'Between Utopias and Abyss', em cartaz na Kaliner Gallery
Exposição em Nova York: ‘Between Utopias and Abyss’, em cartaz na Kaliner Gallery (Erika Garrido/divulgação)
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Antes de seguir a carreira artística, Pàulla optou pelo caminho supostamente mais estável e ficou dois anos na faculdade de arquitetura. Formada em Artes Visuais na FAAP, viu seus planos se transformarem ao ser aprovada em uma concorrida residência artística em Paris. “Foram os melhores meses da minha vida”, conta.

A experiência na capital francesa marcou profundamente sua relação com arte e liberdade. Morando em um apartamento às margens do rio Sena e convivendo com artistas do mundo inteiro, ela mergulhou de vez no circuito internacional. “Aprendi francês em sete meses e voltei chorando no avião porque queria ficar.”

Sem conseguir visto para permanecer na Europa, retornou ao Brasil e começou a consolidar sua carreira no circuito paulistano. Na época, ainda trabalhava com retratos figurativos, mas já começava a tensionar os limites da representação tradicional. A pintura acadêmica e tradicional, com flores, vasos e paisagens, acabaria se tornando, anos depois, a base conceitual de sua pesquisa mais recente. 

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Processo criativo

Após alguns trabalhos, Pàulla passou a repetir a imagem da flor desconstruindo pétalas, caules e formas até transformá-los em gestos cada vez mais abstratos.

Vieram então as chamadas “paisagens abstraídas”: pinturas de escala monumental, marcadas por pinceladas violentas, sobreposições e fisicalidade intensa. As telas, segundo ela, tentam traduzir sensações de instabilidade e colapso. “É uma pintura muito gestual e catártica”, define.

Obra de Pàulla Scàvazzini: trajetória internacional
Obra de Pàulla Scàvazzini: trajetória internacional (Erika Garrido/divulgação)
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Aos poucos, as pinturas deixaram de ocupar apenas telas e passaram a invadir o espaço expositivo. Em alguns casos, o público literalmente pisa sobre a obra. “Me interessa muito a relação entre pintura e espaço. O espectador não olha só para a pintura. Ele entra nela.”

A aproximação com Nova York aconteceu durante uma residência na School of Visual Arts. O resultado foi uma individual que chamou atenção de curadores locais e abriu caminho para a exposição atual na Kaliner Gallery.

Agora, Pàulla ocupa o espaço da galeria com pinturas que cobrem paredes e chão, criando um ambiente imersivo que dialoga com as esculturas em vidro de Austin Fields. “Imagino as esculturas dela como se fossem minhas pinturas encapsuladas.”

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Em meio ao reconhecimento internacional, Pàulla ainda fala da carreira com certa surpresa. Vive exclusivamente da venda de suas obras há alguns anos e financiou parte das viagens vendendo pinturas e buscando pequenos apoios. “Eu vim de um país colonizado, sou uma mulher latina e expor agora em Manhattan, numa galeria aberta para a rua, é muito forte para mim.”

Depois de Nova York, ela já tem outro projeto: a individual Língua de Fogo, no Rio de Janeiro, que inaugura em 27 de maio com novas obras aprofundando sua pesquisa sobre cor, escala e paisagens contemporâneas.

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