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Malu Mesquita quer reposicionar a Mooca no mapa cultural paulistano

A fotógrafa encerrou recentemente uma retrospectiva de seus 11 anos de carreira no Centro Cultural O Jardim, na zona leste de São Paulo

Por Humberto Maruchel 2 abr 2026, 15h41
Fotógrafa Malu Mesquita, criadora do Centro Cultural O Jardim
Fotógrafa Malu Mesquita, criadora do Centro Cultural O Jardim (João Rocha/Bravo)
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Para a fotógrafa Malu Mesquita, o ato de fotografar tem a ver com o território. Não necessariamente como um gesto intencional, mas espontâneo, que se desenvolve a partir de sua ligação afetiva com o lugar, a paisagem e as imagens que isso desperta nela. Quase como se cada encontro revelasse um pouco de sua própria história.

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Essa dimensão se explicita na série “Raízes”, apresentada pela primeira vez em sua retrospectiva no Centro Cultural O Jardim, espaço fundado por ela em 2022, na Mooca. A exposição celebra seus 11 anos de trajetória e reúne trabalhos que atravessam diferentes momentos de sua produção. Logo na entrada, nas fotografias instaladas próximas à porta da casa, emerge um gesto simples, mas carregado de intimidade. Em meio a um bairro que se verticaliza rapidamente, com torres que se multiplicam ao redor, as imagens se voltam para o que ainda persiste. São registros da natureza que resiste em uma praça da região. Fragmentos de pertencimento.

Malu Mesquita realizou retrospectiva de 11 anos de carreira no Centro Cultural O Jardim
Malu Mesquita realizou retrospectiva de 11 anos de carreira no Centro Cultural O Jardim (João Rocha/Bravo)
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“Minha história está aqui. Meus filhos brincaram nessa pracinha. Eles nasceram aqui perto — hoje têm 21 e 25 anos —, mas cresceram aqui. Eu também cresci aqui. Então essas imagens carregam muito disso: são as minhas raízes na Mooca”, contou a artista à Bravo! no dia do encerramento da exibição.

A série nasce também de um estado de atravessamento. Malu havia acabado de visitar uma exposição que a impactou profundamente e, ao retornar, encontrou na fotografia uma forma de processar aquela experiência. “Quando eu fotografava, comecei a enxergar figuras de animais, figuras humanas nessas raízes, nesses pedaços de árvore. Por exemplo, aqui eu enxerguei um cavalo — e fotografei. Em outras imagens, vejo animais também: um jacaré, um lagarto… aqui, por exemplo, parece a pata de um lagarto, quase como uma mão.”

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Série “Raízes”, de Malu Mesquita, exposta pela primeira vez em sua retrospectiva de 11 anos. (João Rocha/Bravo)

Ao percorrer os ambientes das duas casas geminadas que compõem o centro cultural, o visitante encontra também imagens de São Paulo e Paris reunidas na série “Paris, São Paulo, Conexões Analógicas”, realizadas, como indica o título, com câmeras analógicas. “A fotografia analógica voltou a despertar meu interesse depois da pandemia. Eu comecei fotografando assim, mas, com o digital, acabei abandonando. Durante a pandemia, em casa, redescobri esse processo e até montei um laboratório”, ela conta. O procedimento, nesse caso, desloca o gesto fotográfico do automatismo e impõe outro ritmo de trabalho, mais atento e deliberado. “O tempo da fotografia analógica é mais contemplativo. As imagens são mais pensadas. Você tem 36 poses, não dá para sair clicando sem parar. Cada foto é uma escolha.”

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Em “Paris, São Paulo, Conexões Analógicas”, Malu Mesquita estabelece diálogo entre as duas metrópoles. (João Rocha/Bravo)

Outra série de destaque, que representa um momento importante em sua carreira, é “Flores”. O trabalho começou a partir de uma encomenda de uma amiga, que pediu a Malu que fotografasse peônias. Sim, as flores. A partir desse ponto, o que poderia ter permanecido como um trabalho pontual se expandiu em investigação. Ao evitar uma abordagem literal, Malu passou a experimentar diferentes tratamentos visuais. “Eu gostei tanto do resultado que decidi continuar. A partir daí, comecei a fotografar flores com mais frequência. Essas imagens são feitas em estúdio, e depois eu aplico um tratamento que cria esse efeito mais onírico, mais etéreo. Tem uma certa atmosfera de sonho, algo meio fora do real. E uso também esse suporte com acrílico, que reforça esse acabamento.”

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O que deveria ser apenas um quadro acabou se desdobrando em um projeto exibido durante a Art Basel, em Miami, em 2025.

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“Flores”, realizada em 2017, foi exibida durante a Art Basel, em Miami. (João Rocha/Bravo)

Ao fim, o visitante se depara com uma última série realizada em celebração a outro artista. Na série “Flávio de Carvalho”, realizada em 2022, no contexto do centenário da Semana de Arte Moderna, Malu apresentou fotografias feitas na casa do pintor, arquiteto e cenógrafo — um dos expoentes do modernismo brasileiro —, em Valinhos (SP).

Flávio de Carvalho”, realizada em 2022, no contexto do centenário da Semana de Arte Moderna
Flávio de Carvalho”, realizada em 2022, no contexto do centenário da Semana de Arte Moderna (João Rocha/Bravo)

A retrospectiva é atravessada, ainda, pela presença do próprio espaço que a abriga. O Jardim funciona como uma extensão de sua prática, reunindo galeria, biblioteca e um ambiente coletivo de criação. Nascida e criada na Zona Leste, Malu optou por permanecer na região, mesmo diante da concentração do circuito de artes plásticas nas áreas centrais e na zona oeste da cidade. O Centro Cultural O Jardim representa um amadurecimento de sua visão sobre os papéis que a arte pode assumir. Ali, a proposta é se consolidar como um ecossistema, aproximando artistas do território.

Eu tinha o sonho de contribuir para que a Zona Leste se consolidasse como um polo cultural e artístico. O que eu mais quero é que pessoas e artistas da região nos conheçam e nos procurem”, declara a artista.

Centro Cultural O Jardim, fundado por Malu Mesquita, na Mooca.
Centro Cultural O Jardim, fundado por Malu Mesquita, na Mooca. (João Rocha/Bravo)

Sua trajetória ganha ainda mais força ao considerar que ela promoveu uma mudança de rumo aos 46 anos.  Embora a fotografia sempre estivesse presente em sua vida, ocupava até então um lugar secundário. Formada em Publicidade e Propaganda, construiu uma carreira no marketing antes de decidir assumir integralmente a prática artística. A partir dessa virada, inicia-se o percurso que hoje completa 11 anos. “Esses 11 anos foram os mais felizes da minha vida. Tenho 57, e foi aos 46 que virei a chave. De repente, me descobri.”

Nesse processo, foi o ato de observar e capturar os momentos que deu uma nova dimensão sobre suas responsabilidades e sonhos. “A fotografia me deu isso. É o que faz sentido para mim hoje.É muito potente quando a gente entende a própria vocação e percebe como pode contribuir com o mundo”, conclui.

Ao fim de sua retrospectiva, o espaço já tem previstas duas outras exposições: “Fotógrafos da Mooca”, que abre em 11 de abril, e “Lucrecia Couso”, em cartaz a partir de 30 de maio de 2026.

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Fotógrafa Malu Mesquita na sua retrospectiva de 11 anos de carreira. (Ricardo Augusto/divulgação)
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