Malu Mesquita quer reposicionar a Mooca no mapa cultural paulistano
A fotógrafa encerrou recentemente uma retrospectiva de seus 11 anos de carreira no Centro Cultural O Jardim, na zona leste de São Paulo
Para a fotógrafa Malu Mesquita, o ato de fotografar tem a ver com o território. Não necessariamente como um gesto intencional, mas espontâneo, que se desenvolve a partir de sua ligação afetiva com o lugar, a paisagem e as imagens que isso desperta nela. Quase como se cada encontro revelasse um pouco de sua própria história.
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Essa dimensão se explicita na série “Raízes”, apresentada pela primeira vez em sua retrospectiva no Centro Cultural O Jardim, espaço fundado por ela em 2022, na Mooca. A exposição celebra seus 11 anos de trajetória e reúne trabalhos que atravessam diferentes momentos de sua produção. Logo na entrada, nas fotografias instaladas próximas à porta da casa, emerge um gesto simples, mas carregado de intimidade. Em meio a um bairro que se verticaliza rapidamente, com torres que se multiplicam ao redor, as imagens se voltam para o que ainda persiste. São registros da natureza que resiste em uma praça da região. Fragmentos de pertencimento.
“Minha história está aqui. Meus filhos brincaram nessa pracinha. Eles nasceram aqui perto — hoje têm 21 e 25 anos —, mas cresceram aqui. Eu também cresci aqui. Então essas imagens carregam muito disso: são as minhas raízes na Mooca”, contou a artista à Bravo! no dia do encerramento da exibição.
A série nasce também de um estado de atravessamento. Malu havia acabado de visitar uma exposição que a impactou profundamente e, ao retornar, encontrou na fotografia uma forma de processar aquela experiência. “Quando eu fotografava, comecei a enxergar figuras de animais, figuras humanas nessas raízes, nesses pedaços de árvore. Por exemplo, aqui eu enxerguei um cavalo — e fotografei. Em outras imagens, vejo animais também: um jacaré, um lagarto… aqui, por exemplo, parece a pata de um lagarto, quase como uma mão.”
Ao percorrer os ambientes das duas casas geminadas que compõem o centro cultural, o visitante encontra também imagens de São Paulo e Paris reunidas na série “Paris, São Paulo, Conexões Analógicas”, realizadas, como indica o título, com câmeras analógicas. “A fotografia analógica voltou a despertar meu interesse depois da pandemia. Eu comecei fotografando assim, mas, com o digital, acabei abandonando. Durante a pandemia, em casa, redescobri esse processo e até montei um laboratório”, ela conta. O procedimento, nesse caso, desloca o gesto fotográfico do automatismo e impõe outro ritmo de trabalho, mais atento e deliberado. “O tempo da fotografia analógica é mais contemplativo. As imagens são mais pensadas. Você tem 36 poses, não dá para sair clicando sem parar. Cada foto é uma escolha.”
Outra série de destaque, que representa um momento importante em sua carreira, é “Flores”. O trabalho começou a partir de uma encomenda de uma amiga, que pediu a Malu que fotografasse peônias. Sim, as flores. A partir desse ponto, o que poderia ter permanecido como um trabalho pontual se expandiu em investigação. Ao evitar uma abordagem literal, Malu passou a experimentar diferentes tratamentos visuais. “Eu gostei tanto do resultado que decidi continuar. A partir daí, comecei a fotografar flores com mais frequência. Essas imagens são feitas em estúdio, e depois eu aplico um tratamento que cria esse efeito mais onírico, mais etéreo. Tem uma certa atmosfera de sonho, algo meio fora do real. E uso também esse suporte com acrílico, que reforça esse acabamento.”
O que deveria ser apenas um quadro acabou se desdobrando em um projeto exibido durante a Art Basel, em Miami, em 2025.
Ao fim, o visitante se depara com uma última série realizada em celebração a outro artista. Na série “Flávio de Carvalho”, realizada em 2022, no contexto do centenário da Semana de Arte Moderna, Malu apresentou fotografias feitas na casa do pintor, arquiteto e cenógrafo — um dos expoentes do modernismo brasileiro —, em Valinhos (SP).
A retrospectiva é atravessada, ainda, pela presença do próprio espaço que a abriga. O Jardim funciona como uma extensão de sua prática, reunindo galeria, biblioteca e um ambiente coletivo de criação. Nascida e criada na Zona Leste, Malu optou por permanecer na região, mesmo diante da concentração do circuito de artes plásticas nas áreas centrais e na zona oeste da cidade. O Centro Cultural O Jardim representa um amadurecimento de sua visão sobre os papéis que a arte pode assumir. Ali, a proposta é se consolidar como um ecossistema, aproximando artistas do território.
“Eu tinha o sonho de contribuir para que a Zona Leste se consolidasse como um polo cultural e artístico. O que eu mais quero é que pessoas e artistas da região nos conheçam e nos procurem”, declara a artista.
Sua trajetória ganha ainda mais força ao considerar que ela promoveu uma mudança de rumo aos 46 anos. Embora a fotografia sempre estivesse presente em sua vida, ocupava até então um lugar secundário. Formada em Publicidade e Propaganda, construiu uma carreira no marketing antes de decidir assumir integralmente a prática artística. A partir dessa virada, inicia-se o percurso que hoje completa 11 anos. “Esses 11 anos foram os mais felizes da minha vida. Tenho 57, e foi aos 46 que virei a chave. De repente, me descobri.”
Nesse processo, foi o ato de observar e capturar os momentos que deu uma nova dimensão sobre suas responsabilidades e sonhos. “A fotografia me deu isso. É o que faz sentido para mim hoje.É muito potente quando a gente entende a própria vocação e percebe como pode contribuir com o mundo”, conclui.
Ao fim de sua retrospectiva, o espaço já tem previstas duas outras exposições: “Fotógrafos da Mooca”, que abre em 11 de abril, e “Lucrecia Couso”, em cartaz a partir de 30 de maio de 2026.