Documenta 16: como a mostra de arte global se reinventou após polêmica
O projeto, que acontece a cada cinco anos, teve sua última marcada por denúncias, que forçaram a organização a reestruturar sua curadoria
Uma das mais importantes exposições de arte contemporânea do mundo, a Documenta, realizada em Kassel, na Alemanha, anunciou sua equipe curatorial para 2027, quando acontecerá a 16ª edição. Sob a direção da recém-empossada Naomi Beckwith, a equipe será composta por profissionais multidisciplinares, incluindo Carla Acevedo-Yates, Romi Crawford, Mayra A. Rodríguez Castro e Xiaoyu Weng. O projeto, que acontece a cada cinco anos, teve sua última edição em 2022 marcada por uma grande polêmica, que levou a organização a reestruturar a curadoria e repensar seus rumos para manter sua relevância internacional. A próxima edição está prevista para ocorrer de 12 de junho a 19 de setembro de 2027.
Na edição anterior, a Documenta foi alvo de críticas por conta da obra “People’s Justice” (2000), do coletivo indonésio Taring Padi, incluída na programação do grupo curatorial Ruangrupa. O trabalho consistia em um grande banner em homenagem às vítimas da ditadura de Suharto (1967–1998), mas alguns elementos geraram controvérsia, como a representação de um homem judeu ortodoxo com presas e olhos vermelhos, usando um chapéu preto com as letras “SS”.
A repercussão foi imediata: críticos e veículos de imprensa denunciaram o teor da obra, que foi coberta e, posteriormente, removida definitivamente da exposição. O coletivo negou qualquer intenção discriminatória, afirmando: “Lamentamos que os detalhes deste banner tenham sido interpretados de forma diferente do seu propósito original. Pedimos desculpas pelo sofrimento causado neste contexto.” A crise provocou pedidos de responsabilização judicial dos artistas e culminou na renúncia da então diretora Sabine Schormann.
Para 2027, a principal mudança é a composição inédita da curadoria: um corpo formado exclusivamente por mulheres, liderado por Naomi Beckwith, que se torna a primeira diretora negra na história da Documenta. “Sou grata por caminhar com esta equipe na criação da Documenta 16. Admiro a independência de espírito e pensamento de cada um, que é alimentada pela generosidade para com artistas e públicos. Estamos todos empolgados em explorar, juntos, os inúmeros campos das práticas artísticas contemporâneas e em dialogar sobre as grandes questões que moldam os diversos cenários sociais e culturais do nosso planeta e seus futuros”, declarou Naomi à imprensa.
Além da Documenta, Beckwith ocupa a função de Diretora Adjunta e Curadora-Chefe do Museu Guggenheim, em Nova York, onde supervisiona coleções, exposições, publicações e programas curatoriais, além de orientar a rede internacional de museus afiliados à fundação. Antes disso, atuou no Museu de Arte Contemporânea de Chicago, organizando exposições que exploram identidade, cultura negra e práticas multidisciplinares na arte contemporânea, e também passou pelo Studio Museum no Harlem, com curadorias individuais e coletivas de destaque.
A mudança na liderança e no perfil curatorial da Documenta pode ser vista como um indicativo de transformações mais amplas no campo da arte contemporânea. Na qual, não se trata apenas de diversidade formal, mas possivelmente de uma tentativa de repensar quais vozes e experiências são valorizadas nos grandes circuitos internacionais. Ao reunir uma equipe composta exclusivamente por mulheres e liderada por Naomi Beckwith, a exposição parece refletir sobre as hierarquias e estruturas que moldam o que é considerado “central” na arte global.
Além disso, essa escolha sugere uma atenção crescente às complexidades sociais, políticas e culturais que atravessam o mundo atual, como desigualdade, diálogos interculturais e tensões políticas. Portanto, esses temas se tornam mais evidentes no olhar curatorial, transformando a própria exposição em um espaço de questionamento.