Denilson Baniwa: “Meu interesse é esclarecer a história do Brasil”
Artista exibe obras inéditas, feitas em 2025, que funcionam como diagramas contemporâneos das forças que moldam a vida na Amazônia
Após retornar de suas primeiras incursões solo pelo mundo – Contra-feitiço, parte do Alkantara Festival, na Galeria Municipal Quadrum, em Lisboa, em 2025; e Denilson Baniwa: Under the Skin of History, em 2024, no Princeton University Art Museum – Denilson Baniwa retorna a São Paulo com a individual Yawara Akanga, em cartaz até 23 de maio na galeria A Gentil Carioca.
Em dez obras inéditas feitas em 2025, o artista amazônida do povo Baniwa continua sua pesquisa sobre a presença não indígena na região do Rio Negro e no território amazônico. “As obras que fiz para essa exposição são como uma pussanga (como se diz no idioma Nheengatu). Ou seja, um feitiço para provocar uma reflexão sobre apagamentos históricos das populações indígenas, e sobre a própria construção da cultura brasileira”, resume Baniwa.
Ele constrói esses trabalhos a partir da reinterpretação de imagens de tradições e representações locais, instituições europeias e norte-americanas (incluindo o Musée du Quai Branly, na França; o Museu Nacional de Etnologia de Lisboa, em Portugal; a Biblioteca da Universidade de Princeton e a Fundação Getty, ambas nos Estados Unidos), bem como arquivos fotográficos de internatos católicos e missões salesianas em aldeias amazônicas. Criadas com pigmentos naturais, carvão e penas de aves sobre fibras de casca de árvore, suas obras revisitam o passado e funcionam como diagramas contemporâneos das forças que moldam a vida na Amazônia.
“O meu interesse, desde sempre, foi, a partir do contato com esses acervos, construir uma narrativa pelo ponto de vista de populações indígenas. É como uma arqueologia de histórias não contadas, que também recolhi de conversas com pessoas da minha comunidade. Para produzir uma obra, sou capaz de comprar um livro raríssimo num leilão em Paris, ou viajar para uma aldeia distante apenas para escutar uma história de como foram os internatos católicos nas aldeias ou de como foi o escravagismo moderno no Alto Rio Negro. Meu interesse é unicamente esclarecer a história do Brasil do ponto de vista de uma pessoa indígena”, explica.
Frases como “Antes do pecado, todos bebiam CAXIRI!” ou “FÉ! Fé! Luta! Luta!” destacam a transição entre a imposição religiosa e as formas de resistência anticolonial, enquanto a presença de imagens de deuses e espiritualidades indígenas ao lado de figuras da mitologia grega e romana demonstra uma tentativa de posicionar as histórias amazônicas como pontos de partida para repensar a filosofia e a história ocidentais.
Neste ano, Denilson também participa da 4ª edição da Frestas – Trienal de Arte, no Sesc Sorocaba, até 16 de agosto; e da exposição Amazônia – Créations et futurs autochtones, que, após passar pela França em 2025, está em itinerância até 9 de agosto no Kunst- und Ausstellungshalle der Bundesrepublik Deutschland, na Alemanha.
No ano passado, inaugurou uma obra comissionada no Instituto Inhotim, iepē pisasu ara uosika (“um novo dia nascerá”). A obra marca a nova fase da Galeria Claudia Andujar, que celebra dez anos com a inclusão de trabalhos de mais de 20 artistas indígenas da América do Sul e ganha o nome de Maxita Yano.
Baniwa participou da 35ª Bienal de São Paulo, em 2023, e, em 2024, foi um dos curadores do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza. Além de artista visual, é publicitário e defensor dos direitos indígenas. Através de palestras, oficinas, cursos e diversos meios como revistas, filmes e séries de TV, ele contribui para a construção de uma imagética indígena.
Denilson Baniwa: Yawara Akanga
Até 23 de maio de 2026.
A Gentil Carioca | Travessa Dona Paula, 108, Higienópolis, São Paulo-SP
Segunda a sexta das 10h às 19h; sábado das 11h às 17h; fechado aos domingos.
Ingressos: Grátis