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As errâncias criativas de Márcia Falcão

Leia o depoimento da artista carioca, que é destaque na 36ª Bienal de Arte de São Paulo

Por Márcia Falcão em depoimento a Humberto Tozze 23 out 2025, 09h00 | Atualizado em 11 nov 2025, 12h32
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Márcia Falcão (Eduardo Ortega/divulgação)
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  • Quem se depara com as imensas obras de Márcia Falcão, expostas na 36ª Bienal de Arte de São Paulo, pode, a princípio, imaginar tratar-se de uma artista com décadas de carreira consolidada, tamanha é a robustez de seu trabalho. Talvez, nesse primeiro olhar, se perca de vista que ela é jovem, de riso solto e capaz de fazer graça de si mesma.

    A verdade é que suas pinturas estão entre os destaques da mostra. Cinco obras compõem uma série sobre o corpo em movimento — mas não gestos cotidianos; ao contrário, momentos em que ele se projeta além de seus limites, seja na prática de ioga, capoeira ou na dança. Há um elemento que não passa despercebido: o corpo gordo em evidência e protagonismo. Ao mesmo tempo, é um corpo distorcido, distante da representação realista, revelando o interesse da artista em experimentar e reimaginar as possibilidades figurativas.

    Ao falar de sua trajetória, Falcão reconhece que a errância (palavra que sustenta a Bienal como um de seus pilares) esteve presente em todo o percurso. Começou seus estudos em Artes Visuais sem grandes expectativas de ingressar no mercado de arte, enquanto trabalhava no comércio. Após formada, guardou o diploma para poder trabalhar e cuidar de suas duas filhas. Mas a vocação e a persistência foram determinantes: suas pinturas começaram a chamar atenção de figuras importantes do meio artístico e abriram caminho para sua reinserção no mercado. O resto é história, que deixamos para que a própria Márcia conte. Leia abaixo o seu depoimento na íntegra para esta Bravo!. 

    As errâncias criativas de Márcia Falcão

    Eu entrei na universidade aqui no Rio de Janeiro, na UFRJ, com 19 anos, para fazer bacharelado em pintura. Fiquei até os 25, embora o curso teoricamente durasse quatro anos, porque durante a formação precisei trabalhar fora. Trabalhei no comércio; meu primeiro emprego foi no shopping. Era uma vida dividida entre o curso, que era integral de manhã e tarde, e o trabalho.

    Essa situação de horários conflitantes acabou impactando minha formação. Cheguei a ser reprovada em Pintura 3 porque precisava sair mais cedo. Conversei com meu professor, e ele disse que estava tudo bem, mas no final do período falou: “Você tem muito potencial, mas não está se dedicando.” E eu respondi: “Não tenho como me dedicar, tenho contas para pagar.”

    Minha realidade sempre teve muito peso no meu processo. Eu nasci em Realengo e morei a maior parte da minha vida em Irajá e Coelho Neto. Entre os 8 e os 18 anos morei no interior do Rio, no município de Cabo Frio, em áreas periféricas. As necessidades urgentes sempre se impuseram, mesmo durante a formação, mas eu continuei me dedicando ao curso, que ingressei por volta de 2004.

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    Ateliê de Márcia Falcão (Rafael Salim/divulgação)
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    Na universidade, muita gente falava de objetos, performances; linguagens que me pareciam muito distantes. Eu não tinha bagagem em artes visuais, então me concentrei na pintura, no processo de pintar, em entender os elementos formais que eu conseguia controlar. Acho que foi a melhor decisão que pude tomar na época. Eu costumava dizer que ainda era muito jovem, e não teria muito a dizer em termos de conteúdo profundo. Então, o que pude fazer foi aprofundar o meu fazer artístico.

    Quando me formei, em 2010, com 25 anos, eu já trabalhava no comércio; cheguei a gerente de loja. Engavetei o diploma, vivi minha vida, me casei, tive filhos, achando que nunca mais trabalharia com arte. A realidade em que a gente está inserido, muitas vezes, se impõe sobre os sonhos.
    Antes da faculdade, eu não tinha prática formal em pintura. Meu pai me dava aquarelas pequenas, com pincéis enormes; eu gostava de desenhar, mas nunca imaginei que fosse trabalhar com isso. Na época, eu levava a natação mais a sério do que o desenho. É importante pensar no território em que eu estava: um sonho como ser pintora não se apresentava como possibilidade real. Minha personalidade sempre esteve ligada à realidade, então imaginar que eu pudesse ser artista profissional parecia loucura.

    O que mudou? Na verdade, essa chavinha nunca mudou totalmente. Eu sempre quis ter um diploma; ser pintora não era meu sonho. Entrei na universidade mais por paraquedas. Na primeira tentativa de vestibular, queria Filosofia e não passei. Fiquei um ano no Rio sem faculdade, dando reforço escolar de matemática, e me preparando para o próximo vestibular. Na segunda tentativa, já não queria mais Filosofia, queria direito, mas fiz um curso livre de desenho só para passar o tempo. Esse curso, sem eu saber, preparava para o teste de habilidade específica da UFRJ para pintura. Então, acabei entrando em pintura por acaso.
    Durante a graduação, enfrentei muitos desafios. Tinha que lidar com horários conflitantes, com trabalho, e com as expectativas da universidade. Mas era uma realidade que precisava enfrentar: pagar contas, sustentar a mim mesma.

    Anos depois, casada e com duas filhas, meu casamento não deu certo. Eu havia investido em dois salões de barbearia com meu ex-marido, e quando me separei fiquei sem dinheiro e com a responsabilidade de cuidar das minhas filhas. Meu pai me apoiou, e a família decidiu que eu poderia usar o diploma em pintura para me inserir no sistema de arte do Rio, principalmente como professora. Foi assim que comecei a frequentar o Parque Lage, 10 anos após formada.
    Quando retomei os espaços de arte, meu objetivo era dar aula, mas sempre com foco em suprir uma carência que percebia no meu próprio processo: não uma carência técnica, mas conceitual e poética.

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    Ateliê de Márcia Falcão (Rafael Salim/divulgação)
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    O primeiro curso que fiz no Parque Lage, em janeiro de 2018, foi uma análise de portfólio com a Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale. Logo em seguida, participei do curso “Conversas de Arte”, que na época era ministrado por Brígida Baltar, Ana Miguel e Marcelo Campos — depois substituído pela Clarissa Diniz.

    As pessoas começaram a gostar do que eu fazia, e minha intenção inicial — dar aula — acabou ficando em segundo plano. Aí veio a pandemia. Em 2020, participei de uma exposição no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica e coloquei uma pintura relativamente grande, mais tradicional. Até então, dentro das conversas de arte, as pessoas me incentivavam a fazer trabalhos mais contemporâneos, mas senti necessidade de voltar à pintura direta. Quando fiz isso, o reconhecimento veio: as pessoas disseram “Nossa, você sabe pintar!”.

    Um jornalista que acompanhava meu trabalho entrou em contato durante a pandemia e encomendou meu primeiro trabalho pago. Foi o início das vendas: comecei a produzir croquis e a publicá-los. Nessa época, publiquei um TBT de 2017, uma foto da minha filha com Adriana Varejão, marcando a artista. Ela viu, gostou do que eu estava pintando e me convidou para mostrar meu trabalho no ateliê dela.

    A representação oficial pela galeria veio em maio de 2021, e a primeira solo aconteceu em dezembro de 2021, na Carpintaria. Desde então, participei de coletivas internacionais, como Nova York, solo em Los Angeles, solo em Berlim, além de exposições importantes em São Paulo.

    Em paralelo a tudo isso, meu desenvolvimento artístico sempre foi guiado pelo prazer de pintar. Desde a faculdade, o que me leva a continuar é, sobretudo, o processo, o fazer, e o desejo de explorar conceitos, cores, formas e narrativas que surgem no meu cotidiano.

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    A maioria das vezes, o que me interessa é esse corpo “gordo” — essa palavra nem é a ideal —, mas quando falo dele, estou mais interessada em imaginar uma anatomia outra. Porque eu cresci imersa em referências muito específicas: sou de 1985, passei pela magreza dos anos 1990 e depois pelas mulheres “frutas” dos anos 2000. Esses corpos eram, de certa forma, inventados. Então, meu trabalho traz uma nova invenção desse corpo.

    Muita gente também pergunta: “Por que a nudez?” Eu passei 10 anos em uma casa predominantemente feminina. Meus pais se separaram cedo, vivíamos minha irmã, minha mãe, minha avó e meu avô, que também era bem à vontade com o corpo. E sempre tivemos muita liberdade com o corpo, inclusive no contexto de praia. Na nossa família, o corpo nunca foi tabu nem associado a sexo. Sempre teve mais a ver com conforto; sentir calor, ficar à vontade.

    Na pintura, sigo essa liberdade. Muitas vezes esqueço que estou pintando pessoas nuas; foco no processo, na tinta, no fazer. As últimas séries que venho desenvolvendo desde 2022 refletem exatamente isso. É mais sobre o movimento, a forma, a cor, e menos sobre o corpo como resultado. Mas tudo isso começou na faculdade, com o desejo de entender anatomicamente o desenho. No primeiro período já trabalhávamos com modelo vivo, e eu passei pelo menos dois períodos assim, estudando luz e linha a partir do corpo. Até hoje, meu trabalho é uma resposta a esses estímulos, tanto da minha formação pessoal quanto artística.

    Sobre a Bienal, o convite foi uma loucura. Recebi o e-mail em dezembro, quase achei que era caô, pensando: “Isso é para clonar meu cartão?” Entrei em contato com meu galerista, que confirmou, e aí comecei a planejar o que mostrar. Recortei partes do que já estava acontecendo no ateliê e propus cinco pinturas, cada uma puxando a outra, inspiradas na “Ioga Psicológica”. Pensei em fazer uma roda de pinturas, para criar espaço e permitir que o público visse fragmentos de cada obra. Depois, a negociação com a Bienal ajustou a proposta: acabou sendo uma parede curva, com banco, mantendo a memória da roda.

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    O espaço em si ficou central e provocador para o olhar: o vermelho intenso da pintura da parede curatorial cria uma “armadilha visual”. Minha intenção era também preservar o cheiro da tinta, que faz parte da experiência.

    Me chamou atenção o conceito de errâncias. Ao ler o texto deles, percebi que meu trabalho já dialogava com isso. Minha pintura sempre foi muito ligada à aceitação do erro e da pausa, que fazem parte da vida. Quando retomei o trabalho artístico em 2018, tinha um bebê de menos de um ano no colo. Pintava acrílicá dentro de casa, parando para trocar fraldas ou dar suco para a mais velha. Esses intervalos eram pequenos, mas impactavam meu ritmo e me ensinaram a aceitar o processo como ele é.

    Para mim, errância é permitir o erro e perceber que ele abre caminhos que você não enxergaria se tudo saísse perfeito. Minhas séries recentes, inspiradas em ioga e capoeira, exploram isso: o “extrapolamento anatômico”, a força contida, e a experimentação do movimento, respondendo a perguntas que ninguém fez. E é exatamente isso que o artista faz.

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    Obras de Márcia Falcão na 36ª Bienal de São Paulo (Levi Fanan/reprodução)

    Quanto a ser mãe de duas meninas, de 10 e 8 anos, e artista ao mesmo tempo, é desafiador. Quando comecei no Parque Lage, em 2018, ainda amamentava minha filha mais nova. Levava alguém para ajudar com as crianças para não atrapalhar as aulas. É difícil se concentrar quando há um bebê por perto, mas, de certa forma, a minha filha mais nova se tornou um marcador temporal do meu processo de retorno ao mercado de arte.

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    Minha rotina com as meninas influencia muito meu trabalho no ateliê. A gente tenta mostrar para elas que a mãe está trabalhando, e meus horários são pensados a partir disso. Meu ateliê não é em casa, fica próximo ao Sambódromo, enquanto moramos em Irajá, meia hora sem trânsito — mas, como sempre, Rio e São Paulo têm trânsito. Ainda assim, elas entendem que trabalho e, muitas vezes, acompanham meu processo. Olham trabalhos antigos e comentam: “Você sabe fazer certinho”, porque a criança tem necessidade do concreto, de reconhecer e conseguir identificar.

    Trabalhar de forma imersa foi fundamental. Mesmo com cinco pinturas de grande escala para a Bienal, eu já estava tão envolvida com o processo que fluiu naturalmente. E, desde que comecei a trabalhar com uma galeria no Rio, ainda em consignação, em novembro de 2020, passei a viver apenas da arte. Logo depois, fechei com a Fortes, e tudo se estabilizou.

    Quanto a dar aula, eu seria péssima professora. Sou dura, talvez seca, malvada até. Por exemplo, minha filha veio passar uns dias aqui e resolveu pintar. Dei uma telinha pequena e coloquei um espelho para ela fazer um autorretrato. Quando ela quis parar, disse: “Não, você vai até o fim.” Ela mostrou: “Não, está bom.” E eu respondi: “Vamos melhorar.” Não aceito qualquer coisa. E percebo que muitos alunos só querem ouvir elogios, mas nem sempre eu sou essa pessoa.

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    Obras de Márcia Falcão (Eduardo Ortega/reprodução)

    Recentemente, recebi um grupo da UERJ: estudantes de história, licenciatura e bacharelado em artes visuais. Conversamos sobre técnica e estabilidade, e percebi como é importante ter uma base mínima. Nem todo mundo será virtuoso ou super experimental, mas há regras que todos deveriam conhecer, nem que seja para quebrá-las depois. Vejo um certo romantismo em torno da ignorância artística, como se fosse algo elevado, mas na prática não é sustentável. É duro, mas necessário. Quanto antes a pessoa descobrir onde se encaixa, melhor.

    Trabalho aqui em um prédio de três andares. Venho todos os dias, segunda a sexta, muitas vezes além do horário comercial. Vejo como rotina, disciplina e insistência são fundamentais no fazer artístico. A arte não é etérea, não nasce só do devaneio: exige labor, cansaço, suor e dedicação. Mesmo o devaneio precisa se concretizar no trabalho.

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