Os melhores espetáculos de teatro de 2025
Convidamos artistas e críticos para compartilhar os espetáculos que mais os atravessaram ao longo do ano
Falar de teatro é lidar com uma arte que nasce e se esgota no encontro. Diferente do cinema ou da música gravada, cada espetáculo carrega o risco do agora, da presença compartilhada entre palco e plateia, e daquilo que nunca se repete da mesma forma. Talvez por isso seja tão difícil estabelecer consensos: o impacto de uma peça depende do corpo que assiste, do momento vivido, do contexto em que ela acontece.
Ainda assim — ou justamente por isso — o teatro segue sendo um espaço privilegiado de reflexão, invenção e confronto com o mundo. Em um ano marcado por revisitas potentes a textos clássicos, experiências imersivas, investigações da linguagem e revisões críticas da história recente do país, a cena brasileira mostrou vitalidade, rigor e desejo de diálogo com o presente.
Diante desse cenário, convidamos artistas, críticos e jornalistas para compartilhar os espetáculos que mais os atravessaram ao longo do ano.
Votaram: André Torquato, Dante Passarelli, Gabriela Mellão, Luh Maza, Miguel Arcanjo Prado e Yara de Novaes.
André Torquato
Escolha: Prata da Casa, texto e direção de Victor Mendes.
Numa recente entrevista ao programa Arena dos Saberes, da TV Cultura, Andrea Beltrão (magnífica em Lady Tempestade) comenta que o teatro repele quem chega cheio de palestras e didatismos, que o teatro gosta de bom teatro: uma bela luz, um texto maravilhoso, ótimos atores, um bom cenário, e que isso tudo vire algo que atravessa quem está falando e quem está ouvindo. Em duas curtas temporadas gratuitas no Espaço Cênico Ademar Guerra, no porão do Centro Cultural São Paulo, pôde-se encontrar este bom teatro que Andrea se refere com a peça “Prata da Casa”, solo teatral de Felipe Frazão com texto e direção de Victor Mendes. A peça triunfa na sutileza e simplicidade da encenação, mostrando que pra acontecer esse atravessamento entre palco e plateia, não é preciso reinventar a roda. A história do zelador que tem seu emprego ameaçado pela chegada da tecnologia, e com isso, são ameaçados também sua identidade, seu passado, sua herança, carrega uma mensagem clara da importância da ancestralidade e de mantermos vivas as memórias dos que vieram antes de nós. As músicas originais de Alfredo Del Penho reforçam a raiz ancestral e brasileira da peça e são de uma beleza estonteante. Desejo vida longa ao projeto e que venham muitas outras temporadas Brasil afora.
André Torquato (@torquatoandre) é ator e cantor de Brasília, formado pelo Lee Strasberg Theater and Film Institute, atua profissionalmente no teatro há 16 anos, com trabalhos no Brasil e no exterior. Entre seus destaques estão musicais como Tatuagem, Cabaret – Kit Kat Club e Meninas Malvadas, além da participação no programa Arena dos Saberes, da TV Cultura.
Dante Passarelli
Escolhas: Senhora dos Afogados, de Monique Gardenberg, e Veias Abertas 60 30 15 Seg, da Aquela Cia.
Olhando para 2025, dentre os espetáculos teatrais que assisti, dois especialmente me marcaram. Trata-se de um texto consagrado da dramaturgia brasileira e um texto contemporâneo. Apesar de serem materiais bem diferentes, se destacaram por um motivo similar: a maneira como conseguem interrogar o presente. “Senhora dos Afogados”, montagem da peça de Nelson Rodrigues pelo Teatro Oficina com direção de Monique Gardenberg é um instante em estado de graça. O espetáculo consegue realizar uma espécie de travessia pela história do país e do teatro brasileiro de maneira arrebatadora, com cenas que são daquele tipo que fica cravada na memória para sempre. Além de ser uma linda reverência a Zé Celso (falecido em 2023) que consegue levar o seu legado adiante.
O outro espetáculo foi “Veias Abertas 60 13 15 Seg” da Aquela Cia. Com uma dramaturgia fragmentada e frenética, a partir do livro “Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, o espetáculo consegue dissecar estruturas históricas de uma maneira tão contundente politicamente quanto divertida de assistir. A refinada mescla da palavra, a fisicalidade vigorosa dos atores e música faz dela um dos pontos mais altos do ano.
Dante Passarelli (@dantepassarelli) é dramaturgo, pesquisador de teatro e diretor do Teatro Manás Laboratório. Indicado ao Prêmio Shell 2024 de Melhor Dramaturgia.
Yara de Novaes:
Escolha: (Um) Ensaio sobre a cegueira, do Grupo Galpão e Rodrigo Portella.
Grupo Galpão, Rodrigo Portella e Saramago foram feitos uns para os outros. É um deleite ver um grupo do teatro brasileiro ser tão longevo e tão contemporâneo como é o Galpão. Aula de teatro em todas as instâncias.
Yara de Novaes é atriz e diretora.
Miguel Arcanjo Prado
Escolha: O Céu da Língua, escrito por Gregório Duvivier e Luciana Paes (diretora).
A peça O Céu da Língua é um dos textos mais inteligentes dos últimos tempos, escrito e interpretado por Gregorio Duvivier e dirigido e coescrito por Luciana Paes. O espetáculo foi o grande acontecimento teatral do ano. A montagem sob produção de Fernando Padilha e Clarissa Rockenbach foi ovacionada e esgotou ingressos por onde passou. Na companhia de Theodora Duvivier e Pedro Aune, Gregorio Duvivier nos convida a uma jornada hilariante e perspicaz pela cartografia da língua portuguesa, desvendando a poesia que habita, muitas vezes invisível, nas entranhas das palavras do nosso dia a dia. A genialidade da peça reside na forma como o ator e humorista transita entre a erudição e a leveza. O Céu da Língua nos devolve a percepção do humor e da beleza que residem em cada vocábulo, reafirmando nossa língua como nossa pátria, como nos ensinou Fernando Pessoa. Que, aliás, sempre esteve coberto de razão.
Miguel Arcanjo Prado é jornalista cultural, diretor do Blog do Arcanjo e do Prêmio Arcanjo, com atuação destacada na crítica e cobertura de artes no Brasil. Já passou por diversos veículos, integra importantes júris culturais e foi premiado várias vezes por sua trajetória no jornalismo cultural.
Luh Maza
Escolha: Lady Tempestade, de Yara de Novaes.
“Em um ano onde companhias mais jovens como o Coletivo Negro (Pai Contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?) e históricas como o Grupo Galpão (Um Ensaio Sobre a Cegueira) se reinventaram com ótimas visões contemporâneas de clássicos da Língua Portuguesa, destaco uma produção inspirada em manuscritos: Lady Tempestade (escrito por Sílvia Gomez, dirigido por Yara de Novaes e interpretado por Andrea Beltrão), criado a partir dos diários de Mércia Albuquerque, advogada pernambucana que lutou contra a Ditadura Militar. O espetáculo conseguiu equilibrar algumas de nossas obsessões: o elemento histórico sintonizado com políticas recentes, mas com olhar poético; o biodrama/autoficção/metalinguagem como veículo de aproximação sem cair em fetichismos; e uma interpretação fluida entre o naturalismo e uma composição delicada da personagem. De relevância documental para a História, sofisticação cênica na tríade texto-encenação-atuação e capacidade de formação de ágora junto ao público, Lady Tempestade foi um exemplo de teatro total apresentado em 2025.”
Luh Maza é autora e diretora de teatro (Carne Viva), cinema (Insubmissas) e televisão (Da Ponte Pra Lá). Foi curadora na MIT-SP, SESI e prefeituras de São Paulo e Curitiba. Como crítica e articulista colaborou com Folha de S. Paulo, UOL, Yahoo! Brasil e Revista Cult; além de ter sido jurada do Prêmio Shell de Teatro.
Gabriela Mellão
Escolha: (Um) Ensaio sobre a Cegueira”, do Grupo Galpão e Rodrigo Portella.
Um Ensaio sobre a Cegueira” marca o encontro entre a perturbadora alegoria criada pelo escritor José Saramago e a inquietação artística do Grupo Galpão. Mas não só. Na encenação de Rodrigo Portella, a plateia é convocada para entrar no jogo cênico e desempenhar o papel central dos cegos da epidemia. Vendado, o espectador sobe ao palco e passa a integrar o corpo coletivo, sendo conduzido e manipulado pelo elenco por um palco cru, sem cenário ou artifícios. A instabilidade de seus passos trôpegos torna-se protagonista do espetáculo.
A perda da autonomia, o medo e a incerteza em vez de representados são vividos em cena. De um lado, a montagem materializa no corpo do público a metáfora de Saramago, expondo o colapso ético, social e humano de uma sociedade privada da capacidade de enxergar o outro. De outro, evidencia a potência artística lapidada ao longo de mais de quatro décadas de trajetória de um coletivo que sabe se reinventar a cada projeto ao se abrir às linguagens diversas de alguns dos diretores mais interessantes da cena brasileira, como Gabriel Villela, Márcio Abreu, Yara de Novaes e, agora, Rodrigo Portella.