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Os melhores espetáculos de teatro de 2025

Convidamos artistas e críticos para compartilhar os espetáculos que mais os atravessaram ao longo do ano

Por Redação Bravo!
24 dez 2025, 12h00 •
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 (Gil Tuchternhagen/divulgação)
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  • Falar de teatro é lidar com uma arte que nasce e se esgota no encontro. Diferente do cinema ou da música gravada, cada espetáculo carrega o risco do agora, da presença compartilhada entre palco e plateia, e daquilo que nunca se repete da mesma forma. Talvez por isso seja tão difícil estabelecer consensos: o impacto de uma peça depende do corpo que assiste, do momento vivido, do contexto em que ela acontece.

    Ainda assim — ou justamente por isso — o teatro segue sendo um espaço privilegiado de reflexão, invenção e confronto com o mundo. Em um ano marcado por revisitas potentes a textos clássicos, experiências imersivas, investigações da linguagem e revisões críticas da história recente do país, a cena brasileira mostrou vitalidade, rigor e desejo de diálogo com o presente.

    Diante desse cenário, convidamos artistas, críticos e jornalistas para compartilhar os espetáculos que mais os atravessaram ao longo do ano.

    Votaram: André Torquato, Dante Passarelli, Gabriela Mellão, Luh Maza, Miguel Arcanjo Prado e Yara de Novaes.

    André Torquato

    Escolha: Prata da Casa, texto e direção de Victor Mendes.

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    Prata da Casa (João Maria/reprodução)

    Numa recente entrevista ao programa Arena dos Saberes, da TV Cultura, Andrea Beltrão (magnífica em Lady Tempestade) comenta que o teatro repele quem chega cheio de palestras e didatismos, que o teatro gosta de bom teatro: uma bela luz, um texto maravilhoso, ótimos atores, um bom cenário, e que isso tudo vire algo que atravessa quem está falando e quem está ouvindo. Em duas curtas temporadas gratuitas no Espaço Cênico Ademar Guerra, no porão do Centro Cultural São Paulo, pôde-se encontrar este bom teatro que Andrea se refere com a peça “Prata da Casa”, solo teatral de Felipe Frazão com texto e direção de Victor Mendes. A peça triunfa na sutileza e simplicidade da encenação, mostrando que pra acontecer esse atravessamento entre palco e plateia, não é preciso reinventar a roda. A história do zelador que tem seu emprego ameaçado pela chegada da tecnologia, e com isso, são ameaçados também sua identidade, seu passado, sua herança, carrega uma mensagem clara da importância da ancestralidade e de mantermos vivas as memórias dos que vieram antes de nós. As músicas originais de Alfredo Del Penho reforçam a raiz ancestral e brasileira da peça e são de uma beleza estonteante. Desejo vida longa ao projeto e que venham muitas outras temporadas Brasil afora.

    André Torquato (@torquatoandre) é ator e cantor de Brasília, formado pelo Lee Strasberg Theater and Film Institute, atua profissionalmente no teatro há 16 anos, com trabalhos no Brasil e no exterior. Entre seus destaques estão musicais como Tatuagem, Cabaret – Kit Kat Club e Meninas Malvadas, além da participação no programa Arena dos Saberes, da TV Cultura.

    Dante Passarelli

    Escolhas: Senhora dos Afogados, de Monique Gardenberg, e Veias Abertas 60 30 15 Seg, da Aquela Cia.

    Olhando para 2025, dentre os espetáculos teatrais que assisti, dois especialmente me marcaram. Trata-se de um texto consagrado da dramaturgia brasileira e um texto contemporâneo. Apesar de serem materiais bem diferentes, se destacaram por um motivo similar: a maneira como conseguem interrogar o presente. “Senhora dos Afogados”, montagem da peça de Nelson Rodrigues pelo Teatro Oficina com direção de Monique Gardenberg é um instante em estado de graça. O espetáculo consegue realizar uma espécie de travessia pela história do país e do teatro brasileiro de maneira arrebatadora, com cenas que são daquele tipo que fica cravada na memória para sempre. Além de ser uma linda reverência a Zé Celso (falecido em 2023) que consegue levar o seu legado adiante.

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    Senhora dos Afogados
    Senhora dos Afogados (divulgação/divulgação)

    O outro espetáculo foi “Veias Abertas 60 13 15 Seg” da Aquela Cia. Com uma dramaturgia fragmentada e frenética, a partir do livro “Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, o espetáculo consegue dissecar estruturas históricas de uma maneira tão contundente politicamente quanto divertida de assistir. A refinada mescla da palavra, a fisicalidade vigorosa dos atores e música faz dela um dos pontos mais altos do ano.

    Veias Abertas 60 30 15 Seg, da Aquela Cia.
    Veias Abertas 60 30 15 Seg, da Aquela Cia. (Joao Júlio Mello/divulgação)

    Dante Passarelli (@dantepassarelli) é dramaturgo, pesquisador de teatro e diretor do Teatro Manás Laboratório. Indicado ao Prêmio Shell 2024 de Melhor Dramaturgia.

    Yara de Novaes:

    Escolha: (Um) Ensaio sobre a cegueira, do Grupo Galpão e Rodrigo Portella.

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    (Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão (Fernando Lara/divulgação)

    Grupo Galpão, Rodrigo Portella e Saramago foram feitos uns para os outros. É um deleite ver um grupo do teatro brasileiro ser tão longevo e tão contemporâneo como é o Galpão. Aula de teatro em todas as instâncias.

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    Yara de Novaes é atriz e diretora. 

    Miguel Arcanjo Prado

    Escolha: O Céu da Língua, escrito por Gregório Duvivier e Luciana Paes (diretora).

    A peça O Céu da Língua é um dos textos mais inteligentes dos últimos tempos, escrito e interpretado por Gregorio Duvivier e dirigido e coescrito por Luciana Paes. O espetáculo foi o grande acontecimento teatral do ano. A montagem sob produção de Fernando Padilha e Clarissa Rockenbach foi ovacionada e esgotou ingressos por onde passou. Na companhia de Theodora Duvivier e Pedro Aune, Gregorio Duvivier nos convida a uma jornada hilariante e perspicaz pela cartografia da língua portuguesa, desvendando a poesia que habita, muitas vezes invisível, nas entranhas das palavras do nosso dia a dia. A genialidade da peça reside na forma como o ator e humorista transita entre a erudição e a leveza. O Céu da Língua nos devolve a percepção do humor e da beleza que residem em cada vocábulo, reafirmando nossa língua como nossa pátria, como nos ensinou Fernando Pessoa. Que, aliás, sempre esteve coberto de razão.

    Miguel Arcanjo Prado é jornalista cultural, diretor do Blog do Arcanjo e do Prêmio Arcanjo, com atuação destacada na crítica e cobertura de artes no Brasil. Já passou por diversos veículos, integra importantes júris culturais e foi premiado várias vezes por sua trajetória no jornalismo cultural.

    Luh Maza

    Escolha: Lady Tempestade, de Yara de Novaes.

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    (Nana Moraes/divulgação)

    “Em um ano onde companhias mais jovens como o Coletivo Negro (Pai Contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?) e históricas como o Grupo Galpão (Um Ensaio Sobre a Cegueira) se reinventaram com ótimas visões contemporâneas de clássicos da Língua Portuguesa, destaco uma produção inspirada em manuscritos: Lady Tempestade (escrito por Sílvia Gomez, dirigido por Yara de Novaes e interpretado por Andrea Beltrão), criado a partir dos diários de Mércia Albuquerque, advogada pernambucana que lutou contra a Ditadura Militar. O espetáculo conseguiu equilibrar algumas de nossas obsessões: o elemento histórico sintonizado com políticas recentes, mas com olhar poético; o biodrama/autoficção/metalinguagem como veículo de aproximação sem cair em fetichismos; e uma interpretação fluida entre o naturalismo e uma composição delicada da personagem. De relevância documental para a História, sofisticação cênica na tríade texto-encenação-atuação e capacidade de formação de ágora junto ao público, Lady Tempestade foi um exemplo de teatro total apresentado em 2025.”

    Luh Maza é autora e diretora de teatro (Carne Viva), cinema (Insubmissas) e televisão (Da Ponte Pra Lá). Foi curadora na MIT-SP, SESI e prefeituras de São Paulo e Curitiba. Como crítica e articulista colaborou com Folha de S. Paulo, UOL, Yahoo! Brasil e Revista Cult; além de ter sido jurada do Prêmio Shell de Teatro.

    Gabriela Mellão

    Escolha: (Um) Ensaio sobre a Cegueira”, do Grupo Galpão e Rodrigo Portella

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    (um) ensaio sobre a cegueira (Fernando Iara/divulgação)

    Um Ensaio sobre a Cegueira” marca o encontro entre a perturbadora alegoria criada pelo escritor José Saramago e a inquietação artística do Grupo Galpão. Mas não só. Na encenação de Rodrigo Portella, a plateia é convocada para entrar no jogo cênico e desempenhar o papel central dos cegos da epidemia. Vendado, o espectador sobe ao palco e passa a integrar o corpo coletivo, sendo conduzido e manipulado pelo elenco por um palco cru, sem cenário ou artifícios. A instabilidade de seus passos trôpegos torna-se protagonista do espetáculo. 

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    A perda da autonomia, o medo e a incerteza em vez de representados são vividos em cena. De um lado, a montagem materializa no corpo do público a metáfora de Saramago, expondo o colapso ético, social e humano de uma sociedade privada da capacidade de enxergar o outro. De outro, evidencia a potência artística lapidada ao longo de mais de quatro décadas de trajetória de um coletivo que sabe se reinventar a cada projeto ao se abrir às linguagens diversas de alguns dos diretores mais interessantes da cena brasileira, como Gabriel Villela, Márcio Abreu, Yara de Novaes e, agora, Rodrigo Portella.

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    Gabriela Mellão é autora, diretora e crítica teatral, jurada dos Prêmios Shell e APCA, e crítica da Revista Bravo! desde 2006. Entre seus destaques estão “Mutações”, premiada no Cenym 2024, e o próximo espetáculo “Travessia”, com estreia prevista para março no Sesc Belenzinho.

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