Céu de Pêssego, da Quasar, é poema coreográfico sobre afastamentos e reencontros
Leia a crítica na íntegra do balé que está em cartaz no Sesc Vila Mariana e marcou o retorno da companhia aos palcos
“Céu de Pêssego”, novo espetáculo da Quasar Cia de Dança, é no stricto sensu um poema coreográfico. A dramaturgia se inicia com uma história invisível sobre distâncias e afastamentos. Há, no espetáculo, uma quebra, um divíduo, criando uma espécie de parte 1 e parte 2. A parte 1 trata da aproximação dos corpos. Em menos da metade dessa primeira parte, os intérpretes parecem dizer ao público “empresta-me teus olhos” para que sejam reconhecidas as semelhanças entre suas diferentes danças.
Então, como uma Quasar em estudos, os movimentos no singular passam a buscar uma coletividade. A trilha sonora criada por Fred Ferreira e Lívia Nestrovski dá asas à nossa imaginação. Essa dupla foi muito bem sucedida na criação de uma coreografia para ouvir. E parecem retomar aquela discussão sobre o ovo da galinha e o que teria vindo antes: trilha ou coreografia?
Afinal, o coreógrafo Henrique Rodovalho desafiando os senhores de poucas visões já experimentou, por exemplo, no espetáculo “Só tinha de ser com você”, acoplar a música à dança somente após a coreografia já estruturada. Sob o mesmo azul, Cassio Brasil reforça com os figurinos a individualidade de cada intérprete e propõe um cenário cru onde a dança desliza silenciosamente sobre uma superfície de pelúcia. O retorno da bailarina Lavinia Bizzotto ao elenco da Quasar resulta em uma performance que nos faz buscar o registro de uma das fases áureas da companhia. Lavinia mostra que a distância entre dois períodos pode revelar o que ela ainda guarda e, assim, revelar o que ainda guardo também sobre a vasta produção da companhia.
Quem acompanha o repertório da Quasar erudito ou popular, percebe o olhar de Samuel Kavalerski expressar “sobre isto meu corpo não cansa”. E tão próximo à Carolina Amares, Luciane Fontanella e Lavinia, ele pode fazer coexistir o Samuel de antes versus o Samuel de agora. Como pontos altos, temos três ao centro das nossas atenções na parte 2 do espetáculo, com destaque para a coreografia das quatros mulheres: Lavinia, Carolina, Luciane e Daniela Moraes. É Daniela também quem vai protagonizar um solo que sintetiza a pesquisa do vocabulário de movimentos desenvolvido pela Quasar.
A plateia seguramente assistiria esse solo facilmente por repetidas vezes. Nas cenas que anseiam por instantes de felicidade, a comédia se prova tão popular quanto o tipo sanguíneo O+, pela irretocável interpretação de Jorge Garcia. Assim, carinhosamente juntos, os encontros e reencontros ainda recepcionam os materiais coreográficos trazidos pelos bailarinos Luiz Oliveira e Fabiana Nunes. Os momentos de beleza e leveza só são interrompidos por uma pausa do elenco para que não perturbe o instante em que o palco se transforma pela passagem do céu de pêssego. O público termina maravilhado com esse céu na boca, na mente e no coração.
12/12 • Sexta • 20h00
13/12 • Sábado • 20h00
14/12 • Domingo • 18h00