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Bianca Comparato estreia solo inspirado em romance de Anne Carson

Autobiografia do Vermelho marca o primeiro solo da atriz, que estreia em fevereiro no Sesc Avenida Paulista, sob direção de Daniela Thomas

Por Humberto Maruchel
2 fev 2026, 12h36 • Atualizado em 3 fev 2026, 11h00
O espetáculo Autobiografia do Vermelho adapta o romance em verso homônimo de Anne Carson
O espetáculo Autobiografia do Vermelho adapta o romance em verso homônimo de Anne Carson  (João Kopv/divulgação)
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  • A atriz Bianca Comparato aguardava um bom motivo para voltar ao teatro. Desde a última vez em cartaz, há mais de dez anos, os trabalhos se acumularam entre televisão, streaming e cinema, empurrando os palcos para um momento indefinido. O teatro, que exige recolhimento, continuidade e uma suspensão rara na lógica da indústria audiovisual, acabou ficando em espera. Mas, como acontece com muitos artistas que começam a carreira no palco, esse chamado retorna.

    A fagulha surgiu a partir de um encontro profissional que, a princípio, não tinha relação direta com uma montagem teatral. Bianca foi convidada para integrar um projeto que reunia três mulheres de gerações distintas na gravação de um audiolivro para a Supersônica, produtora brasileira especializada em adaptações sonoras de obras literárias, escritas por mulheres e interpretadas por grandes atrizes. 

    O livro escolhido foi Autobiografia do Vermelho, da canadense Anne Carson. A leitura, realizada em 2025, teve direção de Daniela Thomas, uma das fundadoras da Supersônica. Durante o processo, em que Bianca deu voz a sete personagens diferentes, Thomas teve a intuição: havia ali um espetáculo.

    “Eu dizia: ‘só vou voltar para o teatro quando eu tiver alguma coisa realmente que eu precise falar’. E com esse livro, eu recebi esse chamado. Só que eu não imaginei que eu ia fazer um solo, um monólogo.”

    A ideia amadureceu nos meses seguintes e encontrou sua forma cênica. O espetáculo Autobiografia do Vermelho estreia em 27 de fevereiro no Sesc Avenida Paulista, com dramaturgia assinada por Gabi Costa, Daniela Thomas e a própria Bianca. Thomas também responde pela cenografia, área em que é uma das principais referências do teatro brasileiro.

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    Em “Autobiografia do Vermelho”, Bianca Comparato dá vida a sete personagens (João Kopv/divulgação)
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    Segundo a atriz, o desejo de levar a obra ao palco nasceu quase instantaneamente, ainda durante o processo de dar voz ao livro. “Ainda durante a leitura do livro, ela já começava a visualizar o espetáculo, o que foi muito mágico. Enquanto eu lia, ela falou: ‘Aqui temos uma peça, temos uma peça.’ E disse que tinha que ser um monólogo. Sempre foi um sonho trabalhar com a Daniela, então eu me joguei.”

    Daniela Thomas, por sua vez, reconheceu no texto de Anne Carson um território que dialogava diretamente com sua própria formação artística. Em comunicado, a diretora relembrou o impacto que a obra lhe causou: “Já na primeira leitura de Autobiografia do Vermelho, em preparação para dirigir Bianca no audiolivro, fui transportada para o ambiente no qual iniciei minha trajetória no teatro há quase 50 anos: o teatro experimental estadunidense do final dos anos 70 e início dos 80, em Nova York.” 

    Ela relembra grupos e artistas fundamentais daquele período; encontros que foram decisivos para sua formação como artista teatral. “Lá assisti ou convivi ou trabalhei com artistas de grupos como Mabou Mines, Wooster Group, Living Theater, em teatros como o La Mama, Theater For the New City, Public Theater, e com criadores como Sam Shepard, Laurie Anderson, Richard Foreman, Jeff Weiss, Spalding Grey e por aí vai. Uma potência inventiva de grande impacto, que repercutiu mundo afora, balizou minha imaginação e a quem devo minha formação como artista do teatro.”

    A relação com Daniela Thomas também se dá nesse lugar de encontro entre gerações. Bianca destaca a energia infindável da diretora. “Ela carrega décadas de experiência e marcos fundamentais do teatro e do cinema brasileiros, mas mantém uma jovialidade impressionante. A Dani não para: ideias em fluxo constante, um impulso que contagia. É o equilíbrio ideal entre experiência e curiosidade.”

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    Retrato de Daniela Thomas.
    Daniela Thomas é uma das maiores referências na direção e cenografia teatral do país. (Eudes de Santana/arquivo)

    Publicado em 1998, o romance de Anne Carson rapidamente ganhou prestígio, chegando a ser finalista do National Book Critics Circle Award no mesmo ano. A autora parte do mito de Gerião, o “monstro vermelho” do poema lírico Gerioneida, de Estesícoro, escrito por volta de 650 a.C. No mito original, Gerião surge apenas como um obstáculo a ser eliminado por Hércules, sem subjetividade ou passado. Carson subverte essa lógica e transforma o monstro em um jovem queer contemporâneo, atravessado por experiências de abuso, abandono e desejo.

    Na adaptação cênica, Gerião aparece como um jovem alado, sensível e introspectivo, que desde a infância registra sua vida em uma espécie de autobiografia. Para Bianca, o que mais chama atenção na obra é justamente a densidade que se esconde sob uma aparente simplicidade. 

    “O livro mexeu muito comigo por vários motivos. Ele é muito poético e tem um humor próprio — alguém chegou a descrevê-lo como ‘enganosamente simples’. À primeira vista, tudo parece muito direto, mas por baixo há muitas camadas escondidas. Carson, além de tudo, é professora e tradutora de literatura grega, então surgem referências a Aristóteles que a gente nem sempre percebe. É como um iceberg: simples na superfície, mas cheio de densidade embaixo. E há também algo de maravilhosamente perturbador ali.”

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    O espetáculo Autobiografia do Vermelho adapta o romance em verso homônimo de Anne Carson
    O espetáculo Autobiografia do Vermelho, com Bianca Comparato, adapta o romance em verso homônimo de Anne Carson (João Kopv/divulgação)

    No romance, Gerião se apaixona por Héracles, numa relação marcada por assimetria, abandono e dor. Carson utiliza o mito, a poesia e a ficção para dar forma à experiência de um jovem que aprende, desde cedo, que aquilo que sente pode ser visto como monstruoso. Não à toa, Autobiografia do Vermelho é considerada até hoje uma das representações mais contundentes de personagens LGBTQ+ na literatura contemporânea.

    Essa noção de monstruosidade é um dos eixos centrais da encenação. “A peça parte muito da imaginação para devolver ao público a pergunta sobre a monstruosidade: o que é considerado monstruoso hoje na nossa sociedade? São as mulheres lésbicas, os gays, os corpos estranhos, aquilo que foge à norma? Quem define essa monstruosidade — e a serviço de quem?”, provoca Bianca. Para ela, a peça opera uma inversão clara de perspectiva: “Talvez a violência não esteja onde costumamos apontar, mas em outro lugar.”

    O espetáculo Autobiografia do Vermelho estreia em 27 de fevereiro no Sesc Avenida Paulista
    O espetáculo Autobiografia do Vermelho estreia em 27 de fevereiro no Sesc Avenida Paulista (João Kopv/divulgação)
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    Para a atriz, Gerião encarna o deslocamento: um menino queer, solitário, tentando compreender seus afetos, marcado como “monstro”. Cresci me entendendo lésbica, nascida em 1985, numa época em que as coisas eram ainda mais duras — mesmo que a luta siga sendo a mesma hoje. Na peça, e especificamente no meu corpo em cena, a monstruosidade aparece nesse lugar. Mas o gesto é justamente o oposto: Gerião não é o monstro da história. Ele é o seu herói.”

    Ao refletir sobre a trajetória e destino do personagem trágico, Bianca recorre a uma frase de Charles Bukowski. “Ele diz: ‘Encontre o que você ama e deixe isso te matar’.” Para ela, a ideia sintetiza a essência do livro. Gerião sabe que amar Herácles o levará à destruição, mas escolhe viver essa paixão até o fim. “Isso funciona como uma metáfora poderosa sobre muitas relações e sobre a própria vida: seguir em direção à finitude, ou a coisas que sabemos que podem nos ferir, e ainda assim escolher ir.”

    A ideia de criar o espetáculo se deu a partir da gravação do audiolivro
    A ideia de criar o espetáculo se deu a partir da gravação do audiolivro “Autobiografia do Vermelho”. Na imagem: Daniela Thomas e Bianca Comparato (João Kopv/divulgação)

    Sozinha em cena, Bianca interpreta sete personagens ao longo da encenação, em um dos desafios mais complexos de sua trajetória. O espetáculo também coincide com um momento pessoal decisivo. “Eu fiquei um tempo morando fora e voltei para o Brasil há cerca de um ano e meio, dois anos. Foi nesse intervalo que fui construindo a peça.” Carioca, mas radicada em São Paulo, ela descreve o trabalho como um ponto de convergência: “Sou eu no meu país, na minha língua, sozinha no palco, dando voz a uma história. Fiz 40 anos agora, estou solteira, vivendo um momento de certa solitude. É como se essa peça fosse a conjunção de tudo isso.”

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    Outro aspecto decisivo do processo foi a escolha de uma equipe majoritariamente feminina. Para Bianca, isso teve efeitos tangíveis ao longo do processo e colaborou para que sentisse mais confiança e liberdade para experimentação. “Eu acho isso fundamental, porque cria um ambiente muito saudável. Eu me sinto extremamente livre, com a segurança necessária para criar. É como no circo: dá para se lançar sabendo que a rede está ali embaixo.”

     

    Serviço

    SESC Avenida Paulista – Avenida Paulista, 119, Bela Vista, São Paulo
    De 27 de fevereiro a 27 de março de 2026.
    Quinta a sábado, às 20h. Domingos, às 18h. Sessões com acessibilidade: 5, 6, 7, 12, 13, 14 e 18/3 – LIBRAS; 8 e 15/3 – Audiodescrição
    Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (Meia) e R$ 15 (Credencial plena)

     

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