Lia de Itamaracá e Daúde lançam álbum que mistura coco, ciranda e bolero
Pelos Olhos do Mar, lançado pelo Selo Sesc, marca o primeiro álbum conjunto das artistas, com composições de Chico César, Céu e Emicida
A reunião de duas potências da música brasileira acaba de ganhar forma em estúdio. Pelos Olhos do Mar, lançado pelo Selo Sesc, marca o primeiro álbum conjunto de Lia de Itamaracá e Daúde. O encontro que, após anos dividido entre palcos e bastidores, chega agora em registro definitivo e disponível tanto em formato físico quanto nas principais plataformas de áudio.
Com produção de Pupillo e Marcus Preto, o disco apresenta dez faixas que transitam entre composições inéditas e releituras escolhidas para refletir as trajetórias das artistas. A proposta parte de um gesto de aproximação concebido por Beto Hees, parceiro de longa data de Lia, que imaginou as duas artistas ocupando o mesmo repertório. Depois de apresentações pontuais, a ideia evoluiu naturalmente para o estúdio, onde a afinidade entre elas guiou o processo de gravação.
As novas composições reúnem autores de diferentes gerações e linguagens. Emicida assina “Santo Antônio da Boa Fortuna”, escrita para aproximar simbolicamente passado e futuro. Karina Buhr contribui com “Bordado”, alinhando sua própria história — baiana formada em Pernambuco — à das cantoras. Otto compõe a faixa-título, construída inicialmente a partir de uma base de Pupillo, e que assume a forma de um bolero, gênero particularmente caro a Lia. Já “Florestania”, parceria de Céu e Russo Passapusso, surge como uma ode à terra, às florestas e aos povos tradicionais.
“As Negras”, de Chico César, abre o disco como um ponto de partida que evidencia a força musical das intérpretes e indica a essência do álbum: cruzar estéticas e mostrar como certas tradições continuam a se refazer ao longo do tempo.
O álbum também revisita canções que integram o repertório afetivo das duas intérpretes. Lia traz “Quem É?”, de Maurilio Lopes e Silvinho, música que costuma cantar em momentos íntimos e cuja versão popularizada por Agnaldo Timóteo a acompanhou ao longo da vida. A partir desse diálogo, Daúde escolhe “A Galeria do Amor”, também ligada ao universo de Timóteo e símbolo de uma época no Rio de Janeiro. As tradições pernambucanas aparecem em releituras de cocos e cirandas, como o pout-pourri com composições de Dona Célia e Dona Selma do Coco e “Se Meu Amor Não Chegar Nesse São João”, de Mestre Baracho, com participação das Irmãs Baracho.