Avatar do usuário logado
Usuário
OLÁ, Usuário
Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br

A última ponta do Planet Hemp

Ícone de uma geração que misturou som, política e contracultura, banda se despede dos palcos com a mesma faísca que incendiou o Brasil nos anos 1990

Por Rafaela Fleur
11 nov 2025, 14h42 • Atualizado em 11 nov 2025, 14h50
planet-hemp
Nesta Bravo!, o grupo revisita três décadas de rebeldia, amizade e utopia  (Fernando Schlaepfer/divulgação)
Continua após publicidade
  • O ano era 1993. No Brasil, o regime democrático ainda se consolidava, e os ecos da ditadura continuavam ressoando em leis, costumes e medos silenciosos. Nas ruas, praças e clubes do Rio de Janeiro, jovens buscavam novas formas de se expressar, conectando skate, rap e rock alternativo em experimentações sonoras e culturais. Nos arredores do Catete, um movimento começava a se formar, marcado pela inquietação de alguns artistas e pelo desejo de desequilibrar padrões estabelecidos. Entre fitas-cassete trocadas, shows improvisados e debates sobre liberdade, nasceu o Planet Hemp. Uma banda, sim, mas, sobretudo, um manifesto urbano: melodias pesadas, letras diretas, humor ácido e provocações sobre temas ainda tabu, como o consumo de maconha. A força dessa mistura rapidamente ultrapassou o subúrbio carioca, influenciando gerações e questionando os limites da expressão artística no país. O que veio depois é história.

    Tudo começou quando Marcelo D2, na época um jovem skatista de vinte e poucos anos e vendedor de camisetas de rock na Praça 13 de Maio, conheceu Luís Antônio da Silva Machado, o Skunk. O apelido surgiu de uma brincadeira entre amigos: Luís apareceu em um show punk com um moicano, mas, por precisar trabalhar no dia seguinte, raspou o cabelo logo depois da festa. A turma começou a rir da transformação repentina: em um dia, ele era skin; no outro, punk. Da mistura improvável, surgiu o nome que o acompanharia para sempre.

    Skunk viu D2 na rua, reparou na camiseta do Dead Kennedys e disse: “Você curte Kennedys? Então pega essa fita aqui e me devolve amanhã.” Era uma fita do Dread Flintstones. A partir daí, os dois se tornaram grandes amigos, e logo veio a vontade de transformar a amizade e a afinidade musical em algo maior. O duo formou a base do que se tornaria o Planet Hemp, chamando para a missão o baixista Formigão, o guitarrista Rafael Crespo e Bacalhau na bateria.

    planet-hemp
    Nesta Bravo!,
    o grupo revisita três décadas de rebeldia, amizade e utopia (Wilmore Oliveira (@youknowmyface)/divulgação)

    Em 1993, já com sua primeira fita-demo, a banda abordava a descriminalização da maconha com letras diretas e sem firulas, estabelecendo o tom de uma trajetória marcada por criatividade e subversão. Trinta e dois anos depois desse começo efervescente, o grupo se prepara para sua turnê de despedida, “A Última Ponta” acontece em Salvador, Recife,

    Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Goiânia, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e termina, claro, no Rio de Janeiro. A atual formação reúne Marcelo D2 e BNegão nos vocais, Formigão no baixo, Nobru na guitarra, Pedro Garcia na bateria e Daniel Ganjaman assumindo guitarra, baixo e teclado. Entre memórias, conquistas e perdas, a banda encerra um ciclo que atravessou décadas de revolução sonora e cultural. “A gente vai terminar enquanto a gente ainda se quer, tá ligado? Antes de sair uma porrada, antes que a gente fique puto com o outro”, brinca D2.

    Continua após a publicidade

    Mesmo após mais de três décadas de carreira, a banda continua ocupando um espaço de destaque na música brasileira e dialoga com novas gerações. Em 2023, o grupo foi reconhecido com um Grammy Latino pelo álbum “Jardineiros”, na categoria de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa, enquanto a faixa “Distopia”, parceria com Criolo, rendeu o prêmio de Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa. Esse prêmio reflete não apenas a força do legado da banda, mas também sua capacidade de se conectar com públicos mais jovens, que encontram nas letras uma mistura de crítica social, humor e energia de palco.

    “Hoje, quando a gente olha para o mercado da música, muito do que sobressai é uma reprodução de padrões prontos. O Planet conseguiu manter algo vivo, e isso é algo que eu valorizo muito”, declara D2. “Foi importante para todas as gerações que acompanharam a banda. O Planet mexe em um lugar nas pessoas, trazendo inovação, sonoridade autêntica e uma busca por algo próprio. A gente acredita no que faz, não são só palavras”, completa.

    Essa união se estende além dos seis integrantes e ganha corpo na chamada Hemp Family, um coletivo de artistas que já contou com Pitty, Seu Jorge, Criolo, Emicida e Black Alien em apresentações históricas, como o show “Baseado em Fatos Reais: 30 Anos de Fumaça”, em julho de 2024 no Espaço Unimed, em São Paulo, onde fãs de todas as idades celebraram a energia contagiante da banda.

    O som do Planet Hemp surgiu de um caldeirão improvável, em que o peso das guitarras do rock se misturava às rimas e batidas do rap, o deboche do punk e o groove do funk carioca. A ideia era incorporar samples e referenciar bandas como The Smashing Pumpkins e Nirvana. Esse cruzamento de sonoridades viraria marca de uma geração inteira de músicos que se conectaria aos veteranos do rock dos anos 1980, usando a música para reivindicar liberdade e expressar sem filtros aquilo que a ditadura havia tentado silenciar. Grupos como O Rappa, Charlie Brown Jr., Skank, Los Hermanos, Raimundos e tantos outros surgiram nesse mesmo espírito de fusão e inquietação cultural.

    Continua após a publicidade

    “A gente queria amalgamar tudo. Rap, som indie, punk rock, industrial, o que fosse”, lembrou BNegão à Bravo!. “Não era programado, era natural, era o que a gente ouvia, o que a gente vivia.” Essa mistura, ainda sem manual, refletia o próprio espírito do Rio dos anos 1990. Uma cidade em que skatistas, grafiteiros e músicos de diferentes cenas se cruzavam nos mesmos rolês, inventando uma nova estética de rua. A banda soava como a confusão organizada de uma geração que não se encaixava — e justamente por isso, fazia tanto sentido.

    O primeiro show foi para aproximadamente sete pessoas no Garage Art Cult, Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1993. A primeira fita-demo do Planet Hemp já mostrava claramente de que lado a banda estava: oito faixas sem meias palavras sobre maconha e liberdade. De repente, tudo começou a acontecer rápido demais: shows marcados em clubes e bares do Rio, viagens improvisadas, encontros com fãs. A fumaça começou a se espalhar.

    O grupo conquistou um público fiel, que se identificava com a ousadia das letras e da sonoridade. Tudo caminhava bem, até que chegou o ano seguinte. Em 1994, Skunk perdeu a vida em decorrência da Aids. Mesmo já bastante debilitado, quase ninguém sabia o que ele enfrentava em silêncio. Para seguir adiante, o grupo convidou BNegão, que acabou se tornando um dos pilares da nova formação. “Eu conheci o Marcelo na grade de um show. A gente se encontrou no meio do caos, começou a trocar ideia, e dali nasceu essa parceria. Era muita energia junta, muita vontade de fazer barulho”, recordou. A chegada dele mudou a sonoridade da banda, ampliando o diálogo entre rap, hardcore e funk.

    Antes de lançar o primeiro disco, o grupo ainda buscava um nome que traduzisse o espírito debochado e provocador que os movia. A ideia inicial era “Planeta Maconha”, mas, para evitar problemas óbvios com censura e patrocínios, o nome foi suavizado para Planet Hemp, uma brincadeira bilíngue que soava mais enigmática, mas mantinha o manifesto nas entrelinhas.

    Continua após a publicidade

    “Existe uma maneira de manipulação da opinião pública que é impressionante. Ainda temos um nível de pobreza muito alto, desigualdade social, violência. Mas se a gente olhar pelo lado do copo cheio, algumas coisas mudaram. As minorias têm mais voz, pouco ainda, mas já é alguma coisa. Hoje existem canais, espaços de diálogo que antes não existiam. Se eu comparar com os anos 80 e 90, o Brasil mudou muito pouco em relação ao resto do mundo. Ainda somos, de certa forma, a vanguarda do atraso, como se falava na década de 70. Mudou pouco, apesar de tudo que aconteceu”, comenta D2.

    O primeiro álbum, Usuário, lançado em 1995, trouxe faixas como “Legalize Já”, “Mantenha o Respeito” e “Zerovinteum”, unindo críticas sociais e humor ácido a riffs pesados e batidas sincopadas. A combinação provocou estranhamento e fascínio em igual medida. “Era tudo muito novo, ninguém entendia direito o que era aquilo. A gente falava de política, de maconha, de liberdade, e ao mesmo tempo fazia as pessoas dançarem. Isso era uma loucura”, disse D2.

    O álbum vendeu mais de 100 mil cópias, ganhou disco de ouro e colocou o Planet Hemp no centro do debate cultural brasileiro. Logo depois, a fama veio acompanhada de vigilância. As letras sobre maconha e liberdade chamaram atenção da polícia, e em 1997 parte da banda acabou presa sob acusação de apologia às drogas durante um show em Brasília. Marcelo D2, Black Alien, Formigão e Zé Gonzales foram levados para o Complexo Penitenciário da Papuda. O episódio, amplamente noticiado, transformou o grupo em símbolo involuntário da resistência e reacendeu debates sobre censura, expressão artística e hipocrisia social.

    “A gente foi preso por cantar o que acreditava. Mas, no fim das contas, aquilo deu mais força pro que a gente dizia. O Brasil inteiro começou a discutir o assunto”, relembrou BNegão.

    Continua após a publicidade

    Com o segundo disco, Os Cães Ladram, Mas a Caravana Não Para (1997), o Planet Hemp reafirmou sua postura crítica. Músicas como “Phunky Buddha” e “Stab” soavam como manifestos de sobrevivência em um país dividido entre moralismo e modernização. “A gente sempre quis falar sobre o que tava acontecendo nas ruas, sobre o que o jovem vivia de verdade, e não sobre o que diziam que ele tinha que ser”, declarou D2. O som, cada vez mais sofisticado e experimental, atraía tanto o público do rap quanto o do rock, e a banda passou a circular por festivais e programas de TV, levando o discurso da periferia para o centro do mainstream. Nos anos seguintes, o grupo passou por pausas e mudanças de formação, mas sem perder a identidade. Em 2000, o Planet entrou em hiato e seus integrantes seguiram projetos solo. D2 se lançou em carreira própria, aproximando o samba do rap e expandindo seu alcance. BNegão criou o Seletores de Frequência e se tornou uma figura central da música independente.

    “Quando a gente se separou, era necessário. Cada um precisava seguir um caminho para poder se reencontrar de outro jeito depois”, contou D2. O reencontro veio em 2010, e a volta aos palcos mostrou que o Planet Hemp ainda falava com o presente. Em 2022, lançaram Jardineiros, primeiro disco de inéditas em mais de duas décadas, reafirmando o discurso político e o compromisso com a contracultura. “A gente continua plantando ideias, tá ligado? O nome do disco é isso. Somos jardineiros de um pensamento que não pode morrer”, disse BNegão. A obra, lançada no auge de um Brasil polarizado, reaproximou o Planet de uma nova geração, que encontrou no grupo um espelho para o seu próprio descontentamento.

    Agora, com a turnê “A Última Ponta”, o grupo se despede dos palcos celebrando o percurso completo, das fitas trocadas no Catete aos grandes festivais internacionais. “A gente viveu muita coisa juntos, muita risada, muita treta também, mas, acima de tudo, respeito. Essa banda é uma família”, finaliza D2.

    Compartilhe essa matéria via:
    Publicidade
    TAGS: