A volta do broche: como um pequeno acessório dominou o tapete vermelho
De símbolo aristocrático a detalhe de estilo no Oscar, o broche reaparece como um dos sinais mais interessantes da transformação da elegância contemporânea
Durante décadas, a moda masculina no tapete vermelho parecia seguir um roteiro imutável. O tuxedo preto, a camisa branca impecável, a gravata borboleta e, no máximo, uma flor discreta na lapela formavam um uniforme quase obrigatório. Em premiações como o Academy Awards, a individualidade masculina parecia limitada a variações mínimas de corte ou tecido. Quando havia alguma diferença, ela surgia em detalhes relativamente discretos: gravatas diferentes, a ausência da gravata, camisas pretas em vez da clássica camisa branca.
Com o tempo, a paleta começou lentamente a se ampliar. Tuxedos coloridos passaram a aparecer no tapete vermelho, tentando trazer mais personalidade à moda masculina, uma tendência que alguns adoram e outros, como eu, ainda observam com certa desconfiança. Mas, nos últimos anos, um elemento muito menor passou a provocar uma mudança mais interessante: a volta do broche.
Esse pequeno acessório, preso à lapela do paletó, ou incorporado a vestidos e looks de alta-costura, tornou-se uma das formas mais elegantes de introduzir personalidade no figurino do tapete vermelho sem romper completamente com a tradição do traje formal.
Hoje é comum ver atores e atrizes usando peças de joalheria presas à roupa. À primeira vista, pode parecer apenas um capricho estilístico recente. Na verdade, trata-se de um retorno curioso a uma tradição muito mais antiga da moda.
Antes de desaparecer do guarda-roupa dos homens no século 20, o broche era um acessório relativamente comum entre aristocratas e membros da elite europeia. Sua origem, porém, remonta ainda mais longe. Na Antiguidade clássica, gregos e romanos utilizavam a chamada fíbula, uma espécie de alfinete metálico que prendia mantos e capas. Esses objetos tinham função prática, mas também rapidamente se tornaram peças ornamentais, muitas vezes produzidas em metais preciosos.
Ao longo da Idade Média e do Renascimento, broches continuaram presentes na indumentária masculina, especialmente entre nobres. Eles funcionavam como sinais de status, alianças políticas ou pertencimento a determinadas ordens ou casas aristocráticas. No século 19, durante o período vitoriano, a joalheria masculina atingiu um de seus momentos de maior visibilidade. Homens elegantes usavam relógios de bolso ornamentados, alfinetes de gravata, abotoaduras e, ocasionalmente, broches na lapela. O marido da rainha Victoria, príncipe Albert, ajudou a consolidar um ideal de elegância masculina que incluía peças de joalheria discretas, mas sofisticadas.
Esse universo começou a desaparecer no início do século 20. Depois da Primeira Guerra Mundial, a moda masculina passou por um processo de simplificação. A sobriedade tornou-se um valor central da elegância masculina ocidental, e muitos acessórios foram gradualmente abandonados. Durante grande parte do século passado, as únicas joias consideradas aceitáveis para homens em ambientes formais eram relógios, alianças e, em alguns casos, abotoaduras.
O tapete vermelho seguiu essa lógica por décadas. Em cerimônias como o Golden Globe Awards, o figurino masculino era previsível. A possibilidade de experimentação estava quase sempre reservada às mulheres, enquanto os homens permaneciam presos a um código visual bastante rígido.
A mudança começou a aparecer na segunda metade da década de 2010. O crescimento da moda masculina nas passarelas internacionais e a ascensão de novas gerações de atores mais dispostos a experimentar criaram um ambiente propício para pequenas revoluções de estilo. Casas de moda como Gucci, Saint Laurent e Louis Vuitton passaram a apresentar joias masculinas com mais destaque em suas coleções. Paralelamente, joalherias tradicionais passaram a emprestar peças de alta joalheria para atores em eventos de grande visibilidade. Marcas como Cartier e Tiffany & Co. perceberam rapidamente que a lapela masculina poderia se tornar um novo espaço de exibição para suas criações.
Nesse contexto, o broche surgiu como uma solução elegante. Diferentemente de colares ou anéis chamativos, ele preserva a formalidade do tuxedo ao mesmo tempo que introduz um ponto de individualidade no traje. Aos poucos, stylists passaram a substituir a tradicional flor na lapela por peças de joalheria.
Alguns atores tiveram papel importante na popularização desse gesto. Nomes como Timothée Chalamet e Andrew Garfield ajudaram a transformar o broche em um detalhe recorrente nas temporadas de premiações. Mais recentemente, atores como Cillian Murphy e Jeremy Strong também passaram a adotar o acessório em aparições públicas, reforçando a ideia de que a joalheria masculina voltou a ocupar espaço no vestuário formal.
Entre 2020 e 2024, a presença de broches nos tapetes vermelhos praticamente se consolidou. A peça passou a aparecer com frequência crescente em eventos da indústria cinematográfica, sinalizando uma mudança mais ampla na forma como a elegância contemporânea é pensada. Se antes o tuxedo funcionava como uniforme rígido, hoje ele se tornou uma base sobre a qual pequenas variações de estilo são possíveis.
A tendência ganhou ainda mais visibilidade nas temporadas recentes de premiações. Em 2023, muitos observadores da moda chegaram a falar em “o ano do broche”, quando o acessório apareceu repetidamente nos principais tapetes vermelhos. Três anos depois, o fenômeno voltou com força na temporada de 2026.
No próprio Academy Awards, o broche acabou se tornando um dos detalhes mais comentados do figurino da noite. Entre os homens, o acessório apareceu em diferentes interpretações: Wagner Moura e Gabriel Leone surgiram com versões elegantes presas à lapela do tuxedo, enquanto Pedro Pascal e Jacob Elordi também apostaram no detalhe para quebrar a previsibilidade do traje formal. O britânico-nigeriano Damson Idris levou a ideia ainda mais longe ao usar um broche desenhado por ele próprio para sua marca de alta joalheria, DIDRIS, com um diamante azul marquise de 7,41 quilates cercado por dezenas de diamantes brancos. Houve também versões mais ousadas, como o grande broche prateado usado por Adrien Brody.
Ao mesmo tempo, o acessório apareceu com destaque em looks femininos. Anne Hathaway, Priyanka Chopra Jonas e Ava DuVernay incorporaram broches como parte central de seus visuais, enquanto artistas brasileiros como Maria Fernanda Cândido, Bruna Marquezine e Alice Carvalho também apostaram em joias marcantes no tapete vermelho.
Em meio a vestidos monumentais e smokings impecáveis, foi justamente esse pequeno acessório, historicamente associado à joalheria feminina, que acabou se tornando um dos protagonistas silenciosos da noite.
O curioso é que essa aparente inovação representa, em muitos aspectos, um retorno. Durante grande parte da história ocidental, homens poderosos e elegantes usavam joias sem que isso fosse visto como algo extraordinário. O desaparecimento desses acessórios foi, na verdade, uma construção cultural relativamente recente.
Existe também um motivo histórico mais profundo para essa volta. Durante grande parte do século 20, as grandes casas de alta-costura e joalheria, especialmente em Paris, construíram parte de sua identidade justamente em torno de broches. Marcas como Cartier, Boucheron e Van Cleef & Arpels transformaram o acessório em pequenas esculturas portáteis, frequentemente inspiradas em flores, animais ou motivos abstratos. Ao reaparecer com força no tapete vermelho contemporâneo, o broche também reconecta o figurino das premiações a essa tradição da alta joalheria europeia, na qual a roupa funciona como palco para uma peça que concentra significado, artesanato e narrativa visual.
Ao reaparecer nas roupas de atores e atrizes contemporâneos, o broche lembra que a moda está longe de ser tão imutável quanto parece. Às vezes, basta um detalhe minúsculo preso ao tecido para revelar que até os códigos mais rígidos do vestuário formal podem mudar com o tempo. E, nesse caso, a mudança veio na forma de um acessório antigo que encontrou nova vida sob os flashes dos tapetes vermelhos.