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Caligrafia da rua

Elisa Lucinda escreve um poema exclusivo sobre a rua e seus traços para sua coluna de fevereiro/2025

Por Elisa Lucinda Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
3 fev 2025, 11h18 • Atualizado em 3 fev 2025, 12h09
grafite-caligrafia-rua-elisa-lucinda-poesia
 (Alcy Filho / unsplash/fotografia)
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  • Desde os tempos da amarelinha
    riscada com pedras no cinza do cimento
    ou nos quintais de
    terra avermelhada
    respeito os sinais do chão,
    às riscas das ruas,
    As linhas
    As retas
    As curvas
    Os atalhos
    Os caminhos
    As esquinas
    As encruzas
    Os grandes e pequenos passinhos
    nos abertos corredores
    nas discretas alamedas
    Nas escondidas finas
    margens das calçadas
    Nos becos, nas ruelas, nos cantinhos.
    Rua, tela imensa:
    O grafite, as sílabas
    com palavras não decifradas
    e hieróglifos recém inventados,
    Hieróglifos de Exu, o que acorda o mundo
    porque chega primeiro.
    São dele as mãos do invisível grafiteiro,
    o madrugado,
    o madrugoso,
    o amanheceste, a inventiva criança desobediente em ação;
    As marcas,
    o spray,
    a intrépida escalada
    na parede alta
    para deixar sua expressão onde muitos a possam ver.
    As manchas de amor nas sarjetas
    A memória orgânica sobre a pele dos postes e das desfeitas caixas de papelão,
    A essência de amônia exalando das variadas formas de poças de urinas sem nome
    sem exame ou autoria conhecida.
    Sangues e salivas se embrenham também ali,
    No chão da rua.
    O desenho dos pingos da chuva
    Na aquarela avenida,
    O espelho brilho lâmina no asfalto sob a página da vida escrita a céu aberto.
    A rua traz a verdade das feras
    e a tatuagem do abandono se pode
    ver também de perto.
    Traz a boêmia liberdade, as escolhas,
    os gritos que cortam o silêncio da madrugada e acordam os mortos de sono.
    A rua com suas letras de grafite e alegria
    A rua dos seus habitantes,
    ou seja, os passageiros,
    os que são por ela recebidos sem cerimônia sem porta ou cancela.
    A rua dos lembrados
    A rua dos esquecidos.
    Rua de sol e de lua
    As ruas nos leva ao teatro ao estádio, aos ritos, ao mato.
    Ruas dos encontros
    Ruas dos destinos,
    Rua sarjeta e passarela
    A rua minha, sua, delis e delas.
    Rua dos ébrios, dos artistas, dos românticos, dos caçadores, das bruxas, das travestis, das sapatas, das putas, dos viados, das pessoas trans.
    Ruas dos enrustidos que se libertam do armário quando anoitece,
    rua a promessa proteção do anonimato,
    rua dos cães sem dono, das sombras, dos amantes, dos inconformados, dos estupefatos.
    Rua das alegrias íntimas públicas, se dos que se esfregam escondidos nas praças na hora oculta e óbvia, dispostos como cenas de cartas na grande mesa do baralho e a cada esquina, creia-me, alguma cartomante nos lê.
    E nos enxerga por nossos rastros.
    Imprimimos vestígios,
    a memória de rodas e calçados.
    Somos revelados pela disposição do pó das coisas.
    Pelos contornos, moldes e digitais deixados por nós moradores e visitas da rua.
    A rua é uma cigana cheia de saias que lê nossas pistas, vê toda gente nua
    A rua é o portal para o qual olha pela janela por onde passará o
    menino que vai fugir com o circo
    A rua escura e iluminada por onde andam os sonhadores.
    Perambulam nela os milionários dos sonhos.
    Há nas ruas mais pobres do que ricos.
    São mais pobres do que os ricos
    Mas são mais ricos.
    Há fortunas que só os erros produzem.
    São auto reparos precisos.
    A rua e seus traços.
    A rua e suas letras onde me detenho e fico.
    Rua, o caderno da felicidade
    Rua, escrito de riscos.

    Elisa Lucinda

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