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Dia de Iemanjá: Nascida no dois de fevereiro

"Como foi definitivo ter sido filha de um advogado e de uma professora que me ensinaram a circular nesse mundo onde tem um racista em cada esquina"

Por Elisa Lucinda Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
2 fev 2026, 12h27 •
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Festa de Iemanjá (Foto de Maureen Bisilliat / acervo Instituto Moreira Salles / Festas populares no Brasil (Boitempo, 2024)/reprodução)
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  • Quem vai tirar de mim, da tela do meu coração a imagem do meu pai e minha mãe na rodoviária quando parti de minha terra natal para Cidade Maravilhosa, há 40 anos, para viver de arte? Os olhos deles falavam. Eu podia ouvir suas perguntas: quem protegerá nossa filha? Como o mundo a tratará? Encontrará o seu destino, seu caminho de estrela? Como fazer para que ela não desista durante as lutas, durante os embates? Quem a acolherá nas feridas adquiridas nos caminhos das conquistas?

    Só sei que o desfile de interrogações e temores não parou de cessar naqueles dois sonhadores que pariram essa menina,e que agora embarcavam para o futuro.

    Nascera na beira dos anos 60. Era carnaval, a mãe barriguda às 09:00 da manhã já se contorcia na primeira contração. Hospital. Maternidade. Revistas. Distrações. Canções. Esperas. Seria alarme falso? Soube mais tarde, de tanto minha mãe contar, que a banda dos mascarados na Praça Costa Pereira exibia seu tarol, sua concertina, sua orquestra de bairro com trombone e o uniforme da ocasião.

    No quarto mês de gravidez, minha mãe caíra da escada do dentista, 22 degraus rolando, ela protegendo a barriga, gritando e chorando comigo dentro. Os próximos meses foram de raio-x, incertezas, expectativas, medos e esperanças na ciência. Até que vim, nesse meio dia de carnaval, num verão de fevereiro domingo azul, onde explodi e vim a esse mundão. Durante a infância, me lembro da palheta dos meus festejos, sempre no azul e branco. Desde muito pequenininha. Não sei por quê. Não sabia porquê. O que mamãe dizia é que tinha feito uma promessa para eu não precisar tirar as amígdalas, moda da época. Mamãe tinha medo de que a cirugia me impedisse de cantar ,ou de ser de alguma maneira artista da voz quando crescesse.E para que esse desfecho se cumprisse à a contrapartida da promessa da minha mãe à Nossa Senhora da Penha era que eu me vestisse azul e branco em todo aniversário meu. Então, era assim. E até hoje me visto assim no aniversário. Amo .Quem que desconfiava que Iemanjá estava por trás de alguma coisa? Eu não sabia. Minha família era católica. Quer dizer, minha mãe era ecumênica. De manhã, cantava no coro da igreja, de noite ia para as festas das Iabás, no terreiro de Dona Tezinha.

    Só sei dizer que a infância de subúrbio iluminou minha alma. Me deu quintal com cachorro, gato, cágado, peru, galinha, galo, porco, jenipapeiro, abacateiro, goiabeira, canavial, romã. Esse quintal, era contíguo ao quintal da minha avó paterna, a velha Elisa Lucinda, da qual herdei a coroa do nome. Tenho um apreço imenso por esta paisagem que séculos se passarão e elas de mim não se dissiparão . É a horta de minha poesia, o esterco de minha inspiração. É o ateliê do qual não saio e ao qual volto quando me perco de mim.

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    Havia na nossa infância uns modelos a não serem seguidos. Entre eles o de um menino chamado Cláudio Antônio, que era um de nossos vizinhos, filho de um casal rico , super permissivo, e que só fazia vontades a esse primogênito mimado e cheio de inconveniências que esse tipo de má educação propõe e produz. Então, quando fazíamos, eu e meus irmãos , alguma coisa feia, a pior ofensa era ouvir de meu pai: tá ficando igual Cláudio Antônio?!

    Ninguém queria, ninguém queria ser Cláudio Antônio. Ninguém queria ser o chato, o sem amigos, o mal-falado, o ser inimigo do convívio, o egoísta, o que só pensava no próprio umbigo. Mas o meu mundo, naquela época, tinha poucos perigos. Talvez um tarado pudesse surgir de alguma esquina sinistra, alguma assombração, possíveis ciganos que podiam roubar crianças, ladrão de bairro desarmado, parecia que quase não tinha perigo, quase não tinha perigo no meu país da inocência. E se havia um perigo desses de quatro meninos ricos torturarem um cachorro até a morte, ninguém ficava sabendo não. Esses meninos de agora que se reuniram para a sessão de tortura e assassinato do cachorro da comunidade serão os adultos que roubarão o dinheiro público, o dinheiro da merenda escolar para comprar carro caro e dar cavalo de pau de madrugada, matando transeunte trabalhador sem olhar onde nem quem. Nesse país, até hoje, vive minha poesia, nesse país da infância em Itaquari. Minha casa era uma casa da palavra. Palavra tinha poder, tinha materialidade, tinha pernas, boca, corpo, tinha lugar pra ela. Lugar na mesa. Lugar na vida .Tínhamos estantes, livros, jornais chegavam, cartas, tudo era muito escrito na minha infância, e valia.

    Hoje vejo como foi definitivo ter sido filha de um advogado e de uma professora de yoga, negros, filhos de operários, dois visionários que me ensinaram a circular nesse mundo de meu Deus onde tem um racista em cada esquina.

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    Nesses 40 anos me senti navegando firme no oceano do tempo. Passando por ondas baixas e altas, surfando improváveis mares velejando sem vento a favor ,e mesmo assim chegando ao destino.

    Naquele 6 de março de 1986 que onde meus pais me deixaram na plataforma da viação águia branca, eu estava fazendo , hoje sei , um desenho novo no meu caminho o desenho da estrada que só quem vê é o sonhador, o dono dos sonhos. Um dia minha irmã Cristina que já morava no rio e era médica me diz que me viu pular do abismo quando vim para terras cariocas. Mas eu nao vi abismo eu vi uma estrada iluminada a minha estrada sonhada. Só meus olhos podiam enxergar. Na bagagem eu trouxe as coisas maravilhosas que aprendi nas terras capixabas com as inquietações da época do teatro universitário da UFES, e principalmente os ensinamentos de poesia falada de Dona Maria Filina que não poupou em me ensinar desde os 11 anos a arte de dizer versos.. Como eu já tinha meu filho,o Juliano, que havia deixado temporariamente aos cuidados do pai dele, o Zanandré e da minha família, enquanto eu me organizava na nova cidade, esse menino simbolizou uma âncora, um modo de dar rumo ao meu voar e às direções das braçadas. Tudo também era por ele. Meu farol.

    Escrevo essas palavras ainda olhando daquela janela na rodoviária, com os olhos dos meus pais na alegoria da alma, hoje seguros de que fizeram a coisa certa.

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    O que nenhum de nós sabia só me foi revelado na mesa de jogo de Mãe baiana de Oyá: minha filha, você é de Oxóssi e de Iansã, mas Iemanjá é sua guia, foi a energia dela que guiou todo seu povo antes de você até aqui.

    Aí que pude entender tudo. Sou nascida na lira de 2 de fevereiro onde tanta gente vem aos pés das águas agradecer. É dia da gratidão, e a coisa é tão forte que até quem diz que não acredita, pula as 7 ondinhas, se vesti de branco, e joga flor. Prá quem? Pra Ela. Então sou do bloco do poeta da Viola que diz: não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.

    Elisa Lucinda, sol em aquário, 2026,
    Salve Odoyá!

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