Quilombo do Poema
Toda 1ª segunda-feira do mês, a autora escreve uma coluna exclusiva para a Bravo!. Confira o poema inédito a seguir
Ela dorme na calçada.
Faz mais de meio dia já
na vida da grande cidade.
Avança a a tarde .
Linda mocinha , apesar de
deitada no chão da rua,
como se fosse da pobreza o estandarte.
Sobrancelhas lindamente esculpidas ,
cílios longos ,espessos,
naturais e muito pretos.
Nariz escultural .
Boca desenhada .
Lírica.
Era muito preciosa de beleza.
Eu a nomearia Jade.
Toda reluzente de realeza,
mesmo que
chafurdada na sarjeta.
Estava ali jogada
no q se chama anti-riqueza.
Mas está errado .
Ela é realeza.
A pele em fino
cetim marrom cobreado.
Brilhava.
Teria talvez 13 anos ,
assim por alto calculado.
Por que saíra de sua casa ?
Teria algum dia tido?
Conhecera algum ninho?
Os braços sobre o peito protegido.
O cobertor meio sujo e roído.
Dormia, morando talvez
num sonho mais lindo.
Mais digno.
Menos oprimido.
Num jogo mais limpo.
Quem a terá ferido
no suposto lar ,
pra que ela tenha a rua preferido?
O companheiro da mãe,
o novo marido?
Um padrasto ,o próprio pai
ou outro monstro conhecido?
Que miséria a exilara?
Quem desta vez a terá atingido?
Percebo.
Ó espelho meu.
Uma vida negra
organicamente me importa.
Narciso percebeu.
Ela também sou eu.
Ô gente ,acode ela!
Tem uma menina preta abandonada
dormindo nas ruas de Copacabana.
Todos desolham
a moça que parece da favela.
Morava talvez entre vielas.
Ninguém se importa.
Nem viva . Muito menos morta.
Uma bela adormecida , bela.
Não é branca mas é Cinderela.
Ô gente acode ela.
Ninguém liga.
Sigo com ela no peito.
Não a esqueço .
Não posso.
Trago -a pra casa .
Trasporto pra dentro da alma
a impactante e apagada cena.
Faz séculos q invasores
expulsaram nosso povo da própria terra.
Conheço o esquema .
Por isto trouxe essa Africazinha
pra ficar comigo aqui,
sem as invisíveis algemas.
Segura, vai viver comigo em livro,
ao abrigo livre do poema.
Elisa Lucinda, agosto de 2025
Inverno criador de versos.