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Inutensília poesia

Uma conversa com a portuguesa Filipa Leal, que fala sobre a liberdade de escrever e a autoironia dos seus versos

Por Carlos Castelo
7 dez 2021, 16h16 • Atualizado em 2 dez 2024, 14h57
Filipa Leal (/)
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  • Foi numa aula do professor Leonardo Gandolfi, na cadeira Leituras da Modernidade, na Unifesp. Ali eu ouviria falar, pela primeira vez, de Filipa Leal. Gandolfi leu-nos uma série de poemas do livro Adília Lopes Lopes. E logo me chamou atenção uma espécie de autoironia, quase humor, nos versos da autora portuguesa. Na sequência, o professor mencionou a tese de mestrado de Filipa — cujo título é Aspectos do Cómico na poesia de Alexandre O’Neill, Adília Lopes e Jorge de Sousa Braga. O trabalho foi concluído por ela na Universidade do Porto, em 2005.

    Leitor de Adília e de Alexandre, eu já era. Faltava agora saber o que unia aquela poeta tão inconfundível a seus dois antecessores. Minha primeira atitude foi solicitar à Faculdade de Letras da Universidade do Porto uma cópia da dissertação de Filipa. Assim começava minha conexão com uma obra tão espirituosa e sutil, que parece estar erigida sobre um alicerce de nuvens. Como neste poema presente em Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano:

    É SÓ HUMOR NEGRO, AMOR
    (Cutelo e nariz de palhaço sobre madeira, 2018)

    Sempre que se expunha ao ridículo, pensava
    que os humoristas também eram casados.
    Alguns até talvez fossem alvo de admiração
    dos seus cônjuges.
    Não resistia ao humor, mesmo quando sabia
    que ia ficar feia, desgrenhada, nada misteriosa.

    Não tenhas medo, amor, é só humor negro.
    Eu até conheço outros mas prefiro o negro
    Porque dá mais jeito ao exagero, à estupefação.

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    Não há razão para desconfiança, amor,
    É só humor negro: daquele que não te faz rir
    porque tu sempre preferiste a discussão.

    Segue-se a entrevista exclusiva que Filipa Leal concedeu a Bravo!.

    Você vê alguma similaridade entre a poesia contemporânea brasileira e a portuguesa?
    Eu acho que há semelhanças entre toda a poesia do mundo. A poesia, quando é poesia, não tem passaporte, nem país, nem fronteiras. A poesia não é de língua portuguesa, ou inglesa, ou japonesa. A poesia fala a sua própria língua. E há também, entre todos os poetas do mundo, a semelhança de corrermos o mesmo risco: o de vivermos, como dizia o “vosso” Paulo Leminski, de “um inutensílio”. Como Leminski deixou dito: “É muito mais lucrativo você abrir uma banquinha e vender banana do que fazer poesia”.

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    Dentre os poetas brasileiros haveria algum por quem devota uma especial atenção?
    Eu sou uma fanática da literatura brasileira. E há casos (como o de Clarice Lispector) em que não consigo sequer distinguir entre poesia e prosa. Sou louca por Clarice, Drummond, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Ana Cristina César… A lista dos meus amores brasileiros não acaba nunca porque vai aumentando sempre. Tenho procurado estar atenta ao que vai saindo agora e que me vai impressionando muito. Em 2018, fiz parte do júri do Prémio Oceanos e fiquei maravilhada com a qualidade e originalidade dos novos poetas brasileiros.

    Como a poeta Adília Lopes se tornou uma figura tão central em sua obra?Eu fiz o mestrado em Literatura Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Letras do Porto, a minha cidade, a norte de Portugal. Aprendi muito sobre literatura brasileira (com um grande mestre, o Professor Arnaldo Saraiva) e também sobre literatura portuguesa. Quando escolhi o tema do humor para a minha tese, tinha em vista apenas a obra de Alexandre O’Neill. Foi o Arnaldo Saraiva, meu orientador, que me deu a ler Jorge de Sousa Braga e Adília Lopes, dois poetas que se tornaram meus. Com a Adília, tive uma relação amor-ódio, mas não necessariamente por esta ordem. Comecei por resistir-lhe e acabei a escrever-lhe um livro [Adília Lopes Lopes, não-edições, 2014]. Mais recentemente, prefaciei também a edição da sua obra na Colômbia [Escribir un Poema es Como Atrapar un Pez, ed. Tragaluz, 2018]. Acho que, como a própria Adília escreveu: “precisei de apanhar o peixe/ para me livrar do peixe”.

    É difícil ser uma poeta que usa de autoironia e humor na conhecida sisudez da sociedade portuguesa?
    Eu não reconheço essa sisudez na sociedade portuguesa. Reconheço a nostalgia, alguma tendência para a afirmação da tristeza, talvez. Mas há grandes humoristas portugueses e há grandes poetas portugueses com o humor na ponta da língua.

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    Entre o caminho mais conceitual e o caminho de que a poesia não foi feita para comunicar ou representar nada, qual você escolhe?
    Escolho, sempre, o caminho da liberdade: um poema deve poder ser o que escolher ser.

    Adília Lopes recebeu críticas por participar, durante uma determinada época, de programas de TV. Você apresenta, com Pedro Lamares, o programa Nada será como Dante, na RTP2. Acredita que tais críticas a Adília têm sentido?
    Há uma resposta de George Steiner, numa entrevista que li há uns anos, que nunca esqueço e que até usei como epígrafe de um poema meu. Dizia Steiner: “Sabe uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão”. [risos]

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