Nnena Kalu se torna a primeira artista com deficiência intelectual a ganhar o Turner Prize
Seu trabalho abrange desenhos, pinturas, esculturas e instalações, construídos em processos repetitivos de amarração, sobreposição e envolvimento de materiais
Uma artista britânica se tornou a primeira pessoa com deficiência intelectual a vencer o prestigiado Prêmio Turner, reconhecimento anual concedido desde 1984 pelo museu Tate Britain. Em 2025, a escolhida foi Nnena Kalu, artista neurodivergente cuja obra vem ganhando destaque no circuito internacional. Como parte da premiação, ela recebeu £25 mil (cerca de R$ 180 mil). O Turner Prize contempla artistas britânicos ou residentes no Reino Unido e se concentra exclusivamente em trabalhos recentes.
“O trabalho de Nnena foi escolhido sobretudo pela sua qualidade, mas, por ela ser uma artista neurodivergente e ter a comunicação verbal limitada, era alguém que antes ficava do lado de fora. [A vitória dela] começa a apagar essa fronteira entre o artista neurotípico e o neurodivergente. De repente, nos damos conta de que essa divisão sempre marcou a nossa história e também a arte contemporânea. Agora, porém, essa fronteira está se dissolvendo”, afirmou Alex Farquharson, presidente do júri e diretor da Tate Britain.
Desde 1999, Nnena Kalu desenvolve sua prática artística no estúdio da ActionSpace, no Studio Voltaire, em Londres. Seu trabalho abrange desenhos, pinturas, esculturas e instalações, construídos a partir de processos repetitivos de amarração, sobreposição e envolvimento de materiais como têxteis, papel, celofane e fita adesiva.
As instalações costumam partir de formas compactas (semelhantes a casulos ou rochas) que se expandem pelo espaço, estabelecendo uma relação direta entre o corpo da artista, o gesto e a escala das obras. Mesmo nos trabalhos bidimensionais, o desenho é tratado de maneira escultórica, condicionado pelo alcance dos braços e pelo tamanho do suporte, muitas vezes em composições realizadas em pares, nas quais uma imagem funciona como eco da outra.
Nascida em Glasgow, em 1966, filha de pais nigerianos, Kalu começou a produzir arte ainda nos anos 1980. Após um longo período dedicada a obras bidimensionais, passou, a partir da década de 2010, a desenvolver esculturas feitas com materiais encontrados, como tecidos, papéis, fitas e resíduos diversos. Essas obras ocupam o espaço de forma densa e física, reforçando a relação entre gesto, matéria e repetição como eixo central de sua prática.
Em 2025, a artista apresentou sua primeira grande exposição institucional, na Kunsthall Stavanger, na Noruega, e passou a ser representada pela galeria londrina Arcadia Missa.