Entenda a obra “O Lago das Ninféias”, de Monet
Chamada por alguns de "A Ponte Japonesa", Monet, como se fotografasse seu jardim, não queria mostrar a ponte nem o lago. Queria levar o espectador até Giverny
É maravilhoso de ver, mas enlouquecedor de pintar. Foi o que disse Claude Monet (1840-1926) sobre a série chamada Nenúfares, um conjunto de óleos que retratam a ponte sobre o lago de seu jardim em Giverny, na França. Um deles, de 1899, é O Lago das Ninféias, chamada por alguns de A Ponte Japonesa, título de outro trabalho que identifica o tipo da ponte na propriedade e que se estende à série de pinturas.
Na época, Monet já sobrevivera a uma guerra e a uma tentativa de suicídio. Ali buscou a paz até que a catarata nos olhos o
fez mudar a forma de ver o mundo. Monet estava no meio do caminho entre dois momentos. A principal figura do impressionismo já tivera obras recusadas pelo Salão de Paris, se associara a outros mestres como Pierre-Auguste Renoir, Camille Pissarro e Alfred Sisley e, depois das agruras financeiras que o fizeram contemplar a morte, vivia então uma fase de tranqüilidade ao lado da família, a segunda mulher e sete filhos, em Giverny — período encerrado quando a doença nos olhos
quase o obrigou a abandonar a pintura.
De um lado ou outro da ponte, e na história da arte, Monet foi talvez o maior expoente de um movimento que deu novo sentido à pintura. Com o advento da fotografia, o realismo nas artes visuais já não bastava. Ao ar livre, o artista confrontava a natureza e, com rápidas pinceladas sobre a tela, pintava o efeito complexo da luz e suas impressões sensoriais. Muito disso aprendeu observando os quadros dos britânicos William Turner e John Constable durante seu exílio em Londres. Sua tela Impressão, Nascer do Sol levou o crítico Louis Leroy a escrever: “Pensava eu, justamente, se estou impressionado é porque há lá uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha”.
A mesma impressão costuma ser associada à série dos nenúfares. Não que não se perceba a ponte — ela é mais clara em algumas telas do que em outras. O que se vê, no entanto, são mais manchas densas, quase abstratas, de cor. Não interessa tanto o objeto do quadro, mas a sensação que provoca. A própria composição denuncia outro procedimento impressionista: o olhar fugaz, o registro instantâneo da natureza. Monet, como se fotografasse seu jardim, não queria mostrar a ponte nem o lago. Queria levar o espectador a Giverny.
Da mesma forma, quando retrata a catedral de Rouen, numa série de quadros, tampouco importa que aquela seja a catedral. Monet quer mostrar a incidência da luz sobre a construção gótica. Após da morte da segunda mulher, Alice, em 1911, o artista começou a apresentar os sintomas da catarata. Pouco depois, agravando seu quadro de tristeza, o filho Michel serviu como soldado na Primeira Guerra Mundial.
Em 1923, Monet chegou a passar por duas cirurgias nos olhos. Até aquele ano, pintou quadros de tonalidade mais avermelhada, fenômeno típico da visão de vítimas de catarata. Depois da cirurgia que removeu o cristalino de seu olho direito, o pintor passou — segundo o que se especula — a enxergar raios de freqüência ultra-violeta, que registra, sobretudo, o azul. Isso explicaria por que até sua morte, em 1926, as plantas de Giverny foram ficando cada vez mais
azuis em seus quadros.
*Esta matéria faz parte do acervo da Revista Bravo! e foi originalmente publicada em 2008 na edição impressa Especial 100 obras essenciais da pintura mundial