Como funciona o museu virtual de bens culturais roubados
O Virtual Museum of Stolen Cultural Objects, da UNESCO, é a primeira plataforma global dedicada exclusivamente a bens culturais furtados ou traficados
Muitas vezes, o roubo de um bem cultural envolve perdas que vão além do aspecto material e atingem a memória associada a esse patrimônio. Para tornar visível esse vazio, a UNESCO lançou o Virtual Museum of Stolen Cultural Objects, a primeira plataforma global dedicada exclusivamente a bens culturais furtados ou traficados.
O museu funciona inteiramente no ambiente digital e reúne objetos desaparecidos de diferentes regiões do mundo, períodos históricos e tipologias, como manuscritos, esculturas e pinturas. A seleção inicial foi feita a partir da base de dados da Interpol sobre obras de arte roubadas, hoje a única base internacional com informações policiais certificadas sobre esse tipo de crime.
O projeto recorre a tecnologias de digitalização em 2D e 3D e a recursos de realidade virtual para apresentar obras que hoje não podem ser vistas presencialmente. As ferramentas permitem observar os objetos de perto e situá-los em seus contextos culturais, históricos e religiosos.
O conteúdo do museu também inclui relatos de comunidades afetadas pelas perdas. Ao apresentar essas narrativas, a plataforma mostra como o tráfico ilícito não se limita ao mercado de arte, mas compromete saberes, práticas culturais e vínculos com a memória coletiva.
Uma das áreas centrais do museu é a sala dedicada à devolução e à restituição. Nela, são apresentados casos de recuperação de bens culturais conduzidos no âmbito da Convenção da UNESCO de 1970, além de outras iniciativas desenvolvidas em cooperação com diferentes países e instituições. À medida que novas obras são recuperadas, essas histórias passam a integrar o acervo digital.
Anunciado durante a conferência Mondiacult 2022, o museu foi concebido como um projeto em constante atualização. Novos objetos poderão ser incorporados conforme outros roubos sejam registrados, e o conteúdo será ampliado com informações sobre investigações, devoluções e ações de prevenção.
A concepção arquitetônica do ambiente virtual foi feita pelo arquiteto Francis Kéré, vencedor do Prêmio Pritzker em 2022. Inspirado na imagem do baobá, árvore – símbolo de encontro e transmissão de conhecimento em diversas culturas africanas, o espaço foi pensado como uma estrutura que conecta histórias locais a um patrimônio compartilhado em escala global.