Avatar do usuário logado
Usuário

A Evolução dos figurinos da patinação artística olímpica

A história das roupas na patinação artística e o momento em que a criatividade virou linguagem

Por Ana Claudia Paixão Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 fev 2026, 07h01 • Atualizado em 18 fev 2026, 13h10
cena-filme-eu-tonya-margot-robbie
Margot Robie interpretando Tonya Harding no filme "Eu, Tonya"  (Divulgação/divulgação)
Continua após publicidade
  • Se Milano Cortina 2026 parece o auge de uma era em que os figurinos roubam a cena, é porque houve um longo caminho até aqui. A patinação artística nunca foi apenas técnica, mas durante muito tempo se vestiu como se fosse. O gelo era território de elegância disciplinada. A roupa cumpria protocolo. A criatividade existia, mas contida.

    No início do século 20, quando a patinação ainda carregava forte influência do balé europeu, as mulheres competiam com vestidos longos, mangas fechadas e tecidos pesados. A prioridade era decoro. O esporte estava associado à aristocracia e à ideia de refinamento social. Movimento amplo e liberdade corporal eram limitados também pelo vestuário. Nos anos 1940 e 1950, as saias encurtam, os tecidos ficam mais leves e a silhueta se adapta melhor ao salto e à rotação. Ainda assim, o ideal visual permanece clássico. Nada deveria distrair do que se entendia como “pureza” da linha corporal. Homens vestiam calças escuras e camisas discretas. A neutralidade era a regra tácita.

    A explosão de brilho começa a ganhar espaço nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1970, quando a televisão amplia o alcance do esporte. Câmeras mais próximas exigem impacto visual. Cristais e pedrarias entram com mais força. Mesmo assim, a estética segue relativamente homogênea. Feminilidade romântica para elas. Sobriedade atlética para eles. Nos anos 1990, a patinação vive um momento de alta dramaticidade pública. A rivalidade entre Tonya Harding Nancy Kerrigan revela algo incômodo. Harding, muitas vezes competindo com figurinos feitos à mão ou com menos acabamento luxuoso, era julgada não apenas por sua técnica, mas por sua aparência. A roupa se torna marcador de classe e de pertencimento estético. A narrativa midiática deixa claro que imagem e pontuação nunca estiveram completamente dissociadas.

    Ainda assim, até o início dos anos 2000, havia regras rígidas que limitavam a criatividade formal. Mulheres eram obrigadas a competir de saia em provas individuais e de duplas. A ideia de que o figurino deveria preservar um padrão tradicional era institucional.

    A grande inflexão ocorre após o escândalo de julgamento nos Jogos de Salt Lake City 2002. Em 2004, a ISU implementa o novo sistema de pontuação. Surgem os Componentes de Programa, que avaliam interpretação, composição e apresentação. O figurino não passa a valer pontos diretos, mas passa a influenciar a percepção desses componentes. A apresentação se torna critério formalizado. A roupa entra, ainda que indiretamente, na equação.

    Continua após a publicidade

    No mesmo ano, cai a obrigatoriedade de saias para mulheres nas provas individuais e de duplas. Unitards, calças e silhuetas alternativas passam a ser permitidas. Esse detalhe técnico abre espaço para novas linguagens visuais. Em 2022, ajustes adicionais ampliam flexibilidade também na dança no gelo. A criatividade, antes limitada por norma explícita, ganha terreno institucional.

    Paralelamente, a relação com a moda se intensifica. Vera Wang, ex-patinadora, torna-se símbolo dessa ponte entre alta-costura e gelo. Ela vestiu Nancy Kerrigan nos Jogos de 1992, colaborou com Michelle Kwan ao longo de sua carreira e criou figurinos para Evan Lysacek Nathan Chen. Com Wang, o figurino deixa de ser apenas funcional e assume vocabulário de moda. E acompanhou pessoalmente as provas em Milão, claro!

    Outros nomes consolidam a profissionalização do setor. Mathieu Caron passa a trabalhar com atletas de elite e ajuda a sofisticar a linguagem visual da dança no gelo. Lisa McKinnon constrói reputação no circuito americano, vestindo atletas como Alysa Liu e Amber Glenn, incorporando referências pop e couture ao gelo. E Ito Satomi redefine a estética masculina ao vestir Yuzuru Hanyu em figurinos que misturam tradição japonesa e dramaturgia contemporânea, influenciando toda uma geração.

    Continua após a publicidade

    A criatividade passa a ser não apenas permitida, mas esperada. O figurino torna-se ferramenta estratégica de diferenciação. Em um esporte decidido por décimos, criar uma identidade visual clara pode ajudar juízes e público a compreenderem a narrativa do programa. A roupa não substitui técnica, mas molda percepção.

    As regras, contudo, continuam a delimitar fronteiras. O traje deve ser modesto, digno e apropriado. Não pode parecer fantasia literal. Acessórios soltos são proibidos. Qualquer parte que caia no gelo gera dedução automática. Designers aprendem a costurar com redundância, reforçar fechos, distribuir cristais com atenção ao peso. Um figurino pode conter milhares de pedras, mas precisa pesar o mínimo possível para não comprometer salto e rotação.

    O que Milano Cortina 2026 revela é o resultado dessa evolução histórica. A roupa já não é uniforme elegante. É armadura simbólica. É extensão da coreografia. É identidade em movimento.

    Continua após a publicidade

    Quando Ilia Malinin veste as construções precisas de Ito Satomi, ele representa o momento em que a masculinidade no gelo deixou de ser tímida ou caricata e passou a ser desenhada com intenção. Quando a dança no gelo aposta em narrativas quase cinematográficas, com figurinos que dialogam com flamenco, arquitetura ou ficção científica, estamos vendo a consolidação de um processo que começou quando a criatividade deixou de ser tolerada e passou a ser linguagem.

    Os figurinos roubam a cena hoje porque aprenderam, ao longo do tempo, a não pedir licença. E porque o gelo finalmente entendeu que estética também é performance.

    Publicidade