A cosmovisão maia de Edgar Calel ocupa Inhotim
Em “Ru Jub’ulik Achik’ – Aromas de um sonho”, apresentada na Galeria Lago, Calel compartilha a visão de mundo dos kaqchikel-maia, povo originário da Guatemala
Os territórios dos sonhos e da arte compartilham um traço fundamental. Ambos conseguem se suspender para além do tempo linear, conectando memórias, percepções do presente e ideias de futuro, como se tudo coexistisse em um mesmo caldeirão simbólico e em uma única identidade. É a essência da narrativa em sua forma mais crua, quando parece escapar ao controle humano e afirmar sua própria autonomia. Não por acaso, muitas culturas reconhecem no espaço onírico uma dimensão de diálogo com o divino, com aquilo que ultrapassa o ordinário da vida cotidiana. A arte, por sua vez, tensiona esse mesmo território. Em sua dimensão construtiva e manipulativa, apresenta-se como uma zona profana do sonho. Como se o humano ousasse ocupar o lugar de quem controla aquilo que, em princípio, deveria permanecer fora de suas mãos. Sua própria história, talvez.
O artista guatemalteco Edgar Calel parece transitar entre esses dois universos com fluidez, quase como quem não reconhece fronteiras entre um e outro, ou como alguém autorizado a atravessá-las. Grande parte da matéria de suas obras nasce justamente do fluxo dos sonhos. É desse território que vem também o título de sua primeira grande exposição individual no Brasil, “Ru Jub’ulik Achik’ – Aromas de um sonho”, apresentada no Inhotim, na Galeria Lago. Nela, Calel compartilha a visão de mundo dos kaqchikel-maia, povo originário das terras altas do centro-oeste da Guatemala, oferecendo ao público as imagens, mas também algo mais importante: a cosmovisão que estrutura sua própria existência.
Embora essas ideias e paisagens estejam separadas por territórios e histórias distintas, parece haver, em seu âmago, uma conexão indecifrável. Brumadinho, em Minas Gerais, e a Guatemala, por exemplo, revelam afinidades para além da geografia. É o que observa Beatriz Lemos, curadora coordenadora do Inhotim. “Apesar de vir de um território distante, ele [Calel] conhece profundamente Brumadinho: esteve aqui por longos períodos, conhece os ateliês, os artistas e as pessoas. Sua prática, para nós, é uma prática irmã de muitas que encontramos aqui — uma prática colaborativa, construída em diálogo próximo com o que temos desenvolvido no Inhotim. Por isso, encontrou aqui um solo muito fértil.”
A aproximação entre o museu a céu aberto e o artista teve início há pouco mais de dois anos. Assim que chegou ao espaço onde sua exposição seria concebida, Calel fez uma pergunta decisiva: o que aquela arquitetura havia sido antes de se tornar uma galeria? Para criar em profundidade, era necessário compreender a identidade do lugar que abrigaria sua arte. Era preciso, de algum modo, tornar-se parte dele. Era necessário escavá-lo.
“Calel não estava interessado, por exemplo, em simplesmente transportar as obras dele ou transferir toda a sua produção para esta instituição. Ele queria fazer junto. Esse é um princípio fundamental deste projeto: pensar junto, criar junto, realizar junto”, complementa Lucas Menezes, curador assistente.
Mas esse gesto exigia reciprocidade. Também era necessário que os curadores conhecessem o território de origem do artista. “Foi nessa primeira viagem que, com toda a equipe curatorial, que firmamos um pacto: o pacto de sonhar juntos”, completa Beatriz. “Um sonho que reverencia as culturas originárias, a espiritualidade e o território entendido como corpo sagrado. Para isso, foi necessário o deslocamento dos nossos próprios corpos. Precisamos estar abertos para ir até a Guatemala, conhecer sua paisagem e nos deixar afetar por ela. Foi um processo construído no tempo — um tempo adequado, generoso, feito de idas e vindas, que nos ensinou muito. Aprendemos, com ele, a escutar o silêncio das pedras, da terra, seus movimentos e sua relação com o fogo”, explica.
Aberta em outubro de 2025, a exposição permanece em cartaz até meados de 2027, desafiando a lógica dominante de temporadas cada vez mais breves e a urgência do novo. Aqui, não parece haver escassez do tempo, mas uma dimensão a ser habitada e ressignificada.
A galeria foi reformulada para receber a mostra. O percurso se inicia nas terras de Calel, nas montanhas da Guatemala. Elas ocupam uma presença simbólica colocada em diálogo com as montanhas mineiras — e com toda a memória, beleza e trauma que carregam. Ao longo do trajeto, o artista conduz o visitante por sua própria ficção, seus sonhos, suas relações e seus rituais cotidianos. O caminho culmina em uma representação de sua casa-ateliê em San Juan Comalapa, reafirmando a impossibilidade de dissociar vida e arte. Nesse espaço, surgem oferendas à terra, às pedras e aos frutos, assim como ao milho, elemento central nas cosmologias de seu povo. As interpretações podem variar, mas um aspecto permanece incontornável: no centro de tudo está a ideia de família e de coletividade.
Esse princípio também orienta o próprio método de criação do artista. Quando veio ao Brasil desenvolver a exposição, Calel trouxe consigo sua família, entendendo que a família é a sua unidade. Esse gesto se inscreve materialmente em obras como Q’eq Ulef Xan [Parede de terra fértil] (2025), um bordado de oito metros produzido com a colaboração direta de seus parentes.
“O artista propõe uma experiência imersiva construída a partir de elementos naturais, em um espaço organizado pela relação com o território, pela ideia de comunhão, pelo núcleo familiar e pela espiritualidade. Esses são os eixos que orientam sua trajetória poética e que o colocam hoje como um nome de destaque na arte contemporânea internacional”, diz Beatriz Lemos.
Entre as obras que mais mobilizam o público está a instalação em escala real de uma caminhonete vermelha, ocupada por esculturas que representam uma família. São eles, afinal, que conduzem o visitante por esse território suspenso entre paisagem, memória e sonho.
Pelos olhos de Calel
“Na minha família, aprendemos a ler o mundo de muitas formas: pelos cheiros, pelo clima, pelo que vemos e também pelo toque. Às vezes, é preciso tocar a pedra e perguntar o que ela quer dizer, o que ela desperta em nós, que pensamentos e sentimentos ela revela”, declarou o artista em entrevista à Bravo.
Calel possui uma presença serena. Seus gestos são calmos, frequentemente acompanhados por um sorriso discreto e por uma ausência de ansiedade rara no circuito artístico contemporâneo. Sua postura parece contrariar o ritmo acelerado e a constante necessidade de produtividade que marcam o meio.
Muitos dos trabalhos apresentados nasceram inicialmente como sonhos, poemas ou conversas informais vividas na parte de trás de uma caminhonete, em Comalapa. Ao ganharem forma naquele novo território, tornaram-se também uma extensão de sua própria história. O gesto de escavar, mencionado pelo artista, deu origem a uma das obras, um fragmento que remete a um osso, descascado diretamente sobre a arquitetura, como se revelasse uma camada profunda e ancestral do espaço.
“Só foi possível processar essas ideias e transformá-las em um objeto ritual, uma performance, que realizamos hoje com meus irmãos, com minha mãe, com meu pai — sem eles não teria sido possível”, afirma o artista. “Quando faço esse tipo de trabalho aqui, é uma forma de construir uma memória coletiva, conectando o sul de um continente. E isso é importante porque a vida permite, e a instituição também”, conta Calel.
Quem atravessa a entrada de uma exposição, ainda que não perceba, firma uma espécie de contrato invisível. Um acordo silencioso que pressupõe a possibilidade de ser afetado — de sair dali diferente de como entrou. E pode provocar estranhamento, confusão e até desagrado. Mas é justamente em suas camadas mais sutis que ela opera seus deslocamentos: cria imagens internas, constrói pontes com as nossas próprias memórias e experiências e exige um pouco de paciência e abertura para ver e ouvir o outro. Em muitos sentidos, é esse o território sensível que “Ru Jub’ulik Achik’ – Aromas de um sonho”, de Edgar Calel, propõe ao visitante.
“Espero que o público consiga explorar o lado artístico da experiência. Muitas vezes, a partir de uma perspectiva muito eurocêntrica, pensamos no que significa “ser artista”. Mas, a partir de uma visão mais humana, percebemos que o contato com a terra, com o carvão, com os elementos disponíveis nas mãos já é arte”, completa o artista.
Obras
Compõem ao todo 15, sendo que 12 deles foram comissionados pelo Inhotim — Ru b’ix Qa Tzub’al [Canto visual para nosso espírito], (2025); Aqu’omanik Paruwi Juyu’ [Cura sobre as montanhas], (2025); Kotib’ib’al k”ux [Embalar seu espírito], (2025); In b’aqil [Sou um pedaço de osso], (2025); Oxi ijatz, oxi ixim, oxi ab’äj [Três sementes, três milhos, três pedras], (2025); Tzalen siwan [Profundo Abismo], (2025); Qatit Qa Mama’ Wawe Oj k’owi Chawech [Avó, avô, estamos aqui diante de ti], (2025); Kej- chi’ch’ [Veado de metal], (2025); Q’eq Ulef Xan [Parede de Terra Fértil], (2025); Nimajay kaqchikel [Casa grande Kaqchikel], (2025); Tab’el [Lugar sagrado para não esquecer], (2025).
A esses se somam outras três obras: Ix b’alam Winaq [Mulher Terra, Jaguar Pessoa Completa], (2019–2025); Ki munib’al qatit qa mama’ [Oferendas para as avós e avôs], (2025); Xi ni chajij [Me protegeram com a essência do fogo / me cobriram de cinzas para me proteger], (2022).